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segunda-feira, 1 de junho de 2015

II Congresso Internacional de Estudos do Rock

Apresentação da banda Beto Eyng e Seus Capangas, no I Congresso 
Seguem abertas as inscrições para ouvintes no II Congresso Internacional de Estudos do Rock, que se realizará no Anfiteatro da Unioeste, Campus de Cascavel, de 04 a 06 de Junho de 2015.

O evento é organizado pelo Colegiado de Pedagogia e pelo Mestrado em Educação/ Campus de Cascavel da UNIOESTE, com a co-promoção da Facultad de Periodismo y Comunicación Social de la Universidad Nacional de La Plata (UNLP) – Argentina. O evento acadêmico irá contar com conferências, mesas redondas, sessões de comunicações orais, lançamento de livros e CDs, shows de bandas e exposições artísticas. 

Este ano, a segunda edição irá homenagear a banda O Terço, considerada uma das mais importantes bandas de rock da música brasileira. Em 2015, completam-se 40 anos do lançamento do seu álbum Criaturas da Noite. O Congresso vai contar com a formação do Terço de 1975: Flávio Venturini, Sérgio Magrão e Sérgio Hinds. Nesta ocasião, vamos render uma homenagem ao baterista desta mesma formação, Luis Moreno, falecido em 2003.

Além da carreira junto ao Terço, os músicos se destacaram em carreiras solo e com outros grupos. Flavio Venturini é intérprete de grandes clássicos da MPB como Espanhola, Nascente, Besame, Todo azul do mar, Noites com sol, entre outras.   

Sérgio Magrão é um dos baixistas de maior renome na MPB, além de integrar O Terço, ainda faz parte do 14-Bis, uma da mais importantes bandas do cenário musical brasileiro. É autor, em parceria com Luiz Carlos Sá, de um dos grandes clássicos da MPB, Caçador de Mim, gravada por Milton Nascimento com grande sucesso. Sérgio Hinds é uma referência na história do rock nacional, considerado um dos maiores guitarristas de todos os tempos. 

Além de O Terço, na sessão Conversa com Músicos, iremos contar com a presença de Miguel Cantilo, expoente do rock argentino, da memorável dupla Pedro y Pablo. Cantilo é um dos mais importantes nomes do rock argentino, com uma produção extensa desde 1970 e que lançou seu último CD no ano passado. É autor de clássicos como Marcha de la bronca, Padre Francisco, Adonde quiera que voy, Catalina Bahía, entre outros êxitos na Argentina.

No segundo dia, o evento contará com uma palestra do músico e professor Frank Jorge. Artista importante da cena porto-alegrense e um dos nomes mais importantes do rock gaúcho, seja em sua carreira solo, como por intermédio de sua participação no grupo de rock Cascavelettes.

O evento contará com apresentações musicais como a banda do Congresso que homenageará O Terço, além de bandas locais como Fulminantes, Billy Montana & Os Voadores (que irá prestar uma homenagem a Miguel Cantilo) e Black Mountain Side.

Também haverá duas exposições artísticas no hall do Anfiteatro. A primeira é a exposição Músicas Ilustradas II (Rahma Projekt), pelo artista plástico Rafael Hoffman (Criciúma) e a outra, intitulada Capas censuradas, apresentará imagens de capas de discos censuradas pela censura espanhola, organizada pelo jornalista espanhol Xavier Valiño.

O Congresso contará com palestras de grandes especialistas nacionais e estrangeiros debatendo temas vinculados ao rock.  Haverá ainda lançamento de livros sobre o rock de autores nacionais e estrangeiros, bem como de CDs. 

A conferência de abertura, La censura en el rock durante el régimen de Franco, será ministrada no dia 04 de junho, pelo jornalista espanhol Dr. Xavier Valiño. Na noite de quinta-feira o evento irá homenagear O Terço, pelos 40 anos do disco Criaturas da Noite e prestar um tributo ao baterista Luis Moreno.

No segundo dia do evento, pela manhã, ocorrerá a mesa redonda Rock e Educação: as escolas e faculdades de rock, com a presença do Prof. Ms. Jorge Alberto Falcon (Coordenador do curso de Licenciatura em Música e Professor da PUC-PR), do Prof. Dr. Gérson Luís Werlang (Universidade de Passo Fundo, Faculdade de Artes e Comunicação) e do músico e professor  Frank Jorge (coordenador e fundador do Curso de Músicos e Produtores de Rock).

No período noturno, a atração será a vez da mesa redonda Rock e mercado editorial, como a presença de Rodrigo Merheb (Oficial de chancelaria do Itamaraty e Jornalista – autor do premiado livro O Som da Revolução, de 2012), do Prof. Dr. Guilherme Bryan (Centro Universitário Belas Artes de São Paulo, FEBASP – Brasil, documentarista do Canal Brasil e autor do clássico livro Quem tem um sonho não dança, de 2003) e da pesquisadora do rock nacional Aline Rochedo (Doutoranda em História – UFRRJ e autora da obra Derrubando reis: a juventude urbana e o rock brasileiro nos anos 1980). 

No último dia pela manhã, sábado, às 9h30, o evento contará com uma Mesa Redonda e uma conversa com o músico Miguel Cantilo, além de um debate com o Prof. Dr. Ernesto Bohoslavsky (UNGS-Argentina) e com o pesquisador argentino Lucio Carnicer (Pesquisador, radialista e professor de música – Argentina).

O Congresso recebeu 185 comunicações científicas sobre o rock, que serão apresentadas durante as três tardes do evento, com pesquisadores do Brasil, Argentina, México, Chile e Uruguai. Nestas sessões, de comunicação científica, serão apresentadas as principais pesquisas sobre o rock envolvendo os eixos temáticos Histórias do Rock, Poéticas do Rock, Rock e Cinema, Rock e Comportamento, Rock e Contracultura e Rock e Educação.

