segunda-feira, 4 de junho de 2012

Licenciatura do Campo rompe "cerca do conhecimento"

Aula inaugural no Campus da Unioeste em Cascavel
"Para além das cercas do latifúndio, o rompimento das cercas do conhecimento". É dentro dessa lógica - de aproximação dos movimentos sociais com o ensino superior – que a Unioeste (Universidade Estadual do Oeste do Paraná) desenvolve experiências de Educação no Campo, proporcionando aos camponeses, acesso ao nível superior de qualidade e gratuito.

Sob o lema 'Educação do Campo, Direito Nosso, Dever do Estado e Compromisso com a comunidade', foi realizada a aula inaugural de 2012 do curso de Licenciatura em Educação do Campo, desenvolvido dentro de instituições públicas de ensino superior por meio do 'regime de alternância' – que consiste em organizar o tempo dentro da lógica que possibilite a presença dos camponeses na universidade sem o abandono do campo.

No Paraná, duas instituições oferecem o curso, a Unioeste e a Unicentro (Universidade Estadual do Centro-Oeste). "A intenção é que os camponeses permaneçam no campo, vários deles já dão aulas ou são lideranças de suas comunidades", explica o professor Paulo Porto Borges, coordenador da Educação do Campo na Unioeste. Para ele, a universidade pública tem o papel de garantir acesso ao ensino superior à classe trabalhadora, abrigando e fortalecendo a luta das classes populares.

A turma de Licenciatura do Campo conta com 53 alunos de seis estados: Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Mato Grosso do Sul, Espírito Santo e Tocantins. A maior parte deles é oriunda do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra), mas também há alunos do MLST (Movimento de Libertação dos Sem Terra), MNLM (Movimento Nacional de Luta Pela Moradia), MMC (Movimento Nacional de Mulheres Camponesas), MAB (Movimento dos Atingidos por Barragens) e PJR (Pastoral da Juventude Rural).

Os alunos foram indicados para fazer o vestibular por suas próprias comunidades, como forma de atender uma demanda coletiva. A turma atual está no segundo ano de curso e, a partir do terceiro ano, os alunos serão divididos em duas áreas de conhecimento: Ciências Agrárias e Ciências da Natureza e Matemática. Após formados, eles estarão habilitados para darem aulas na séries finais do Ensino Fundamental e Ensino Médio.

Alguns educandos já são educadores nas comunidades que vivem. É o caso de Clara Orzekoski, que atua há 10 anos como educadora do campo nas escolas itinerantes do MST. Ela é moradora de um assentamento na região do Vale do Ivaí. "Estamos buscando nossa formação, tendo a coragem de resistir, entrando na universidade para abrir esse elo com a sociedade e mostrarmos quem somos, mostrar a luta do homem camponês", destaca Clara.  

A aluna explica que a partir dessa experiência vão se superando alguns preconceitos de parte da sociedade que desconhece a luta dos movimentos sociais de luta pela terra. "Nós trazemos para a universidade a lógica dos assentamentos e acampamentos, vamos vencendo preconceitos, rompendo barreiras e nossos próprios limites", aponta.

Essa lógica da realidade do acampamento é reforçada na novidade para esse segundo ano da licenciatura. Diferente do primeiro ano – onde os alunos ficavam hospedados em um hotel – dessa vez a turma ficará alojada na própria universidade durante o período do curso. Eles permanecerão em um alojamento até o início de agosto. Como o curso é um programa federal, a alimentação e hospedagem ficam a cargo do MEC (Ministério da Educação), enquanto o Estado cede estrutura e professores.

Celso Ribeiro, um dos coordenadores do MST na região Oeste do Paraná, foi um dos convidados da aula inaugural de 2012. "Nossa luta não é só pela terra, mas pela conquista de espaços. O movimento tem uma história bonita dentro da Unioeste, onde conseguimos trazer o debate da questão agrária para dentro da universidade, mesmo diante de todas as dificuldades para cursar um ensino superior. Essa formação é fundamental para que os alunos possam contribuir com o movimento", aponta.

Alexandre Webber, diretor do Campus de Cascavel da Unioeste, afirma que a universidade não pode ficar isolada da comunidade. "Temos o papel de ampliarmos a educação do nível superior, dando condições para que esses alunos permaneçam no campo com condições dignas", destaca. 

Para Paulo Porto, coordenador da licenciatura, o grande desafio é transformar o curso em regular dentro da instituição. "Esse é um momento inédito na Unioeste, um momento de resistência popular, onde os movimentos sociais fincam sua bandeira na Unioeste", conclui.






2 comentários:

  1. Alceu A. Sperança5 de junho de 2012 10:44

    É isso. A universidade pública precisa lidar sempre e cada vez mais com as questões do povo.

    Ah, tem gente que não consegue levantar o braço esquerdo por problemas de saúde. Outros levantam, mas jogam contra!

    Claro que não é o caso das pessoas que aparecem participando dessa ótima iniciativa.

    Cumprimentos a todos.

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  2. Foi uma grande alegria ministrar aulas "Realidade Brasileira" para esta turma maravilhosa! Abraço Amoroso para todos!Rosana Nazzari

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