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sábado, 3 de maio de 2014

Pele vermelha, liberdade de imprensa é isso...

Pois bem sitiantes, o assunto é novamente imprensa. Gostaria de ser breve, mas são tantas datas que me confundo e me estendo: é dia de jornalista, do repórter, do comunicador, da imprensa e da liberdade dela. Dias atrás foram congratulações pelo Dia do Jornalista, momento que o "colaborador" se sente valorizado com tapinhas nas costas, bombonzinhos e as palavras orgulhosas de suas progenitoras.

Neste dia 3 de maio é lembrado o Dia Mundial da Liberdade de Imprensa e no dia 7 de junho será a vez de "comemorarmos" o Dia Nacional da Liberdade de Imprensa. Como essa "liberdade" pode variar de órgão para órgão, estado para estado e país para país, porque não termos um dia mundial e outro nacional. Só falta agora o estadual e municipal (sic).

Mas essa tal de "liberdade de imprensa" remete a reflexão, uma pulguinha atrás da orelha e uma pergunta ao estilo dos ancestrais tradicionais. Um deles diria: “liberdade de quem e para quem, cara pálida?”.

Confesso que realmente acredito no conto da liberdade de imprensa, ou melhor, "da imprensa", afinal a mídia tradicional está cada vez mais livre, leve e solta para dizer o que bem entender, inclusive para difamar quem quiser e quando quiser, livre também para - quando necessário - omitir e manipular.

A imprensa é livre para promover censura prévia aos seus "colaboradores" por meio de pautas com conteúdos regidos pelo departamento financeiro e comercial; livre para promover monopólios e oligopólios, fazer propriedade cruzada, contratos comerciais e acordos publicitários antiéticos com governos municipais, estaduais e federal.

Temos liberdade de imprensa para promover preconceito, seja ele de credo, gênero, raça, sócioeconômico ou de orientação sexual. Há liberdade para - em nosso estado laico - praticarmos proselitismo religioso para sustentação financeira de grandes igrejas por meio de concessões públicas de rádio e televisão.

Liberdade de imprensa que também passa pelas facilidades dessas concessões estarem nas mãos de grupos econômicos e políticos, visto que em Brasília dezenas de congressistas detêm concessões, fora aquelas que estão nas mãos de seus "laranjas". Sem falar dos meios impressos que não precisam dessa “autorização previa”. Facilidade essa que se contrapõe a dificuldade burocrática àqueles que querem instituir uma rádio ou televisão comunitária.

Também temos a "liberdade" de não seguirmos o Capítulo V de nossa Constituição Federal, que versa sobre Comunicação Social, afinal vários itens ainda não foram regulamentados. Viram, querem coisa mais "libertária" que não seguirmos a constituição?...

Vejam o caso do artigo 220, em seu parágrafo 2º: "É vedada toda e qualquer censura de natureza política, ideológica e artística". Já o parágrafo 5º traz: "os meios de comunicação social não podem, direta ou indiretamente, ser objeto de monopólio e oligopólio".


Por último o artigo 221, que fala sobre a produção: "I - preferência a finalidade educativas, artísticas, culturais e informativas/ II - promoção cultural nacional e regional e estímulo à produção independente que objetive sua divulgação/ III - regionalização da produção cultural, artística e jornalística".

Enfim, depois de todas essas particularidades, não há como não acreditar no conto da liberdade da imprensa, afinal não precisa estar acompanhada de "liberdade de expressão". Não me espanta a mídia tradicional, os grandes meios de comunicação, fazerem oba-oba nessas datas comemorativas.

Respondendo a pergunta do ancestral acima: "liberdade de empresa é isso, pele vermelha".  

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Após 3 anos, Bernardo reflete a imobilidade do governo


Há exatos três anos, em 2 de janeiro de 2011, o paranaense Paulo Bernardo tomava posse como ministro das Comunicações do Brasil e passava a ser o primeiro político do Partido dos Trabalhadores a assumir o ministério.  De lá pra cá, muito pouco aconteceu no setor, pouco mudou em relação a pasta, mas é evidente o retrocesso em relação aos posicionamentos do ex-ministro chefe da Secretaria de Comunicação Social (SECOM), o jornalista Frankilin Martins - esse sim de um histórico de militância na esquerda nacional. Ao longo de sua atuação, o petista mantém-se imobilizado quando o assunto é discutir a regulamentação do setor das telecomunicações e rádiodifusão (concessões públicas).