Este evento colocou Cascavel no eixo das pesquisas de ponta sobre o rock na América do Sul e tem revelado importantes trabalhos acadêmicos sobre este gênero musical e sua forte influência na sociedade e na cultura de diferentes povos.

O evento é aberto a todo público adulto e o pagamento da inscrição será realizado a partir de um boleto emitido junto ao sistema do site do evento, após a inscrição on line do participante. O valor da inscrição é acessível: alunos R$ 30,00 e demais interessados R$ 40,00. Haverá emissão de atestado de participação de 36 horas.

As inscrições seguem abertas até dia 03 de junho, por meio do site: http://www.congressodorock.com.br/evento/index.xhtml

Maiores informações: evento@congressodorock.com.br

quinta-feira, 20 de março de 2014

Comissão da Verdade realiza audiência em Cascavel

Audiência pública no auditório da Unioeste em Cascavel
A repressão agiu no interior do Paraná com prisões de lideranças sindicais, de agricultores e membros dos chamados 'Grupos dos Onze'. Pessoas que tinham em comum o fato de resistirem no período mais violento e perverso da ditadura militar brasileira, onde graves violações de direitos humanos se estenderam por todo o país. No Oeste e Sudoeste do Estado não foi diferente, ainda que a memória dominante insista no contrário, afirmando que as regiões não foram atingidas pelo regime instaurado com o golpe de 1º de abril de 1964. 

Neste sentido, de contrapor ao ideário dominante, que a Unioeste (Universidade Estadual do Oeste do Paraná) recebeu integrantes da Comissão Estadual da Verdade para uma audiência pública com o objetivo de dar voz as pessoas que resistiram a ditadura ou que foram vítimas de violações. No primeiro dia de atividades, nesta quinta-feira (20/03), foram 17 depoimentos públicos de integrantes da Guerrilha de Três Passos, do movimento dos Grupos dos Onze, além de familiares de vítimas do golpe que está prestes de completar 50 anos.

Os destaques do primeiro dia de atividades foram os relatos dos irmãos Valdetar Antônio Dorneles e Abrão Antônio Dorneles, sobreviventes da Guerrilha de Três Passos. Em 17 de março de 1965, um pouco antes de completar um ano o golpe civil-militar que derrubou o governo do presidente João Goulart, o grupo constituído por 23 homens - entre camponeses, militares e profissionais liberais - de origem trabalhista/brizolista foram protagonistas da primeira ação armada contra a ditadura.

Valdetar Dorneles, ex-guerrilheiro
A chamada 'Operação Três Passos' foi a primeira ação brasileira de guerrilha rural contra o governo militar. "Participamos da primeira reforma agrária do país, feita pelo governador Leonel Brizola, iniciamos a guerrilha com um mosquete e três rifles e durante uma ação num destacamento apanhamos outros 65 rifles e munição", recorda Valdetar, que cumpriu pena em várias prisões como preso político.

Residente em Três Passos (RS), Valdetar esclareceu que a região sudoeste do Paraná foi palco de vários episódios marcantes do período. "Um dos fatos mais marcantes foi nossa passagem por Santo Antonio do Sudoeste, onde um caminhão carregado de guerrilheiros parou para abastecer. Essa região foi onde se originou o maior 'Grupo dos Onze' do país", comenta.

Submetido a violentas torturas no 1º Batalhão de Fronteiras, em Foz do Iguaçu, Valdetar ainda carrega as marcas e cicatrizes da época. "Quando vejo as marcas lembro de minha mãe me abraçando e dizendo que era melhor viver lutando do que morrer como escravo dessa cambada", recorda emocionado, e conclui: "Até hoje sofro as consequências em minha cidade, alguns dizem "lá vai o comunista que tomou Três Passos", especialmente os da elite de minha cidade". 

 
Além de heróis da resistência, familiares daqueles que lutaram contra a repressão também deram relatos públicos; entre elas a paraguaia Domiciana Gímenez Gamarra, filha de Remígio Gímenez Gamarra, preso político sequestrado por policiais na região de Vila Portes (Foz do Iguaçu) e levado à prisão em Assunção. Integrante do 'Movimento14 de Maio', Remígio fez greve de fome na prisão e seu caso foi denunciado à Anistia Internacional. À época, a mãe de Domiciana enviou carta ao general Ernesto Geisel, então presidente do Brasil. Foi um típico caso de conivência entre duas ditaduras latino americanas. 


Domiciana Gímenez, filha de Remígio Gimenez
"Os 11 companheiros"
 

Na período da tarde, os depoimentos ficaram concentrados nos integrantes dos chamados 'Grupos dos Onze'. Foram ouvidos relatos de moradores de Barracão, Santo Antonio do Sudoeste e Capanema.  A partir de outubro de 1963, sob o comando de Leonel Brizola, surgia no Brasil o movimento, de cunho nacionalista, formado de modo espontâneo. Após ouvirem conclamações do líder gaúcho pelo rádio, as pessoas, muitas delas agricultores, deslocavam-se de casa em casa buscando assinaturas para a 'lista dos onze companheiros'.

Os grupos surgem durante a chamada ‘Campanha da Legalidade’. "Inspirados no governador Leonel Brizola, formamos esses grupos de resistência para defender as conquistas democráticas e resistir as tentativas de golpe", comenta Lauro Rossini, natural de Capanema. "Nosso primeiro objetivo era discutir a reforma agrária, não queríamos derramamento de sangue, mas sim o estabelecimento da ordem e legalidade constitucional", recorda.

