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segunda-feira, 1 de junho de 2015

II Congresso Internacional de Estudos do Rock

Apresentação da banda Beto Eyng e Seus Capangas, no I Congresso 
Seguem abertas as inscrições para ouvintes no II Congresso Internacional de Estudos do Rock, que se realizará no Anfiteatro da Unioeste, Campus de Cascavel, de 04 a 06 de Junho de 2015.

O evento é organizado pelo Colegiado de Pedagogia e pelo Mestrado em Educação/ Campus de Cascavel da UNIOESTE, com a co-promoção da Facultad de Periodismo y Comunicación Social de la Universidad Nacional de La Plata (UNLP) – Argentina. O evento acadêmico irá contar com conferências, mesas redondas, sessões de comunicações orais, lançamento de livros e CDs, shows de bandas e exposições artísticas. 

Este ano, a segunda edição irá homenagear a banda O Terço, considerada uma das mais importantes bandas de rock da música brasileira. Em 2015, completam-se 40 anos do lançamento do seu álbum Criaturas da Noite. O Congresso vai contar com a formação do Terço de 1975: Flávio Venturini, Sérgio Magrão e Sérgio Hinds. Nesta ocasião, vamos render uma homenagem ao baterista desta mesma formação, Luis Moreno, falecido em 2003.

Além da carreira junto ao Terço, os músicos se destacaram em carreiras solo e com outros grupos. Flavio Venturini é intérprete de grandes clássicos da MPB como Espanhola, Nascente, Besame, Todo azul do mar, Noites com sol, entre outras.   

Sérgio Magrão é um dos baixistas de maior renome na MPB, além de integrar O Terço, ainda faz parte do 14-Bis, uma da mais importantes bandas do cenário musical brasileiro. É autor, em parceria com Luiz Carlos Sá, de um dos grandes clássicos da MPB, Caçador de Mim, gravada por Milton Nascimento com grande sucesso. Sérgio Hinds é uma referência na história do rock nacional, considerado um dos maiores guitarristas de todos os tempos. 

Além de O Terço, na sessão Conversa com Músicos, iremos contar com a presença de Miguel Cantilo, expoente do rock argentino, da memorável dupla Pedro y Pablo. Cantilo é um dos mais importantes nomes do rock argentino, com uma produção extensa desde 1970 e que lançou seu último CD no ano passado. É autor de clássicos como Marcha de la bronca, Padre Francisco, Adonde quiera que voy, Catalina Bahía, entre outros êxitos na Argentina.

No segundo dia, o evento contará com uma palestra do músico e professor Frank Jorge. Artista importante da cena porto-alegrense e um dos nomes mais importantes do rock gaúcho, seja em sua carreira solo, como por intermédio de sua participação no grupo de rock Cascavelettes.

O evento contará com apresentações musicais como a banda do Congresso que homenageará O Terço, além de bandas locais como Fulminantes, Billy Montana & Os Voadores (que irá prestar uma homenagem a Miguel Cantilo) e Black Mountain Side.

Também haverá duas exposições artísticas no hall do Anfiteatro. A primeira é a exposição Músicas Ilustradas II (Rahma Projekt), pelo artista plástico Rafael Hoffman (Criciúma) e a outra, intitulada Capas censuradas, apresentará imagens de capas de discos censuradas pela censura espanhola, organizada pelo jornalista espanhol Xavier Valiño.

O Congresso contará com palestras de grandes especialistas nacionais e estrangeiros debatendo temas vinculados ao rock.  Haverá ainda lançamento de livros sobre o rock de autores nacionais e estrangeiros, bem como de CDs. 

A conferência de abertura, La censura en el rock durante el régimen de Franco, será ministrada no dia 04 de junho, pelo jornalista espanhol Dr. Xavier Valiño. Na noite de quinta-feira o evento irá homenagear O Terço, pelos 40 anos do disco Criaturas da Noite e prestar um tributo ao baterista Luis Moreno.

No segundo dia do evento, pela manhã, ocorrerá a mesa redonda Rock e Educação: as escolas e faculdades de rock, com a presença do Prof. Ms. Jorge Alberto Falcon (Coordenador do curso de Licenciatura em Música e Professor da PUC-PR), do Prof. Dr. Gérson Luís Werlang (Universidade de Passo Fundo, Faculdade de Artes e Comunicação) e do músico e professor  Frank Jorge (coordenador e fundador do Curso de Músicos e Produtores de Rock).