No último triênio, Bernardo tem sido – na opinião dos movimentos sociais e dos militantes da comunicação – um grande obstáculo para a discussão de uma verdadeira mídia democrática. Esses empecilhos para implantação do "prometido" marco regulatório talvez explique o fato de Bernardo ser um ministro "poupado" pela sempre tão "crítica" mídia brasileira, que em outros momentos chegaram a rasgar seda ao "pragmatismo" do paranaense, diferente de outros titulares de pastas, constantemente na berlinda da velha mídia.

Nosso ministro conhece experiências de outros países que realizaram reformas em legislações da comunicação, como Lei de Responsabilidade Social em Rádio e Televisão (RESORTE), na Venezuela - que incluíram novas regras para conteúdos publicados na internet e para a concessão a emissoras de rádio e TV no país; a Lei Orgânica das Telecomunicações do Equador, a Lei da Mídia do Uruguai - enviada recentemente ao Congresso daquele país - e a mais conhecida delas: a "Ley de Medios", na Argentina.

Nesses países a grita foi grande do empresariado da grande mídia - acostumado a lucrar com comunicação por meio da alienação e que ainda busca vender a falácia que regular seria o mesmo que "censurar". Qualquer um que acompanha a imprensa, sabe que não há possibilidade disso acontecer no atual processo democrático que vivemos - isso nunca seria permitido pela própria opinião pública. 

As principais características dessas novas regulações no setor é buscar pôr fim aos monopólios e oligopólios, sem regular conteúdos como se tentou vender a ideia - comprada inclusive pela imprensa brasileira. Afinal, qualquer setor do mercado precisa ser regulado, é a lógica do sistema capitalista, então porque com as comunicações deveria ser diferente?

Essas experiências de legislações limitaram o número de concessões, dividindo-as em fatias para três setores da sociedade: público, privado e terceiro setor. As regulamentações ainda buscam conter a grande presença de empresas internacionais no setor, limitando o espaço ao capital estrangeiro. Porém o mais interessante é a participação da população em todos esses processos - tanto para aprovação dessas leis por meio dos movimentos sociais, inclusive tomando as ruas - quanto na fiscalização e futura aplicação da legislação por meio de conselhos federais do setor.


Voltando ao Paulo Bernardo, vale lembrar que em Congresso Nacional do Partido dos Trabalhadores o marco regulatório das comunicações foi tratado como "um desafio do momento", como de "relevância e objetivo comum" tanto para legenda quanto para os movimentos sociais. Em carta, o PT aponta como "urgente abrir o debate no Congresso Nacional sobre o marco regulador da comunicação social – ordenamento jurídico que amplie as possibilidades de livre expressão de pensamento e assegure o amplo acesso da população a todos os meios – sobretudo os mais modernos como a internet".


Pois bem, ao completar três anos no ministério, a pergunta que precisa ser feita ao paranaense é se o marco regulatório é realmente, como diz o documento de seu partido, um "objetivo comum" junto aos movimentos que levantam a bandeira da democratização da comunicação. O ministro - já questionado pela submissão do governo às telefônicas (as chamadas Teles) sobre o Plano Nacional de Banda Larga (PNBL), precisa vir a público esclarecer o porquê o projeto "rascunhado" por Franklin Martins – e que precisa de alguns ajustes – segue engavetado.

Obviamente que não posso ser injusto e colocar toda a carga em cima do ministro, que representa uma posição maior de um governo e consequentemente seu "chefe", no caso a presidenta Dilma Rousseff. Mas cabe a Paulo Bernardo dar uma resposta se o Estado Brasileiro - a exemplo de outros países latino-americanos - está realmente disposto a bancar esse "custo político" do enfrentamento com os grandes grupos que controlam e manipulam a mídia do país, famílias que são contadas nos dedos de uma única mão.

domingo, 20 de maio de 2012

Jornalistas elegem nova diretoria do Sindijor-PR

Visita à Assessoria de Comunicação da Prefeitura de Cascavel
O Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Paraná (Sindijor-PR) realizará de segunda a quarta-feira (21 a 23 de maio), eleição para escolha da nova diretoria que assumirá a entidade nos próximos três anos.  Serão eleitas a direção estadual e as subseções regionais de Cascavel, Foz do Iguaçu e Ponta Grossa.