Segundo dia


Na manhã desta sexta-feira (20/03), será dada continuidade a Audiência Pública da Comissão Estadual da Verdade em Cascavel, com depoimentos de lideranças Guarani sobre violações contra indígenas no oeste e sudoeste do Paraná no período militar e os impactos da construção da Usina Hidrelétrica de Itaipu.

Há registros documentais e relatos orais de queima de casas, ameaças e agressões físicas, com envolvimento de policiais e servidores do Incra na década de 70. Essas violências aconteceram no contexto da construção de usina durante a administração da Funai e Itaipu pelo coronel Nobre da Veiga e o general José Costa Cavalcanti.

Nestes casos há ainda registro da intervenção de agentes vinculados ao SNI e Polícia Federal. Entre os depoentes estará Onório Karai Benitez, "chamoy" (rezador) da comunidade de Itamarã, em Diamante do Oeste, além do professor Teodoro Tupã Alves. O segundo dia de trabalhos da audiência tem início às 9 horas, no auditório da Unioeste, campus de Cascavel.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Criado Comitê da Memória, Verdade e Justiça do Oeste do PR

Entidades reuniram-se na Unioeste, em Cascavel
Trazer à luz um período triste e cruel que muitos desconhecem. Com esse objetivo, entidades representativas reuniram-se nesta quarta-feira (04/12) no campus de Cascavel da Unioeste (Universidade Estadual do Oeste do Paraná) para constituição do Comitê da Memória, Justiça e Verdade do Oeste do Paraná. A ideia é fazer um trabalho de apuração de crimes e violações de direitos humanos durante a ditadura militar, entre os anos de 1964 a 1985, por meio de pesquisas e coleta de dados, audiências públicas e entrevistas com pessoas que vivenciaram esta época e familiares daqueles que foram atingidos pela violência e repressão nos anos de chumbo no país. 

O Comitê do Oeste irá auxiliar os trabalhos da Comissão Estadual da Verdade do Paraná (CEV) e da Comissão Nacional da Verdade (CNV), criada pela Lei 12.528/2011 e instituída em 16 de maio de 2012. Em Cascavel, a idealização partiu da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Subseção de Cascavel, em conjunto com professores e pesquisadores da Unioeste.

O advogado Yves Consentino Cordeiro, único representante do interior entre os sete membros da Comissão Estadual, explica que apesar de outro contexto, anos que se passaram, a memória segue viva em muitas famílias que sofreram com a repressão em nossa região.  "Isso não aconteceu somente no Oeste, mas também no Sudoeste, em municípios como Capanema, Santo Antônio do Sudoeste, onde houve uma resistência maior aos golpistas", diz o advogado, que foi preso várias vezes quando estudante em Curitiba. 

Presos políticos

O historiador Aluizio Palmar, do Centro de Direitos Humanos e Memória Popular (CDHMP) de Foz do Iguaçu, explicou como estão sendo desenvolvidos os trabalhos da Rede Brasil Memória, Verdade e Justiça, que agrega comitês locais e regionais que realizam pesquisas sobre o período.  "Nossa região foi palco de violações de toda natureza, chacinas, torturas, violações sindicais". 

No mês de junho, uma audiência pública da Comissão Estadual da Verdade do Paraná (CEV), ouviu nove ex-presos políticos: Adão Luiz Almeida, Ana Beatriz Fortes, Rodolfo Mongelos Leguizamon, Lilian Ruggia, Luiz Alberto Fávero, Isabel Fávero, Gilberto Giovannetti, Jair Kischeke e o próprio Palmar. Também foram onvocados para depor, Otávio Rainolfo da Silva, ex-soldado do Exército Brasileiro, e Mario Espedito Ostrovski, ex-tenente do Batalhão de Fronteira de Foz do Iguaçu, porém estes não compareceram.

Palmar informou que na região Sul do país há cinco comitês no Rio Grande do Sul (dois em Porto Alegre e os demais em Pelotas, Santa Maria e Passo Fundo), dois em Santa Catarina (Florianópolis e Criciúma) e no Paraná, além do CDHMP, há o Fórum Paranaense em Curitiba e um comitê sendo constituído em Maringá.

Audiência em Cascavel

Além da constituição do Comitê da região Oeste, as entidades iniciaram encaminhamentos acerca da realização de uma audiência pública da Comissão Estadual na cidade de Cascavel, que será realizada em março de 2014, no campus de Cascavel da Unioeste.

“Esta foi uma região muito violenta, do campo às cidades. Área de segurança nacional, foi espaço em que reinaram absolutos os militares golpistas nomeados como prefeitos e mandatários da Itaipu. Terra também de dedo duros, assassinos e troca entre presos políticos do Brasil, Argentina e Paraguai”, comenta o historiador e professor da Unioeste, Alexandre Fiuza.

A primeira reunião do grupo reuniu representantes da OAB, Unioeste, Adunioeste, Câmara Municipal de Cascavel, Instituto Mario Alves, Levante Popular da Juventude, Movimento em Defesa dos Povos Indígenas do Oeste do Paraná, Partido Comunista Brasileiro (PCB), Partido Comunista do Brasil (PCdoB), Partido dos Trabalhadores (PT), Pastoral da Juventude (PJ), Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Paraná (Sindijor-PR), Universidade Latino Americana (Unila), União da Juventude Socialista (UJS). A intenção dos organizadores é agregar outras entidades que tenham o interesse em participar dos trabalhos.  

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Licenciatura do Campo rompe "cerca do conhecimento"

Aula inaugural no Campus da Unioeste em Cascavel
"Para além das cercas do latifúndio, o rompimento das cercas do conhecimento". É dentro dessa lógica - de aproximação dos movimentos sociais com o ensino superior – que a Unioeste (Universidade Estadual do Oeste do Paraná) desenvolve experiências de Educação no Campo, proporcionando aos camponeses, acesso ao nível superior de qualidade e gratuito.