No período noturno, a atração será a vez da mesa redonda Rock e mercado editorial, como a presença de Rodrigo Merheb (Oficial de chancelaria do Itamaraty e Jornalista – autor do premiado livro O Som da Revolução, de 2012), do Prof. Dr. Guilherme Bryan (Centro Universitário Belas Artes de São Paulo, FEBASP – Brasil, documentarista do Canal Brasil e autor do clássico livro Quem tem um sonho não dança, de 2003) e da pesquisadora do rock nacional Aline Rochedo (Doutoranda em História – UFRRJ e autora da obra Derrubando reis: a juventude urbana e o rock brasileiro nos anos 1980). 

No último dia pela manhã, sábado, às 9h30, o evento contará com uma Mesa Redonda e uma conversa com o músico Miguel Cantilo, além de um debate com o Prof. Dr. Ernesto Bohoslavsky (UNGS-Argentina) e com o pesquisador argentino Lucio Carnicer (Pesquisador, radialista e professor de música – Argentina).

O Congresso recebeu 185 comunicações científicas sobre o rock, que serão apresentadas durante as três tardes do evento, com pesquisadores do Brasil, Argentina, México, Chile e Uruguai. Nestas sessões, de comunicação científica, serão apresentadas as principais pesquisas sobre o rock envolvendo os eixos temáticos Histórias do Rock, Poéticas do Rock, Rock e Cinema, Rock e Comportamento, Rock e Contracultura e Rock e Educação.

Este evento colocou Cascavel no eixo das pesquisas de ponta sobre o rock na América do Sul e tem revelado importantes trabalhos acadêmicos sobre este gênero musical e sua forte influência na sociedade e na cultura de diferentes povos.

O evento é aberto a todo público adulto e o pagamento da inscrição será realizado a partir de um boleto emitido junto ao sistema do site do evento, após a inscrição on line do participante. O valor da inscrição é acessível: alunos R$ 30,00 e demais interessados R$ 40,00. Haverá emissão de atestado de participação de 36 horas.

As inscrições seguem abertas até dia 03 de junho, por meio do site: http://www.congressodorock.com.br/evento/index.xhtml

Maiores informações: evento@congressodorock.com.br

quinta-feira, 15 de maio de 2014

Tradicionalismo se rende ao "casal" Heros e Maria Vitória

Dellavega exibe prêmio conquistado em Foz
Os 'sitiantes' que acompanham esse blog sabem que ele busca valorizar a arte e cultura - especialmente a produção independente. Nesse sentido, o Sítio Coletivo abre novamente a porteira ao camarada violeiro Heros Dellavega, que no início deste mês teve mais um reconhecimento do seu trabalho.

Cantor, compositor, instrumentista, poeta e pesquisador da música popular brasileira, Heros foi um dos protagonistas do XII Encontro das Águas, realizado entre os dias 1º e 4 de maio, em Foz do Iguaçu. Festival nativista, o evento congrega artistas das três pátrias lindeiras (Brasil, Argentina e Paraguai).

O violeiro foi premiado com o 1º lugar na categoria 'Música e Composição Instrumental', com a música Poconé, que faz parte do repertório do seu álbum O Compositor da Lua. Poconé é um típico município pantaneiro do Mato Grosso do Sul, com pouco mais de 31 mil habitantes.

Heros Dellavega foi o primeiro músico na história do festival Encontro das Águas a ganhar o premio tocando viola caipira, quebrando a tradição da sanfona e da gaita. "Tiveram que se dobrar a minha viola ‘Maria Vitória’", brinca.

O cascavelense destacou a importância do festival, um dos principais do gênero no país e fez um agradecimento especial no mês das mães. "Agradeço principalmente minha mãe, dona Maria Volski Dellavega, além de toda minha família, amigos que por onde eu passo nesse Brasil sem fronteiras tocando minha viola estão sempre ao meu lado me dando forças".

Quem quiser conhecer mais sobre o violeiro "Sete Flecha", pode acessar outra postagem do Sítio:
http://sitiocoletivo.blogspot.com.br/2011/05/heros-dellavega-talento-do-velho-oeste.html

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Buena Vista: uma aventura a bordo do busão 57



Em Diários de Motocicleta, um bioquímico prestes há completar 30 anos e um estudante de medicina prestes a concluir o curso resolvem se aventurar por uma América até então conhecida apenas nos livros. Para isso, a dupla de naturalidade argentina usa uma motocicleta Norton 500, do ano de 1939, carinhosamente apelidada de 'La Poderosa'. O destino daqueles que deixariam de ser 'simples jovens' na história de nossa 'Pátria Grande' vocês devem conhecer. 