A atual gestão, sob a presidência do jornalista Marcio Rodrigues deixará a direção no fim de maio. Durante sua administração, a gestão "Sindicato é uma questão de classe" passou pelo cenário do fim da exigência do diploma em 2009, tentativas de rebaixamento do piso da categoria no interior do Estado, entre outras dificuldades, porém os jornalistas paranaenses conseguiram dois aumentos reais nas últimas Convenções Coletivas, fato que não acontecia há 14 anos.

"Há três anos, um grupo de jornalistas se dispôs a dar continuidade a uma ação surgida ainda no fim dos anos 1980 e desde então o Sindijor tem sido uma entidade que atua de forma inequívoca na defesa dos interesses da categoria, incentivando-a a ser uma classe de trabalhadores mais consciente de seus direitos", destaca Marcio.

Apenas uma chapa se inscreveu para eleição. Intitulada "Juntos Somos Mais Fortes", ela é encabeçada pelo jornalista Guilherme Carvalho, de 32 anos. Curitibano, Guilherme trabalha no Sindicato dos Servidores Públicos Municipais de Curitiba (Sismuc). É mestre pela UFPR e doutor em Sociologia pela Unesp, tendo se formado em jornalismo pela UEPG. Cursa pós em Comunicação, Cultura e Arte na PUCPR.

"Os jornalistas do Paraná podem ter certeza de que a entidade será comandada por um grupo que vai defender os interesses dessa coletividade de forma presente e independente, sempre respeitando aquilo que é melhor para a categoria", diz Marcio Rodrigues, em declaração de apoio a chapa inscrita para a eleição.

Dentre os principais desafios elencados pelos candidatos à nova gestão está a inclusão de uma grande parcela de jornalistas distantes das condições previstas na Convenção Coletiva da categoria; como é o caso das assessorias públicas, políticas e privadas, freelancers, funcionários de pequenos veículos, entre outros. Dentre as lutas, destaque para a regulamentação da profissão e a obrigatoriedade do diploma.

Um diferencial da chapa inscrita é a presença de jornalistas do interior fazendo parte da direção estadual, além da pluralidade na composição, reunindo editores, repórteres, fotojornalistas e assessores de imprensa.

Na última semana, Guilherme Carvalho esteve fazendo um roteiro de visitas pelos municípios que elegerão suas regionais; ele passou por redações e assessorias em Foz do Iguaçu, Cascavel e Ponta Grossa. Na oportunidade, o jornalista falou com os colegas da profissão sobre a eleição, divulgando o material de campanha com as prioridades para gestão e a importância do jornalista estar sindicalizado para fortalecer sua entidade representativa.

Guilherme, que participou da gestão do Sindijor entre 2003 e 2006, destaca os avanços conquistados pela categoria nos últimos anos. "Esses avanços são resultado da organização dos jornalistas enquanto classe. Pretendemos dar continuidade ao que vem dando certo", diz.

Por outro lado, o candidato aponta que há muito ainda a avançar. "Para solucionarmos os sérios problemas que ainda existem, é preciso que os jornalistas se percebam como o próprio sindicato. Precisamos trazer para o sindicato aqueles jornalistas que estão dispersos, como os de assessorias, das redações menores, os recém-formados e também os estudantes. Nossas conquistas dependerão da nossa capacidade de participação", afirma.

A eleição do Sindicato dos Jornalistas do Paraná acontecerá durante os três dias, das 9 às 18 horas. Em Foz do Iguaçu haverá duas urnas: uma fixa e outra itinerante pelas redações. Em Cascavel, os votos serão coletados na segunda e terça-feira em redações e assessorias. A urna itinerante da regional ainda passará pelos municípios de Toledo e Marechal Cândido Rondon. Na quarta-feira, última dia da eleição, a urna estará fixa na Agência F 5 Fotografias, na Rua Paraná, 3498.

Estarão aptos a votar os jornalistas em dia com a contribuição sindical. Os profissionais que estiverem com suas contribuições em atraso poderão regularizar a situação para votar, conforme as orientações que serão repassadas pelo coordenador e mesário nos dias de votação.