Sob o lema 'Educação do Campo, Direito Nosso, Dever do Estado e Compromisso com a comunidade', foi realizada a aula inaugural de 2012 do curso de Licenciatura em Educação do Campo, desenvolvido dentro de instituições públicas de ensino superior por meio do 'regime de alternância' – que consiste em organizar o tempo dentro da lógica que possibilite a presença dos camponeses na universidade sem o abandono do campo.

No Paraná, duas instituições oferecem o curso, a Unioeste e a Unicentro (Universidade Estadual do Centro-Oeste). "A intenção é que os camponeses permaneçam no campo, vários deles já dão aulas ou são lideranças de suas comunidades", explica o professor Paulo Porto Borges, coordenador da Educação do Campo na Unioeste. Para ele, a universidade pública tem o papel de garantir acesso ao ensino superior à classe trabalhadora, abrigando e fortalecendo a luta das classes populares.

A turma de Licenciatura do Campo conta com 53 alunos de seis estados: Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Mato Grosso do Sul, Espírito Santo e Tocantins. A maior parte deles é oriunda do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra), mas também há alunos do MLST (Movimento de Libertação dos Sem Terra), MNLM (Movimento Nacional de Luta Pela Moradia), MMC (Movimento Nacional de Mulheres Camponesas), MAB (Movimento dos Atingidos por Barragens) e PJR (Pastoral da Juventude Rural).

Os alunos foram indicados para fazer o vestibular por suas próprias comunidades, como forma de atender uma demanda coletiva. A turma atual está no segundo ano de curso e, a partir do terceiro ano, os alunos serão divididos em duas áreas de conhecimento: Ciências Agrárias e Ciências da Natureza e Matemática. Após formados, eles estarão habilitados para darem aulas na séries finais do Ensino Fundamental e Ensino Médio.

Alguns educandos já são educadores nas comunidades que vivem. É o caso de Clara Orzekoski, que atua há 10 anos como educadora do campo nas escolas itinerantes do MST. Ela é moradora de um assentamento na região do Vale do Ivaí. "Estamos buscando nossa formação, tendo a coragem de resistir, entrando na universidade para abrir esse elo com a sociedade e mostrarmos quem somos, mostrar a luta do homem camponês", destaca Clara.  

A aluna explica que a partir dessa experiência vão se superando alguns preconceitos de parte da sociedade que desconhece a luta dos movimentos sociais de luta pela terra. "Nós trazemos para a universidade a lógica dos assentamentos e acampamentos, vamos vencendo preconceitos, rompendo barreiras e nossos próprios limites", aponta.

Essa lógica da realidade do acampamento é reforçada na novidade para esse segundo ano da licenciatura. Diferente do primeiro ano – onde os alunos ficavam hospedados em um hotel – dessa vez a turma ficará alojada na própria universidade durante o período do curso. Eles permanecerão em um alojamento até o início de agosto. Como o curso é um programa federal, a alimentação e hospedagem ficam a cargo do MEC (Ministério da Educação), enquanto o Estado cede estrutura e professores.

Celso Ribeiro, um dos coordenadores do MST na região Oeste do Paraná, foi um dos convidados da aula inaugural de 2012. "Nossa luta não é só pela terra, mas pela conquista de espaços. O movimento tem uma história bonita dentro da Unioeste, onde conseguimos trazer o debate da questão agrária para dentro da universidade, mesmo diante de todas as dificuldades para cursar um ensino superior. Essa formação é fundamental para que os alunos possam contribuir com o movimento", aponta.

Alexandre Webber, diretor do Campus de Cascavel da Unioeste, afirma que a universidade não pode ficar isolada da comunidade. "Temos o papel de ampliarmos a educação do nível superior, dando condições para que esses alunos permaneçam no campo com condições dignas", destaca. 

Para Paulo Porto, coordenador da licenciatura, o grande desafio é transformar o curso em regular dentro da instituição. "Esse é um momento inédito na Unioeste, um momento de resistência popular, onde os movimentos sociais fincam sua bandeira na Unioeste", conclui.






quarta-feira, 9 de maio de 2012

Duas obras, um tema e o "manto de sombras"

Luiz Manfredini ministra palestra na Unioeste
A combinação música mais história é sinônimo de ótimos debates no meio acadêmico. Esse formato, idealizado na Unioeste (Universidade Estadual do Oeste do Paraná) pelo professor Alexandre Fiuza, trouxe um tema que está em evidência com a possibilidade da instalação da Comissão da Verdade, que apurará crimes cometidos pelo Estado brasileiro durante a ditadura civil-militar.

Esse debate foi enriquecido com a presença do jornalista e escritor Luiz Manfredini, que esteve nos últimos dias na região Oeste. Nascido em 1950, o curitibano foi personagem dessa história, sendo inclusive preso no período dos 'Anos de Chumbo'.

Em Foz, ele foi um dos convidados do Salão Internacional do Livro, enquanto em Cascavel ministrou a palestra 'Memória da neblina e as moças de Minas: história e ficção sobre a ditadura'. "É a primeira vez que faço uma palestra assim, é muito gostoso ouvir música de qualidade e não ficar aqui só discutindo", diz o jornalista sobre as apresentações dos músicos Ana Carolina Noffke, Sil Vaillões e Giovani Pinheiro, que abriram o debate.