A aventura de Alberto Granado e Ernesto Guevara sempre esteve no imaginário da juventude latino-americana.  Esse espírito aventureiro de nosso mestiço - e por isso - lindo continente é que move um grupo de artistas argentinos que há cinco meses está na estrada. Com idade entre 21 e 24 anos, eles atendem por 'Movimento Buena Vista' e já passaram por outros países da América do Sul, como Chile, Peru e Bolívia. Atualmente se aventuram no Brasil, onde desenvolvem trabalhos ligados a arte; como música, pintura, artesanato e cinema.

Tive a oportunidade de conhecer os rapazes do Buena Vista em Curitiba, onde o movimento oriundo do pequeno município de Las Flores – norte da Argentina – aportou há pouco mais de um mês. Ao chegar na capital do Paraná junto com servidores da Universidade Estadual do Oeste do Paraná - que horas mais tarde fariam um protesto em frente a sede do governo - me deparei com a cena que me chamou atenção.

Próximo ao Museu Oscar Niemeyer, em meio a alguns ônibus típicos de excursões, estava um transporte antigo, pintado de forma primária com cores vivas, tendo na porta uma estrela vermelha e acima do pára-brisa a palavra 'Buena Vista'. Prontamente, o que me veio à cabeça foi orquestra cubana Buena Vista Social Club e o desejo de me aproximar para saber o que estava por trás daquele meio de transporte de mais de meio século.  

Enquanto alguns tiravam foto em frente ao ônibus, me aproximei e, percebendo que não se tratavam de brasileiros, me apresentei como sendo periodista (jornalista). Entrei no ônibus – um Mercedes Bens de 1957 – tendo todo seu interior decorado com pôsteres e recortes relacionadas à música, com ícones como Bob Dylan, Bob Marley, Mercedes Sosa, Manu Chao e Rolling Stones, além de lembranças de nosso continente, como bandeiras de países da América do Sul e, obviamente, a foto mais reproduzida da história: o olhar no horizonte de Che Guevara.

Para 'quebrar o gelo' - afinal se apresentar como jornalista poderia não ser um bom começo - dei início a prosa com Tero, Hipo, Enzo, Emilio, Feder e Juan, falando sobre a vitória do Boca Juniors na Libertadores da América que havia acontecido na véspera, sabendo eu que o futebol era algo que 'unia' brasileiros e argentinos. A confissão de ser um 'maradonista confesso' foi a senha perfeita e acabei sendo apontado pelos hermanos como um 'caso raro' entre os brasileiros.

Acabei surpreendendo e ao mesmo tempo divertindo os camaradas ao anunciar que os 'maradonistas' no Brasil não são tão raros assim - talvez aqueles confessos - mas fiz questão de me certificar que não contariam meu 'segredo' no lado de fora do ônibus, obviamente preocupado com minha integridade física.

Entre os recortes que decoravam o ônibus, um deles me chamou a atenção: Um adesivo escrito 'Bush, lo peor de todos' e abaixo dele uma foto clássica de Muhammad Ali esmurrando um adversário; um João qualquer como diria o Mané. Apontei e disparei: "Que contradição, acima o pior e abaixo o melhor de todos!". Estava ali a senha para a passagem de nossa prosa do esporte para a política.

Falamos da necessidade da integração dos povos latino-americanos e os avanços promovidos por alguns governos de caráter progressista em nosso continente - em especial o da Argentina - além da participação dos jovens na política. Expliquei que estava na cidade para fazer a cobertura de um protesto dos trabalhadores da universidade; eles interviram de pronto e passaram a apontar as diferenças que sentiram nos meses que estão no Brasil em relação ao ensino superior da Argentina.

Discorreram sobre a universidade argentina e o acesso a ela. "Por lá todos tem acesso a universidade pública. Por aqui, nos parece que se não há grana, não há estudo", falou Hipo, enquanto Juan – deixando de lado o livro que lia – disparou: "A universidade por lá é mais política". (entendendo-se 'mais política' como algo positivo e não com a velha opinião formada sobre o senso comum). Citaram que, diferente de grande parte dos estudantes por aqui, os universitários argentinos apóiam os movimentos grevistas nas instituições, pois acabam se sentindo parte também da luta reivindicatória.