Abaixo os componentes da chapa "Juntos Somos Mais Fortes"

Diretor-Presidente:
Guilherme Carvalho
Diretor-Executivo: Gustavo Henrique Vidal
Diretora-Financeira: Maigue Gueths
Diretor de Defesa Corporativa: Célio Martins
Diretor de Fiscalização do Exercício Profissional: Ivonaldo Alexandre
Diretor de Formação: Pedro Carrano
Diretor de Saúde e Previdência: Wilson Soler
Diretor de Imagem: Pedro Alexandre Serápio
Diretor de Ação e Cidadania: Ismael de Freitas
Diretora de Cultura: Mauren Lucrécia
Diretora-Administrativa de Assessoria de Comunicação: Ana Cecília Pontes de Souza
Diretor-Administrativo de Interior: Júlio César Carignano
Diretora-Administrativa de Professores e Estudantes: Cristiane Lebelem
Diretor-Administrativo de Esporte, Lazer e Eventos: Filipi Manoel Rodrigues de Oliveira
Diretor-Administrativo Institucional: Fernando César Borba de Oliveira 

Redação da RPC TV
Portal da CATVE

Redação da Gazeta do Paraná
Jornais Hoje/O Paraná
Entrevista à Rádio Globo
TV Tarobá

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Duas obras, um tema e o "manto de sombras"

Luiz Manfredini ministra palestra na Unioeste
A combinação música mais história é sinônimo de ótimos debates no meio acadêmico. Esse formato, idealizado na Unioeste (Universidade Estadual do Oeste do Paraná) pelo professor Alexandre Fiuza, trouxe um tema que está em evidência com a possibilidade da instalação da Comissão da Verdade, que apurará crimes cometidos pelo Estado brasileiro durante a ditadura civil-militar.

Esse debate foi enriquecido com a presença do jornalista e escritor Luiz Manfredini, que esteve nos últimos dias na região Oeste. Nascido em 1950, o curitibano foi personagem dessa história, sendo inclusive preso no período dos 'Anos de Chumbo'.

Em Foz, ele foi um dos convidados do Salão Internacional do Livro, enquanto em Cascavel ministrou a palestra 'Memória da neblina e as moças de Minas: história e ficção sobre a ditadura'. "É a primeira vez que faço uma palestra assim, é muito gostoso ouvir música de qualidade e não ficar aqui só discutindo", diz o jornalista sobre as apresentações dos músicos Ana Carolina Noffke, Sil Vaillões e Giovani Pinheiro, que abriram o debate.

Antes do evento, o 'camarada Manfra' - apelido oriundo dos tempos de militância política no grupo Ação Popular - teve uma prosa com o Sítio Coletivo, onde falou de seus livros mais conhecidos que dão nome à palestra. Falou ainda sobre sua expectativa para a instalação da Comissão da Verdade e a atuação da imprensa na sustentação do golpe de 64 e nos dias atuais. Abaixo trechos deste bate-papo.


[Sítio] 'Memória da neblina' e 'Moças de Minas'
[Manfredini]
Na literatura podemos ter dois olhares sobre o regime, aquele jornalístico, histórico e jurídico, e o olhar da ficção. Diferente da ciência, na ficção não se precisa provar nada, mas está baseado em fatos que podem ter ocorrido. Ela te faz avançar e toca na alma das pessoas, fazendo que elas pensem. O Moças de Minas, publicado em 1989 e reeditado em 2008, é um livro jornalístico, um caso conhecido envolvendo cinco moças que pertenciam a Ação Popular, grupo que militei nos anos 60, onde estudantes se integraram a operários e camponeses. Éramos um grupo diferente dos grupos de Mariguela e Lamarca, que eram organizações armadas. Entendíamos que mais a frente esse seria o caminho, mas naquele momento era impossível, a história mostrou isso, pois do outro lado tinha um exército enorme e fortalecido. Não dava para chegar sozinho, era preciso a participação do campo, das fabricas, enfim, o livro traz depoimentos dessas cinco jovens, pesquisas junto o Supremo Tribunal Militar e uma bibliografia da época vivida, entre os anos de 1968 a 1971, que coincidem com o AI-5 (Ato Inconstitucional número 5). A outra obra, Memória de Neblina, publicada no ano passado, é uma ficção atrelada à realidade vivida nos anos 60. São três cinquentões que se reúnem para falar daquele passado. Fala da dramaticidade de viver naquela época, mas como eles eram adolescentes nessa fase, também há espaço para as brincadeiras, algumas atitudes próprias da idade, como quando vão fazer pichações nos colégios com as palavras de ordem do tipo "Abaixo a ditadura" e poesias de Ferreira Gullar. Esse era um diálogo da época de se unir a poesia e política. Os dois livros dialogam entre si, que se relacionam na problemática, apesar de não serem continuações.