Antes do evento, o 'camarada Manfra' - apelido oriundo dos tempos de militância política no grupo Ação Popular - teve uma prosa com o Sítio Coletivo, onde falou de seus livros mais conhecidos que dão nome à palestra. Falou ainda sobre sua expectativa para a instalação da Comissão da Verdade e a atuação da imprensa na sustentação do golpe de 64 e nos dias atuais. Abaixo trechos deste bate-papo.


[Sítio] 'Memória da neblina' e 'Moças de Minas'
[Manfredini]
Na literatura podemos ter dois olhares sobre o regime, aquele jornalístico, histórico e jurídico, e o olhar da ficção. Diferente da ciência, na ficção não se precisa provar nada, mas está baseado em fatos que podem ter ocorrido. Ela te faz avançar e toca na alma das pessoas, fazendo que elas pensem. O Moças de Minas, publicado em 1989 e reeditado em 2008, é um livro jornalístico, um caso conhecido envolvendo cinco moças que pertenciam a Ação Popular, grupo que militei nos anos 60, onde estudantes se integraram a operários e camponeses. Éramos um grupo diferente dos grupos de Mariguela e Lamarca, que eram organizações armadas. Entendíamos que mais a frente esse seria o caminho, mas naquele momento era impossível, a história mostrou isso, pois do outro lado tinha um exército enorme e fortalecido. Não dava para chegar sozinho, era preciso a participação do campo, das fabricas, enfim, o livro traz depoimentos dessas cinco jovens, pesquisas junto o Supremo Tribunal Militar e uma bibliografia da época vivida, entre os anos de 1968 a 1971, que coincidem com o AI-5 (Ato Inconstitucional número 5). A outra obra, Memória de Neblina, publicada no ano passado, é uma ficção atrelada à realidade vivida nos anos 60. São três cinquentões que se reúnem para falar daquele passado. Fala da dramaticidade de viver naquela época, mas como eles eram adolescentes nessa fase, também há espaço para as brincadeiras, algumas atitudes próprias da idade, como quando vão fazer pichações nos colégios com as palavras de ordem do tipo "Abaixo a ditadura" e poesias de Ferreira Gullar. Esse era um diálogo da época de se unir a poesia e política. Os dois livros dialogam entre si, que se relacionam na problemática, apesar de não serem continuações.

Ditadura e Comissão da Verdade
A ditadura está em evidência novamente no país, devido às circunstâncias políticas, pelo momento democrático que passamos, pela instituição da Comissão da Verdade, ainda que falte a indicação dos membros do governo. Apesar de não ter caráter de punição, acho que a comissão irá prosperar. Há um interesse grande da juventude nisso, prova disso foram ações em frente às residências dos torturadores. É algo que eu não esperava e isso está acontecendo porque a sociedade entende que o país não pode avançar diante de tantas sombras em seu passado, há essa ansiedade em desvendar esse 'manto de sombras'. Ainda que a comissão não puna, é preciso tirar a limpo essa situação.

Recuos na instalação
Os recuos são próprios da luta política, são resultado de uma correlação de forças, assim como foi a própria Lei da Anistia. A comissão não depende exclusivamente da Dilma, talvez essa demora do governo em indicar seus membros tenha causado esse desgaste todo. Precisamos lutar é por uma estrutura que seja ágil, uma comissão que separe o joio do trigo, que comprove o que foi verdade, o que foi mentira e que vale a pena investigar. A própria Lei da Anistia deverá ser questionada, pois sabemos que ela foi imparcial, pois o Estado foi auto-anistiado. O que se cometeu foram crimes de Estado, veja o caso da Argentina, eles agiram positivamente ao radicalizar e o hoje o Videla está na cadeia [Jorge Rafael Videla, ex-general argentino que admitiu os crimes da ditadura]. Basicamente, se a sociedade não se envolver, se não houver pressão social, a comissão não avançará.

A imprensa e o golpe
A mídia brasileira tem três grandes momentos que merecem ser citados. Um primeiro, em 1964, quando a imprensa participa da conspiração que instaura o golpe, assim como já havia participado da oposição a Getulio Vargas. A família Mesquita [proprietária do Grupo O Estado de São Paulo] cedeu veículos aos militares e inclusive comprou armas para se preparar para uma eventual revolta. Nessa mesma fase, os meios de comunicação participam da organização da 'Marcha da Familia, com Deus e pela Liberdade'. Somente um jornal na época, o Última Hora do Samuel Wainer fazia oposição a isso. Um segundo momento é entre 1971 a 1974, quando a mídia começa a se deslocar do golpe, é quando em 1976 começa a censura do regime ao Estadão, através das receitas de bolo e dos poemas de Camões. Eu inclusive trabalhei nessa época para o Estadão, trabalhei pro PIG [Partido da Imprensa Golpista] na época (risos). Nessa mesma fase fui preso quando estava no JB [Jornal do Brasil], que precisou contratar advogados para me soltar. Já o terceiro momento é a fase pós-Lula, onde temos uma oposição direta ao governo, com uma tentativa de golpe em 2006, onde a imprensa começa a agir com o papel político, de partido de oposição. O que a revista Veja faz, por exemplo, não é jornalismo, é criação de fatos políticos que hoje, com esse caso do escândalo do [Carlinhos] Cachoeira, estamos vivendo o auge.

Os jornalistas e o patronato

A mídia privada integra o poder econômico nacional, ela vende um produto que é a informação, mas qualquer informação precisa de um mínimo de credibilidade. Quando a mídia age como partido político, como 'partido do capital', perde essa credibilidade e vai se afastando cada vez mais dos princípios jornalísticos para defender interesse de seus donos. O mais dramático é quando os jornalistas entram nessa onda de achar que a imprensa deve ser intocável e jamais questionada. Todo mundo está sob regulação de seus conselhos, mas só a imprensa não pode ter um órgão regulador. É um absurdo quando os jornalistas assumem a posição do patronato. O Mino Carta [diretor da revista Carta Capital] costuma dizer que esse é aquele profissional que trata os Marinho como se fossem 'colegas' (sic).