Alguns do Movimento Buena Vista são formados e outros trancaram seus cursos nas áreas de História, Turismo, Cinema e Relações Internacionais. Todos eles estudaram na Universidade de La Plata, na Grande Buenos Aires. "Las Flores é muito pequena, não há universidade, então estudamos em La Plata, que fica há 200 quilômetros de nossa cidade", explicou Tero.

O grupo me contou que a atmosfera política dentro da Universidade de La Plata é enorme, com os estudantes participando de discussões diárias sobre política e os rumos da universidade. "Isso é histórico por lá, foi em La Plata que houve o maior extermínio de militantes e estudantes durante a ditadura", disse Hipo, me indicando o filme La Noche de Los Lapices, que traz a história de sequestros de estudantes secundaristas durante o período militar na Argentina.

Ao terminar minha prosa que passou de futebol a política, questionei sobre o destino do Buena Vista dali pra frente. Falaram que precisavam terminar alguns 'bicos' em Curitiba e que por ali ficariam por mais alguns dias. De lá partiriam para o Mato Grosso do Sul. Depois disso é esperar para ver até onde o Mercedes Bens 57 conseguirá levar esses aventureiros em suas viagens embaladas por muito rock, reggae e musica latina, lembrando muito a aventura da dupla que tinha a 'Poderosa de 1939'.

Tero, Fede, Emilio, Juan, Enzo e Hipo

Qual o próximo destino do Mercedão 57?

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Uma doença para se levar até o leito

Festival em Bogotá (Willian Martinez)
Não sou entusiasta de datas especiais e comemorativas, acho grande parte delas meras formalidades, porém este Sítio não poderia deixar passar o "Dia Mundial do Rock". Esse espaço coletivo saúda as mais variadas bandas, dos mais variados estilos, que continuam fazendo "barulho" em nosso "Oeste Selvagem", especialmente os que produzem de forma independente. Aproveito para reproduzir um texto escrito no ano passado e publicado no CMI (Centro de Mídia Independente), intitulado "Uma doença para se levar até o leito".   

Sou da turma de um bando de doentes, insanos, rebeldes, contestadores e transgressores. Nós - realmente somos - o verdadeiro "bando de loucos" e nossa loucura cresce a cada dia, não tem limites, barreiras de idade, sexo ou distinção social.  Temos uma doença em comum, doença que me afere desde a infância, desde que me conheço por gente. Essa doença está sempre corroendo meus ossos e correndo nas minhas veias, indo direto ao meu sangue com uma injeção de adrenalina, como um verdadeiro "elixir da vida". 

Falar de algo que você gosta é prazeroso, mas você corre o risco de fazer uma análise pessoal demais, conforme suas experiências próprias. Mas desde o meu primeiro contato com essa doença, a reação foi de "amor ao primeiro riff". Nesse primeiro contato, senti que levaria essa doença comigo e com muito prazer - até o meu leito de morte. 

Na adolescência não conseguia dormir sem doses homeopáticas do "bom e velho rock n' roll". Desde que me conheço, essa sempre foi minha válvula de escape. Bastava eu brigar com o meu irmão, discutir com meus velhos, sair no braço na escola ou ser pego fazendo algo "ilícito", e lá ia eu para minha "droga" predileta. Fechava meu quarto (pois era um "barulho" que só eu tinha o dom de ouvir) e somente sossegava colocando os decibéis nas alturas. 

Para muitos, assim como para mim, o rock serviu como um verdadeiro divisor de águas. Nele você viaja, nele você consegue descarregar suas angustias, ser realmente quem se é. Ele nos traz experiências que vão além do senso comum. 

Nós amantes do rock, diferente de outros grupos, sentimos prazer em ter guardado uma infinidade de fitas cassetes em velhas caixas de sapato (que para alguns não passariam de lixo e velharias); algumas originais e outras gravadas com uma qualidade "duvidosa", sem falar dos velhos "bolachões". 

Não importa como você encare a música, alguns somente como mero entretenimento e outros de forma profissional, mas no fundo de tudo está a alma, o espírito e principalmente a atitude. Coisa que somente o rock sabe explicar como ninguém, sendo ferramenta de liberação de espírito para aliviar a dor, contestar, se divertir, e fazer amor. 