Ditadura e Comissão da Verdade
A ditadura está em evidência novamente no país, devido às circunstâncias políticas, pelo momento democrático que passamos, pela instituição da Comissão da Verdade, ainda que falte a indicação dos membros do governo. Apesar de não ter caráter de punição, acho que a comissão irá prosperar. Há um interesse grande da juventude nisso, prova disso foram ações em frente às residências dos torturadores. É algo que eu não esperava e isso está acontecendo porque a sociedade entende que o país não pode avançar diante de tantas sombras em seu passado, há essa ansiedade em desvendar esse 'manto de sombras'. Ainda que a comissão não puna, é preciso tirar a limpo essa situação.

Recuos na instalação
Os recuos são próprios da luta política, são resultado de uma correlação de forças, assim como foi a própria Lei da Anistia. A comissão não depende exclusivamente da Dilma, talvez essa demora do governo em indicar seus membros tenha causado esse desgaste todo. Precisamos lutar é por uma estrutura que seja ágil, uma comissão que separe o joio do trigo, que comprove o que foi verdade, o que foi mentira e que vale a pena investigar. A própria Lei da Anistia deverá ser questionada, pois sabemos que ela foi imparcial, pois o Estado foi auto-anistiado. O que se cometeu foram crimes de Estado, veja o caso da Argentina, eles agiram positivamente ao radicalizar e o hoje o Videla está na cadeia [Jorge Rafael Videla, ex-general argentino que admitiu os crimes da ditadura]. Basicamente, se a sociedade não se envolver, se não houver pressão social, a comissão não avançará.

A imprensa e o golpe
A mídia brasileira tem três grandes momentos que merecem ser citados. Um primeiro, em 1964, quando a imprensa participa da conspiração que instaura o golpe, assim como já havia participado da oposição a Getulio Vargas. A família Mesquita [proprietária do Grupo O Estado de São Paulo] cedeu veículos aos militares e inclusive comprou armas para se preparar para uma eventual revolta. Nessa mesma fase, os meios de comunicação participam da organização da 'Marcha da Familia, com Deus e pela Liberdade'. Somente um jornal na época, o Última Hora do Samuel Wainer fazia oposição a isso. Um segundo momento é entre 1971 a 1974, quando a mídia começa a se deslocar do golpe, é quando em 1976 começa a censura do regime ao Estadão, através das receitas de bolo e dos poemas de Camões. Eu inclusive trabalhei nessa época para o Estadão, trabalhei pro PIG [Partido da Imprensa Golpista] na época (risos). Nessa mesma fase fui preso quando estava no JB [Jornal do Brasil], que precisou contratar advogados para me soltar. Já o terceiro momento é a fase pós-Lula, onde temos uma oposição direta ao governo, com uma tentativa de golpe em 2006, onde a imprensa começa a agir com o papel político, de partido de oposição. O que a revista Veja faz, por exemplo, não é jornalismo, é criação de fatos políticos que hoje, com esse caso do escândalo do [Carlinhos] Cachoeira, estamos vivendo o auge.

Os jornalistas e o patronato

A mídia privada integra o poder econômico nacional, ela vende um produto que é a informação, mas qualquer informação precisa de um mínimo de credibilidade. Quando a mídia age como partido político, como 'partido do capital', perde essa credibilidade e vai se afastando cada vez mais dos princípios jornalísticos para defender interesse de seus donos. O mais dramático é quando os jornalistas entram nessa onda de achar que a imprensa deve ser intocável e jamais questionada. Todo mundo está sob regulação de seus conselhos, mas só a imprensa não pode ter um órgão regulador. É um absurdo quando os jornalistas assumem a posição do patronato. O Mino Carta [diretor da revista Carta Capital] costuma dizer que esse é aquele profissional que trata os Marinho como se fossem 'colegas' (sic).