Blogs e novas mídias
Isso é um grande dado, veja o caso do livro Privataria Tucana, do Amaury Ribeiro Junior, que sofreu um boicote dos grandes veículos de comunicação, ele estava vendendo igual pão quente em padaria, mas a Veja não o colocava naquele espaço dos mais vendidos, só foi fazer após a pressão de blogs e as redes sociais que começaram a pipocar isso. Esse dado novo vem pra furar esse bloqueio, hoje existem sites, portais, blogs que produzem jornalismo cidadão. Óbvio que é preciso selecionar, pois tem para tudo que é gosto na internet, desde pedofilia até cidadania. Acho que a internet tem alterado a forma de fazer política, está alterando as relações. O grande problema é que acabamos sofrendo da 'síndrome do excesso de informação'.

Caminho da esquerda
As experiências que começaram com a União Soviética acabaram se esgotando, elas tiveram consequências fantásticas para sociedade, mas tiveram erros e precisamos fazer essa leitura. Ela teve a dificuldade de não poder se basear em experiências anteriores, mas serviram para promover os ideais de uma sociedade menos individualista. No início dos anos 90, tivemos uma guinada para o neoliberalismo, que se opunha a isso. Talvez o grande equívoco do projeto socialista foi achar que só existia um modelo único. Existem princípios básicos, é simplismo pensar que tomado o poder, rapidamente o socialismo será implantado, isso traz problemas inclusive para o processo democrático, pois aqueles que não se enquadram são excluídos, promovendo desigualdades sociais. Apesar disso, vimos que o capitalismo não é a solução e que não há perspectiva para esse sistema que tem como objetivo o lucro máximo, o cada um por si.


*   Luiz Manfredini é jornalista e escritor em Curitiba. Trabalhou em O Estado do Paraná, TV Iguaçu, O Estado de S. Paulo, Jornal do Brasil e revista IstoÉ, entre outros órgãos de imprensa. É colunista do portal Vermelho, membro do Conselho Editorial da revista Princípios, editada em São Paulo, e coordenador da Fundação Mauricio Grabois.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Revolução dos Cravos é tema de palestra-espetáculo

Nesta quarta-feira, dia 25 de abril de 2012, completam-se 38 anos da 'Revolução dos Cravos', movimento que ocorreu em Portugal no ano de 1974. Comandada por jovens militares de baixa patente, muitos inspirados em ideais democráticos e socialistas, essa revolução derrubou a ditadura fascista do 'Estado Novo', inaugurada por Oliveira Salazar em 1933 e que teve sequência com Marcelo Caetano.

Esse período histórico dos 'patrícios' será tema da palestra e espetáculo musical "38 anos da Revolução dos Cravos em Portugal: 25 de abril sempre!", nesta quarta-feira (25), a partir das 19h30 no auditório da Unioeste (Universidade Estadual do Oeste do Paraná). O palestrante será o professor Alexandre Fiuza, doutor em História Contemporânea.

Assim como na palestra "O Golpe de 64 e os Golpes Contra a Memória", realizada no dia 30 de março, sobre o golpe que instaurou uma ditadura civil-militar no Brasil, o professor Alexandre terá a companhia do quarteto de músicos: Ana Carolina Noffke, Cristini Colleoni, Giovani Pinheiro e Sil Vaillões, além de Leo Mariani e Ricardo Denchuski.

Primavera libertária

O nome da revolução portuguesa é inspirado na atitude da juventude portuguesa, que colocava cravos e flores nos fuzis dos soldados em comemoração a restauração da primavera democrática, libertária e anti-colonialista no país.

Esse acontecimento é tema do filme 'Capitães de Abril' e inspirou várias canções. Podemos esperar no espetáculo na Unioeste clássicos como 'Grandola, Vila Morena', do compositor português Zeca Afonso. Abaixo outra canção inspirada na Revolução dos Cravos; 'Tanto Mar' de Chico Buarque de Hollanda.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Cascavel na luta pelos 10% do PIB para educação pública

Desde o dia 24 de agosto quando mais de 20 mil pessoas se reuniram em Brasília em uma marcha em defesa da educação, a luta pelos "10% do PIB na Educação Pública Já!" vem ganhando força. Nessa manifestação - organizada por movimentos sociais, centrais sindicais, partidos e coletivos de esquerda - foi lançada a campanha e também os trabalhos para a organização de um plebiscito nacional.

Em Cascavel, a campanha também ganhará um comitê municipal. O ato de lançamento está agendado para o dia 10 (quinta-feira), a partir das 19h30, na Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste). O movimento está buscando a viabilização de urnas fixas e itinerantes a serem distribuídas em locais que serão definidos pela organização aos interessados em participar do plebiscito.  

O debate é uma pauta antiga dos trabalhadores do ensino básico e do ensino superior, vem desde o fim da década de 1990 quando foi realizado o Congresso Nacional de Educação e, por meio de pressão popular, o Governo Fernando Henrique Cardoso teria que incluir em 2001, no Plano Nacional de Educação (PNE), o repasse de 7% do PIB para educação. Na ocasião, FHC vetou o dispositivo e manteve o investimento em torno de 4%, investimento esse que aumentou muito pouco com os governos do PT, ficando em cerca 5,3%, segundo dados da Unesco.

Segundo a campanha, "investir desde já 10% do PIB na educação implicaria num aumento dos gastos do governo na área em torno de 140 bilhões de reais. O Tribunal de Contas da União (TCU) informou que só no ano passado o governo repassou a grupos empresariais 144 bilhões na forma de isenções e incentivos fiscais, além de mais de 40 bilhões estarem prometidos para a Copa e Olimpíadas".