O saudoso Leminski, o "maldito" paranaense, dizia que "a vida é uma viagem, onde estamos somente de passagem", porém o rock é uma viagem que levarei até o fim dos meus dias, mas que felizmente nunca vai morrer, diferentes de tantas "drogas" passageiras por aí. 

Nem Freud conseguiria explicar se o Rock é do Diabo ou de Deus. Eu prefiro dizer que ele é simplesmente do homem, mas insisto em acreditar que ele deva ser a trilha mais tocada nos salões e nos alto falantes do inferno. 

Nesse Dia Mundial do Rock, vale ligar o som no volume alto e saldar monstros como Berry, Iggy, Zappa, Lou, Dylan, Hendrix, Cash, Jello, Motorhead, Stones, Stoogies, Ramones, Led, Mutantes, Ratos, Nirvana, Metallica, Sabbath, AC/DC, Slayer, Raul, Clash, Inocentes, os irmãos Cavalera (os "Jungle Boys"), enfim, há tantos "deuses" por aí, que serei injusto ao não citar alguns. 

Parabéns a eles e principalmente a nós, bando de transgressores que continuamos com nossa vontade de gritar por liberdade e continuar a ouvir a mais "brutal, feia, desesperada e viciada forma de expressão que já tivemos o prazer de escutar".
 

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Fronteira Socialmente Incorreta

Rodrigo, Marcão, Teli e Velo
“Hardcore é protesto, a voz dos necessitados...”, diz a composição que também dá nome a banda Socialmente Incorreto e reflete o peso da sonoridade e letras desse quarteto de Foz do Iguaçu que há oito anos vem representando o cenário underground do “velho oeste” paranaense e da Tríplice Fronteira. 

Como já foi dito, esse espaço coletivo tem como um dos focos ampliar a abertura à artistas que produzem de forma independente, especialmente em nossa região. Em razão disso a porteira do sítio foi encancarada para os iguaçuenses Marção Oliveira (guitarra), Rodrigo Barreto (baixo), Cleiton “Telis” (bateria) e Ademar Junior “Velo” (vocal).

Com influências do punk-rock, hardcore nova-iorquino e o rap, mas sem cair em rotulagens, Socialmente Incorreto leva em suas composições a música de protesto, a realidade de nossa fronteira, além de críticas à mídia hegemônica e aos “velhos costumes modernos”.  Em 2007, eles lançaram um álbum homônimo com oito faixas.

Esse blogueiro conheceu pessoalmente a galera do Socialmente que esteve recentemente tocando em Cascavel e aproveitou para trocar uma ideia sobre música e comunicação, que fazem parte da vida dos integrantes da banda. Sem delongas, acompanhe abaixo o bate-papo.

Como e quando surgiu o Socialmente Incorreto?
[Velo] O Socialmente começou em 2003. Dois desocupados, numa quadra de basquete, tiveram a ideia de montar uma banda. Eu tinha algumas composições, já com algumas bases toscas. Chamamos mais dois desocupados e a merda tava feita.
[Marcão] Eu não era um dos desocupados. Entrei na banda logo após a gravação do CD, em 2008. O Teli (bateria) entrou em 2009.

Como definem a cena Hardcore e underground em Foz e o que representa para vocês?
[Velo] Com toda a sinceridade, hoje pouco se vê dessa cena. Alguns poucos remanescentes das boas épocas. O que acontecia antes - sempre tinha uma piazada nova - não se vê mais. Acho que perdemos pros ‘emos’ e pros ‘coloridos’.
[Marcão] O Velo bateu num ponto importante: falta renovação. A época em que a molecada corria atrás de galpões para alugar; percorria ruas da cidade colando cartazes; distribuía fliers, passou. Houve uma certa acomodação, uma vez que surgiram bares que mantinham a estrutura necessária para os shows. Isso deu fôlego, por um tempo. Como não é fácil manter um bar para um público sem dinheiro, esses lugares acabam fechando. Agora, quem, com 30, 40 anos de idade pesando nas costas, família para manter, contas a pagar, tem gás para recomeçar o processo?