Blogs e novas mídias
Isso é um grande dado, veja o caso do livro Privataria Tucana, do Amaury Ribeiro Junior, que sofreu um boicote dos grandes veículos de comunicação, ele estava vendendo igual pão quente em padaria, mas a Veja não o colocava naquele espaço dos mais vendidos, só foi fazer após a pressão de blogs e as redes sociais que começaram a pipocar isso. Esse dado novo vem pra furar esse bloqueio, hoje existem sites, portais, blogs que produzem jornalismo cidadão. Óbvio que é preciso selecionar, pois tem para tudo que é gosto na internet, desde pedofilia até cidadania. Acho que a internet tem alterado a forma de fazer política, está alterando as relações. O grande problema é que acabamos sofrendo da 'síndrome do excesso de informação'.

Caminho da esquerda
As experiências que começaram com a União Soviética acabaram se esgotando, elas tiveram consequências fantásticas para sociedade, mas tiveram erros e precisamos fazer essa leitura. Ela teve a dificuldade de não poder se basear em experiências anteriores, mas serviram para promover os ideais de uma sociedade menos individualista. No início dos anos 90, tivemos uma guinada para o neoliberalismo, que se opunha a isso. Talvez o grande equívoco do projeto socialista foi achar que só existia um modelo único. Existem princípios básicos, é simplismo pensar que tomado o poder, rapidamente o socialismo será implantado, isso traz problemas inclusive para o processo democrático, pois aqueles que não se enquadram são excluídos, promovendo desigualdades sociais. Apesar disso, vimos que o capitalismo não é a solução e que não há perspectiva para esse sistema que tem como objetivo o lucro máximo, o cada um por si.


*   Luiz Manfredini é jornalista e escritor em Curitiba. Trabalhou em O Estado do Paraná, TV Iguaçu, O Estado de S. Paulo, Jornal do Brasil e revista IstoÉ, entre outros órgãos de imprensa. É colunista do portal Vermelho, membro do Conselho Editorial da revista Princípios, editada em São Paulo, e coordenador da Fundação Mauricio Grabois.

segunda-feira, 30 de abril de 2012

1º de Maio: comida, diversão e contra-informação

Ilustração: os mártires de Chicago
Historicamente, a classe patronal usa de artimanhas para alcançar objetivos e para que o trabalhador esqueça a verdadeira origem e sentido do 1º de Maio, atraindo a classe trabalhadora com seu velho 'pão e circo'. Primeiro dia do mês, dia do trabalhador e o que vem na cabeça de muitos: feriado, festas, bingos, premiações, shows de pagode ou de dupla 'sertaneja universitária', costelão e até corte de cabelo na 'faixa', tudo isso oferecido 'generosamente' por empresas e empregadores.

Mascarando o verdadeiro sentido desta data de luta, o 'festerê' promovido no feriadão serve para que o empregado - transformado hoje em 'colaborador' - esqueça os demais 364 dias do ano e abandone ideais de que é a partir da luta dos trabalhadores que se fazem as mudanças estruturais de uma sociedade.

Empresários conseguiram transformar o 1º de Maio em espetáculos das multidões atrás de prêmios, comida e diversão. Porém não podemos responsabilizar somente a classe patronal pela deturpação do sentido da data, somam-se a ela, igreja e até centrais sindicais, que há muito tempo usam dessa prática de shows com sorteios de prêmios, em atos patrocinados por grandes marcas, atendendo assim interesses classistas, prestando um serviço à classe patronal e um desserviço a classe trabalhadora.

Para dar voz ao tripé (patrões, clero e sindicalismo pelego) está a comunicação de massa, a de produção de pensamento hegemônico. Com o perdão das exceções (cada vez mais raras), a cobertura dos meios de comunicação tradicionais sobre o 1º de Maio ao mesmo tempo em que é deprimente - com suas pautas repetitivas - é também perigosa ao contribuir com esse cenário de alienação e falta de aprofundamento sobre seu real significado, ao ponto de ouvirmos a utilização de 'dia do trabalho', uma nomenclatura que para alguns pode parecer insignificante, mas que carrega um simbolismo ao valorizar o trabalho em si, como a velha ladainha do 'ato que dignifica', mas que não valoriza aquele que produz a riqueza.