Esses repasses a setores privados refletem bem a situação precária da educação brasileira, cada vez mais presa à lógica mercantil – um movimento universal que busca precarizar as universidades por meio de privatizações ou por meio de auxilio de ONGs e entidades sem fins lucrativos que acabam mascarando a real necessidade de luta pela educação pública de qualidade.

Disparidade

No mês de novembro, movimentos da educação devem aumentar a pressão sobre o atual governo que, até o momento, parece não ter disposição em aumentar os gastos com a educação, visto as medidas de "austeridade" que promoveram cortes de R$ 50 bilhões em gastos sociais, sendo R$ 3,5 bilhões referentes a educação.

Paralelo a isso vemos a farra dos juros da dívida. O orçamento geral da União em 2010 foi R$ 1,4 trilhão de reais, desse montante R$ 635 bilhões, o que representa cerca de 45% do total, foi destinado a pagamento de juros e amortização das dívidas interna e externa. Já a educação recebeu somente 2,89% do valor total.

Mobilizações

Nos últimos meses, grandes mobilizações aconteceram no setor da educação, seja em ocupações de reitorias ou em greves realizadas por técnicos administrativos e docentes. Durante 120 dias, técnicos-administrativos permaneceram em greve em 49 universidades federais. As principais pautas foram para o reajuste do piso da categoria e abertura imediata de concursos para substituir funcionários terceirizados.

São todos exemplos importantes nesse momento em que se intensifica a luta de classes, se intensificam ataques aos movimentos sociais, onde vozes reacionárias "ufanizam" por escolas públicas e universidades como mini-presídios. A campanha pelos "10% do PIB para a Educação Pública Já" é também uma oportunidade de reafirmação de luta e da pressão popular pelo direito democrático do povo brasileiro de exigir uma educação pública de qualidade como compromisso de Estado.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

"Pensamento político tem que pautar a revolução"

Nildo Ouriques no Seminário em Cascavel (foto: Paulo Porto)
Pautar a revolução social, sobretudo porque o capitalismo dependente é uma formação social histórica monstruosa, que não assegura a vida digna para a maioria da população. Essa deve ser a "pauta" do pensamento político e dos pensadores críticos na visão do professor e economista Nildo Ouriques, da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina). 

Doutor pela Unam (Universidade Autônoma do México), Nildo esteve recentemente em Cascavel (PR) para participar do V Seminário Nacional Estado e Políticas Sociais, organizado pelo GPPS (Grupo de Pesquisas em Políticas Sociais) da Unioeste (Universidade Estadual do Oeste do Paraná). 

Um dos expoentes do pensamento de esquerda na UFSC, onde leciona no Departamento de Economia, o professor é um especialista em América Latina e, desde 2006, dirige o IELA (Instituto de Estudos Latino-Americanos), órgão vinculado a Federal, que discute realidade política e sócio-econômica do nosso continente. 

O catarinense é um crítico das políticas econômicas desenvolvidas em países como o Brasil, classificadas como "desenvolvimentistas", que em sua opinião se constituem em falsas alternativas no processo de transição democrática da América Latina. 

Ele propõe aos desenvolvimentistas uma moratória da dívida pública externa e interna aos moldes do que foi feito no Equador e Argentina. "O Brasil vive uma contradição evidente, quando se gasta 44% de tudo que se arrecada com juros da dívida externa e interna e apenas 0,06% com política habitacional". 

Ainda sobre à dívida, Nildo questiona àqueles que costumeiramente citam a carga tributária do Brasil. "A carga é alta, mas todos sabem que nenhum país se desenvolve com uma carga baixa. O que é preciso entender que a carga é alta porque a dívida é alta, e não o contrário"

Para ele, o sistema político brasileiro foi destruído em 1994 com a implantação do chamado 'pacto de classes'. "Isso se estabeleceu com o Plano Real, esse pacto destruiu nosso sistema, transformou todos os partidos em iguais, não há diferença substancial nas propostas econômicas, todos são comportadinhos, todos dentro do figurino". 

Nildo esteve no terceiro dia do seminário em uma mesa de debates que também contou a presença dos professores Nilson Araújo de Souza [Unila] e Mirian Beatriz Braun [Unioeste]. Após o debate, Nildo conversou com esse blogueiro sobre política, economia e a 'Pátria Grande'. Acompanhe abaixo.

[Sítio Coletivo] Você falou sobre encargos da dívida pública em sua crítica ao desenvolvimentismo. Comente sobre. 
[Nildo Ouriques] A primeira proposta séria aos desenvolvimentistas seria fazer uma moratória da dívida pública externa e interna. Ela é possível, o Equador fez uma auditoria da dívida, teve moratória de 70% e 95% dos credores aceitaram essa redução dos valores pagos, os outros 5% sequer apareceram, pois estavam metidos em falcatruas. Na Argentina houve redução de 70% da dívida. Somente assim teremos políticas públicas eficazes, do contrário é só enxugar gelo, é racionalizar migalhas.

[Sítio] A que passos caminha a dívida pública no Brasil? 
[Nildo] A dívida pública chegou à estratosfera. O FHC [Fernando Henrique Cardoso] assumiu o Ministério da Fazenda com uma dívida de R$ 63 bilhões e deixou em R$ 700 bi. O Lula deixou em R$ 1,34 trilhão e agora com a Dilma chegaremos a R$ 2,6 trilhões. No último ano do Lula foram gastos 33% de tudo que arrecada para pagar essa dívida e hoje se gasta 44%. Enquanto isso são gastos 0,06% para política habitacional, que aquece mercado interno e onde temos um déficit de 10 a 12 milhões de casas. É uma contradição evidente.