Além do HCNY, que se percebe no álbum, quais as outras influências musicais?
[Velo] O gosto musical da banda varia muito, mas o que me influencia nas composições
são o HC e o Rap.
[Marcão] Eu sempre ouvi de punk rock a rock brasileiro dos anos 80, além de guitar band, entre outras coisas. O Teli (bateria) curte jazz. Claro que não dá pra colocar nas nossas músicas tudo aquilo que gostamos, mas acho que dá pra notar algumas ‘pegadas’ diferentes, principalmente ao vivo.

A realidade da fronteira é “hardcore” por natureza, como influencia nas composições?
[Velo] Somos quase todos nascidos aqui, onde vivemos há muito tempo. Então temos um grande apego a cidade, o que é uma das principais fontes de inspiração na hora de compor.
[Marcão] Um passeio pela Ponte da Amizade, num sábado, rende bastante assunto! (risos)

Em músicas como Ninguém se move e Guerra na Fronteira, vocês falam de luta social e figuras como Lampião e Chico Mendes. Falem um pouco dessa “pegada”.
[Velo] Chico Mendes, Lampião, assim como vários outros - que se eu for citar aqui, vou discorrer milhares de linhas - mostraram que temos o poder da mudança. Escrevemos sobre pessoas que mudaram suas vidas, ou deram suas vidas pelo que acreditavam ser o correto. É importante frisar que não temos laços com nenhum movimento político ou partido. Mas sempre vamos nos impor quando alguém quiser passar por cima. "Se você está abaixo vamos te ajudar a subir, se está acima vamos derrubá-lo, agora, se está ao nosso lado, andaremos juntos".

A fronteira é um local de grande miscigenação, onde afloram preconceitos. Como avaliam?
[Velo] Eu desconheço alguma ação de violência, tendo como partida a discriminação racial, por aqui. Foz do Iguaçu é um exemplo para o mundo. Somos 76 etnias que vivem em perfeita harmonia.
[Marcão] Foz do Iguaçu, como toda região de fronteira internacional, sofre com todo tipo de problema, e não é de hoje. Agora, daí a taxar a cidade como um reduto terrorista vai uma distância tremenda. O preconceito contra Foz parte da desinformação da mídia e, consequentemente, da população de outras cidades. Pior que isso, é o descaso de muitos moradores daqui. É normal iguaçuenses caracterizarem a cidade como ‘terra da muamba’, ‘Fossa do Iguaçu’, e por aí vai.

Alguns de vocês trabalham com comunicação. Na música A corda não arrebenta deste lado há uma crítica a televisão. Como a banda avalia a grande mídia, a “mídia limpinha”?
[Velo] Eu sou publicitário, profissão que impõe o consumo desenfreado. O Marcão é jornalista, profissão que distorce as informações e deixa a população cada vez mais tapada. Tentamos fazer diferente do que nossas profissões pregam e deve ser por isso que andamos a pé! (risos).
[Marcão] A forma como a população se relaciona com a mídia deriva de décadas de manipulação. Tentativas para combater essa situação não faltam, seja na imprensa alternativa, seja em organizações que pregam a democratização da informação no país. Mas não é fácil. O imaginário popular ainda se concentra nas ‘verdades’ disseminadas, com bases em interesses particulares, pelos grandes grupos econômicos. Um exemplo: todos comemoraram a morte de Osama Bin Laden. Mas não se sabe qual a real história desse caso. Ele realmente foi morto? Não vi nada que comprovasse isso. A morte dele era necessária? Pouco se questiona sobre isso, mas a ‘informação’ correu o mundo. E fica por isso mesmo.    

Como avaliam o fenômeno dos blogs e da imprensa alternativa?
[Marcão] Eu diria que a trincheira está montada. A tecnologia favoreceu o surgimento de veículos alternativos dispostos a questionar o atual status quo. O Sítio Coletivo é um ótimo exemplo! O boom de informações na rede colocou em xeque uma porção de veículos. Ainda há um longo percurso, mas as mentiras contadas pelos grandes grupos de comunicação passaram a ser questionadas, e isso não é pouca coisa.

Quais os planos da banda e aproveitem para deixar um recado aos “sitiantes”.
[Marcão] Na verdade, não temos feito muitos planos. Somos amigos, que gostam do que fazem. O Socialmente Incorreto tem resistido mais pela nossa boa relação do que por planejamento (risos). Por hora, tem dado certo. Queria aqui agradecer o espaço, Júlio! E também desejar longa vida ao Sítio Coletivo. Fazemos parte da mesma guerrilha! Grande abraço.