Diante disso, vale destacar a importância histórica da imprensa alternativa, da comunicação sindical compromissada com a classe trabalhadora, e hoje - em épocas de era digital - as novas mídias, no papel de fazer o resgate do verdadeiro sentido do 1º de Maio como um dia de luta, uma data para reafirmação de reivindicações, defesa daquilo que já foi conquistado, reforçando a união dos trabalhadores enquanto classe que luta para acabar com toda forma de exploração e opressão.

Uma data para relembrarmos os milhares de trabalhadores que lutaram para que hoje pudéssemos ter uma série de conquistas como carteira assinada, salário mínimo, licença maternidade, direito ao voto, dentre tantos outros.

A contra-informação

Assim como a comunicação hegemônica deforma, a comunicação alternativa forma. Nesse sentido, a imprensa alternativa sempre teve um grande papel ao mostrar o 1º de Maio dos trabalhadores e ser uma porta-voz ao serviço da classe. Tudo inicia com a imprensa anarquista do começo do século XX com publicações e jornais operários como: O Operário (Recife), O Socialista (Salvador), A Luta (Porto Alegre), O Proletário (Juiz de Fora), Primo Maggio (São Paulo) e, talvez o principal deles, A Plebe (São Paulo), dirigido pelo jornalista Edgard Leuenroth.
João Ferrador

Já nos anos de 1980, a imprensa sindical começa a ganhar força e dar voz ao grito dos trabalhadores. Sindicatos lançam jornais, boletins, folders e criam símbolos, como o personagem João Ferrador, que ilustrou as publicações diárias do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, durante a histórica greve de 1980.

Infelizmente, nos dias atuais, grande parte dos sindicatos tem se focado apenas nas pautas imediatas e corporativas (de cada categoria) com suas reivindicações do dia a dia (salários, condições de vida de trabalho e jornada), deixando de lado a luta histórica do trabalhador e suas pautas comuns, sendo a principal delas, a luta contra o grande capital que explora o homem sobre o homem.   

Um dos grandes estudiosos do 1º de Maio, o escritor Vito Gianotti, do NPC (Núcleo Piratininga de Comunicação), costuma dizer que "a comunicação é um instrumento do convencimento, que junto à força da organização e luta é componente essencial para a disputa de hegemonia". Então, se hegemonia é convencimento e força, a comunicação sindical, a imprensa alternativa e o fenômeno das novas mídias tem um potencial enorme pela frente.

Histórico

O Dia do Trabalhador nasceu em 1889, de uma iniciativa dos trabalhadores organizados na AIT (Associação Internacional dos Trabalhadores) de declarar um dia de luta pelas 8 horas diárias de trabalho e em homenagem aos mártires que morreram durante a greve geral de 1º de maio de 1886, em Chicago. Na ocasião, os grevistas de Chicago foram duramente reprimidos pela polícia, tendo os seus principais líderes – sindicalistas anarquistas – condenados à forca.

Ao longo dos anos, o dia 1º de Maio ficou, então, marcado como um dia para homenagear as lutas dos trabalhadores e das trabalhadoras por melhores condições de vida e de trabalho, sendo comemorado no mundo inteiro por sindicatos, associações de trabalhadores, militantes e trabalhadores do campo e das cidades.

Abaixo algumas capas de publicações históricas com menção ao 1º de Maio e a luta dos trabalhadores.

Jornal da COB (Confederação Operária Brasileira) do 1º de maio de 1913. Capa traz ilustração que traduz o ideal da central: um operário de marreta na mão sobre as caveiras do "capitalismo, clero, burguesia e militarismo".
Edição de 1918 do jornal O Cosmopolita, do Sindicato dos Trabalhadores em Hotéis do Rio,
conta a tragédia do 1º de maio de 1886 em Chicago
Em 1906, em Paris, é lançado o jornal satírico O Prato à Manteiga, com ilustração alusiva ao 1º de maio:
8 horas de trabalho, 8 horas de lazer, 8 horas de repouso, é o tema da capa

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Jornalistas no combate ao mau jornalismo

* Fernanda Regina da Cunha

Fatos ocorrem a cada segundo, fatos importantes, pouco importantes, fatos que dizem respeito diretamente as nossas vidas e fatos que em nada nos acrescentarão.  Informações existem ou inexistem, informações são repassadas e não são repassadas. Algumas vezes, informações são alteradas.