[Sítio] Em relação à crise mundial, como avalia essas medidas de austeridade dos governos europeus. No Brasil, por exemplo, tivemos cortes no orçamento.
[Nildo] Isso é um padrão, esse governo sempre está sob austeridade. Por quê? Porque o governo paga os juros, dividendos, comissões e ações da dívida. Isso consome 44% do orçamento, de tal maneira que não tem como não estar sob austeridade. A austeridade se transformou em política econômica permanente, tem hora que aperta mais, tem hora que aperta menos. Isso se sustenta na ideia da classe dominante de que a crise é uma crise fiscal, quando ela não é. Ela é uma crise financeira e não pode ser solucionada com medidas fiscais.

[Sítio] Em relação a América Latina, como avalia o fenômeno que muitos chamam de "nova esquerda" continental.
[Nildo] A nova esquerda surgiu nos anos 60, ela se definiu em relação a velha esquerda que era hegemonizada pelo Partido Comunista, pela ideia que reformas acumulativas no decorrer do tempo constituiriam o socialismo. Isso fracassou. A partir da Revolução Cubana surgiu a possibilidade da construção concreta do socialismo e se rompeu essa tática de conciliação de classes, criando-se a nova esquerda que era fruto dessa revolução. Essa 'nova esquerda' também envelheceu, mas deixou uma herança. Hoje não existe uma nova esquerda, existe o que eu classifico de 'nacionalismo-revolucionário', que fica evidente nos casos da Bolívia, Venezuela e Equador, muito menos na Nicarágua, Argentina, Brasil ou Uruguai. A direita chama de populismo, o que não é verdade. Quando hegemonizado pelas classes populares, como são nos primeiros países que citei, ele se transforma em nacionalismo-revolucionário. Quando hegemonizado pelas classes dominantes ele cai no populismo.

[Sítio] E o Brasil nesse cenário?
[Nildo] O Brasil está abaixo desse nacionalismo-revolucionário, pois houve uma conversão, uma regressão intelectual e política. Hoje o Brasil é peça de estabilidade do sistema capitalista, tanto o governo Lula quanto da Dilma. Agora, esses dois governos eram melhores para as classes populares que os governos do FHC? Eram, com certeza, mas também eram peças em que o capitalismo buscava melhorar as classes populares para firmar o poder do capital.

[Sítio] A grande mídia tem pautado o futuro da Revolução Bolivariana na Venezuela, especialmente depois da doença de Hugo Cháves. Como avalia esse processo?
[Nildo] Primeiramente a direita precisa entender que o Cháves não morreu, ele teve um câncer. A Dilma também teve e hoje goza de boa saúde. A Revolução Bolivariana está centrada na figura e na excepcional capacidade de dirigência do Cháves, mas existe dentro dessa tradição - que ele ajudou a criar - um conjunto de figuras que vão continuar esse processo. Aqueles que apostam que desaparecendo Cháves, desaparecerá a Revolução Boliviariana estão equivocados. É um processo que criou um homem e não um homem que criou um processo.

[Sítio] Como avalia as revoltas indigenistas na Bolívia?
[Nildo] No Equador e na Bolívia a maioria da população é indígena, algo entre 76% e 80% da população, eles não estão nem aí para o desenvolvimento capitalista, eles querem o poder de suas comunidades e vão continuar querendo. Nós não podemos olhar as rebeliões na Bolívia e Equador pelo prisma brasileiro, porque aqui as sociedades são urbanas. Lá elas são indígenas e imensas. Eles querem desenvolver essas culturas em suas comunidades, eles não querem mais fogão, geladeira ou carro, nem viagem internacional.

[Sítio] Em sua palestra, você fala da reforma agrária e diz que ela não pode ser feita dentro do capitalismo.
[Nildo] A reforma agrária foi cancelada por completo por esse atual sistema. O capital deu uma resposta a ela, que implica em priorizar essa agricultura classificada como "alto tecnológica", mas que se baseia em modelo de exportação. A reforma está congelada e não será feita nem por Lula, por Dilma, ou por ninguém. Por dentro dessa atual lógica, o capital encontrou uma forma de valorização do campo que necessita rigorosamente de crimes ecológicos na fronteira, assassinatos de sindicalistas no campo, uma produção vinculada às multinacionais dos adubos e fertilizantes, e, sobretudo, esquecer por completo o mercado interno. Em outros países que realizaram uma reforma agrária, o capital necessitava desse incremento do mercado interno, o capital brasileiro não necessita disso. A reforma agrária é necessária apenas para outro modo de produção, que não é dentro de reformas do capitalismo.

[Sítio] E como pensar numa transformação social efetiva dentro do sistema capitalista?
[Nildo] A gente precisa retomar esse pensamento de revolução social, primeiramente porque o capitalismo dependente é essa coisa horrorosa, é uma formação social histórica monstruosa, que não assegura a vida digna para a maioria da população, que torna a liberdade um privilégio de alguns, é um sistema que não pode sobreviver. Mas temos que entender que tudo isso não pode ser destruído na segunda-feira, eu bem que gostaria (sic), mas isso depende de uma crise, de uma série de fatores. Os que os revolucionários têm que fazer, o pensamento político tem que fazer, é pautar a revolução, teorizar sobre ela. Não será na segunda-feira, daqui há dois ou 15 anos. Realmente não sei, mas nossa função de pensadores críticos é fazer essa teorização permanentemente.

Mais informações sobre o IELA na página: http://www.iela.ufsc.br/
Mais sobre o GPPS/Unioeste em http://www.unioeste.br/projetos/gpps/