Acompanhem abaixo o vídeo de Guerra na Fronteira, que compõe o álbum de 2007


Mais informações em: www.myspace.com/socialmenteincorreto.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

A "pantaneira" Poconé no Femucic 2011

Poconé é um pequeno município localizado no coração do Pantanal sul-matogrossense. Com pouco mais de 31 mil habitantes, a cidade será homenageada na 33ª edição de um dos mais importantes festivais de música do País, o Femucic - Mostra de Música da Cidade Canção - que acontece entre os dias 1º e 4 de junho em Maringá.

A cidadezinha tipicamente pantaneira dá nome a uma das composições classificadas para o festival, representada na harmonia do violeiro cascavelense Heros Dellavega. Poconé, música instrumental no ritmo do chamamé, está entre as 52 músicas que participaram de uma seleção com 800 composições, vindas de 23 estados. Segundo os organizadores do evento, os critérios utilizados para a escolha foram originalidade, singularidade, inovação e as qualidades artística e técnica.

Em um dedo de prosa com esse blogueiro, Dellavega contou que Poconé é uma cidade marcante em seu processo de pesquisa sobre a música popular brasileira. “Eu estive em Poconé por algumas vezes fazendo pesquisas e tocando umas modas de viola para divulgar nossa música paranaense. Então decidi fazer essa homenagem”, conta o violeiro, sobre a música que faz parte do repertório do álbum O Compositor da Lua, lançado no fim de 2010.

Poconé será uma das canções apresentadas nas quatro noites do festival, que não tem caráter competitivo, figurando como uma mostra de música e que tem o objetivo de promover o intercâmbio cultural, artístico e plural de vários gêneros musicais do País.

O Paraná foi o estado com mais músicas selecionadas, um total de 20, seguido de São Paulo e Rio Grande do Sul, com 10 composições cada. Todas as canções apresentadas ao público serão gravadas e, após o evento, uma comissão formada por técnicos e representantes da comunidade, reúne-se para escolher as que farão parte de uma coletânea do Femucic 2011.

Abaixo Dellavega apresenta Poconé durante o 21º Festival de Música de Cascavel


terça-feira, 24 de maio de 2011

Chacal e Dylan: poetas agitadores culturais

Desconstruir contextos ou contextualizar a construção poética, ideologia ou contra-ideologia, cultura da contracultura. Elementos que unem dois poetas símbolos da expressão libertária em uma data comum: o dia 24 de maio. Batizados Robert Allen Zimmerman e Ricardo de Carvalho Duarte, dois poetas, dois agitadores culturais.

O primeiro - que completa 70 anos - atende por Bob Dylan. É difícil falar do “Sr. Tamborim”, dispensa maiores comentários com suas canções-protesto, carregadas de instrumentos literários, poeta da contracultura que embalou a Beat Generation.

Já o segundo é enfático ao dizer que foi fortemente influenciado pelo primeiro, entre outros ícones da contracultura como Allen Ginsberg. Batizado Ricardo, pseudônimo Chacal, o poeta marginal o expoente da geração mimeografo, que completa seus 60 anos de vida.

Poeta, cronista e roteirista, esse maldito participou das principais manifestações culturais do Brasil nos últimos 40 anos. Publicou seu primeiro livro de poesias em 1971. Foi responsável por um dos momentos mais intensos da festa literária de Paraty 2007 na mesa literária Uivos. Lançou no ano passado, o livro de memórias Uma história à margem, um balanço informal de sua trajetória.

Sobre a obra de Chacal, Paulo Leminski afirmava que a palavra “lúdico” era o elemento chave. O imortal paranaense via nos poemas de Chacal “as letras de música popular, do mundo industrial e urbano que se abateu, irremediavelmente, sobre nós”. Semelhanças com as canções-poema do outro aniversariante do dia não são meras coincidências.

Como era bom
o tempo em que Marx explicava o mundo
tudo era luta de classes
como era simples
o tempo em que Freud explicava
que Édipo tudo explicava
tudo era clarinho limpinho explicadinho
tudo muito mais asséptico
do que era quando eu nasci
hoje rodado sambado pirado
descobri que é preciso
aprender a nascer todo dia
(Chacal)

Abaixo Subterranean Homesick Blues, de Dylan

domingo, 22 de maio de 2011

Heros Dellavega: talento do "velho oeste"

O velho oeste paranaense é um celeiro de artistas que atuam de forma independente. Talentos de nossa terra dos quais temos que nos orgulhar, artistas profissionais que muitas vezes precisam nadar contra a maré em uma região onde a cultura ainda é subvalorizada, vista como algo secundário.

Como esse sítio busca valorizar a arte e cultura - especialmente a independente - nossa porteira está escancarada para esses profissionais. Quero tomar a liberdade de falar de um grande artista que, acima de tudo, é um camarada pessoal desse escriba: o violeiro Heros Dellavega.

Natural de Cascavel, Dellavega cada vez mais vem adquirindo respeito e carinho por onde passa levando sua arte. Com sua música serena, repleta de poesias e harmonias vivas, o violeiro vem conquistando admiradores dos mais variados estilos, desde o caboclo simples até o mais “letrado”, com composições que fazem um casamento perfeito entre as letras de forte conteúdo e a harmonia dos acordes de sua viola.

Cantor, compositor, instrumentista, poeta, produtor e pesquisador da música popular brasileira, Heros Dellavega – atualmente com 31 anos – escreve poesias desde criança e compôs sua primeira canção aos 9 anos, a Jatazá do Miumbeiro. Aos 18 anos, iniciou sua carreira profissional.

O talento desse caboclo pode ser visto na produção de seu primeiro álbum, O Compositor da Lua, lançado no fim de 2010 e elogiado por grandes nomes da MPB, como Almir Sater. O cascavelense promete repetir a dose em mais uma obra que vem produzindo de maneira independente, o álbum instrumental Magia das águas, que terá 12 músicas inéditas, executadas em várias afinações da viola.  

Dellavega foi destaque em novembro de 2010 na emissora Record News, sendo premiado como artista revelação, melhor interpretação e clipe do ano de 2010 entre mais de 11 mil inscritos pela internet, no quadro talentos do programa Marco Camargo Entrevista. O apresentador e produtor musical rasgou elogios ao compositor paranaense, ao acompanhar sua interpretação de Tocando em frente (de Almir Sater), gravada no Lago Municipal de Cascavel.

Eleito pelos três maiores sites de cifras e tablaturas do Brasil (Cifra club, Vagalume, Pegacifra), como melhor arranjo, cenografia, interpretação e melhor vídeo aula para quem baixar a música Sina de Violeiro do cantor e compositor Renato Teixeira. Classificado pelo portal UOL em 3º lugar entre os artistas solo no seguimento da música folk brasileira, ficando atrás apenas de nomes consagrados como Renato Teixeira e Almir Sater.

Questionado por esse blogueiro sobre a importância dos meios de comunicação na divulgação dos artistas independentes, o violeiro considera essencial o apoio à cultura, mas desabafa quem sem sempre é assim: “Eu batalho muito para ter essa parceria ao meu lado, porém, nem sempre são positivas as respostas finais”. 

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Trovador não canta, dispara

Antes de falar da postagem, quero tomar a liberdade de agradecer a galera que têm mandado mensagens de apoio a iniciativa desse espaço coletivo, aos que estão lhe indicando, aos que já se colocaram à disposição para contribuições e aos seus primeiros seguidores. 

Voltando ao post, nem só de palavras publicadas vive o escriba, pois ele também se alimenta de som e como a palavra cantada é um instrumento de liberdade e transformação, quero coletivizar cultura, indicando um artista que muitos já devem conhecer, mas que tive o prazer de conhecer pessoalmente em recente viagem à Porto Alegre. Trata-se do trovador Pedro Munhoz, gaúcho de Barra do Ribeiro.

Autodidata e independente, gravou seu primeiro CD em 1998 (Pedro Munhoz Encantoria). Pesquisador permanente e trovador por excelência, Pedro resiste por meio da música, denunciando entre outras mazelas; as injustiças dos campos sulistas, de seus extensos latifúndios e monoculturas literalmente envenenadas.

Abaixo um vídeo que fiz da apresentação da canção Terra (que conta com participação do músico José Martins), gravada no I Fórum da Igualdade, realizado na capital gaúcha em abril. A qualidade não é das melhores, mas foi o que consegui fazer com minha máquina.


   
Mais informações: http://www.pedromunhoz.mus.br/ ou sigam @trovadormunhoz.