Difícil definir o que é pior no caso da informação: se aquela que não nos é transmitida ou aquela que sofre contaminações.  Isenção em um texto, seja ele jornalístico ou não, é algo impossível de se encontrar, no entanto, o limite de influência daquele que é responsável pela informação precisa ser ponderado. A atualidade trouxe consigo uma grande facilidade no acesso a informação. Diariamente somos bombardeados de notícias por todos os lados e aí, como filtrar?

A grande bandeja de notícias oferece ao receptor a possibilidade de analisar diversas fontes e escolher aquilo que lhe pareça mais coerente. Talvez esteja aí o poder de quem está do lado de cá da informação.  Infelizmente no Brasil, nem todos têm acesso às mídias alternativas – seria utópico demais acreditarmos que já é assim – porém, o caminho já não possui mão única. Outro fato que não pode ser negado é aquela cultura arraigada em boa parte da população, cujo fundamento aponta para as grandes empresas de mídia como a fonte de informação única necessária ao dia-a-dia. Estamos caminhando sim, mas é necessário saber que até mesmo a capacidade de discernimento passa impreterivelmente pela boa qualidade da educação formal, aquela capaz de fazer pensar, mas esse é um outro debate.

Não há dúvidas que os movimentos sociais contrários ao capitalismo que estão ocorrendo ao redor do mundo são ignorados por muitos, já que uma boa parcela dos segmentos da "grande imprensa" preferem não noticiar ou então "mascarar" as informações sobre o assunto. O controle da informação é um fato real e presente, a grande massa desconhece e continuará desconhecendo porque conta com poucos para lhe dizer da realidade.

 O jornalista e sociólogo Ignacio Ramonet já propôs a criação do "quinto poder", com a função de denunciar os grandes grupos midiáticos que não defendam a população, mas ao contrário, atuam como opositores. A academia nos ensina uma das premissas do bom jornalismo: "ouvir sempre, os dois lados". Com esse dado na cabeça já se sabe que tem algo errado acontecendo por aí.

A prostituição da imprensa irá diminuir quando os próprios jornalistas tomarem a luta para si, em defesa da boa informação e do direito dos cidadãos de receberem a notícia como é ela é - nem mais nem menos. Contextualizar uma notícia pede consciência de classe e até mesmo, espírito de humanidade, por saber que podemos, sim, atuar na transformação da sociedade. Falo aqui de resistência. A proposta aos jornalistas é de atuarem na frente de defesa dos menos favorecidos, grupo ao qual também pertencemos.

Talvez seja este o momento de parar com a reverência dedicada a certos órgãos de imprensa. Aquela mesma reverência que faz um aspirante sonhar em obedecer determinados padrões de qualidade, não apenas pelo salário, mas principalmente pelo status ideológico que aprendeu a almejar. Nesta história de guerra midiática, os jornalistas devem ser os protagonistas e irem para batalha por si e pelos outros também.

* Fernanda Regina da Cunha é jornalista em Foz do Iguaçu

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

O "artevismo" de Carlos Latuff - parte I


A 'prosa' começou com um gosto em comum, a banda The Clash, motivada pela camiseta usada na ocasião. A partir daí iniciei meu bate-papo com Carlos Latuff, 42 anos e duas décadas dedicadas aos desenhos. Com seus traços, o carioca sintetiza e captura ideários políticos, unindo arte e ativismo, mostrando que o artista não está apartado do processo político-social. 

Mesmo que suas charges não estampem grandes 'jornalões' do mainstream midiático, Latuff é um dos maiores cartunistas do Brasil na atualidade. Situação rara por aqui. "O senso comum é que cartunista é o cara que trabalha para grande imprensa fazendo piada, sendo engraçadinho (sic)", explica.

Seus desenhos foram parar em cartazes, camisetas e pôsteres de manifestantes durante a Primavera Árabe. Suas charges chamaram tanta atenção na Tunísia e no Egito, que os rebeldes da Líbia passaram a pedir seus desenhos nos acontecimentos que sucederam a queda de Muamar Kadafi. Esses e outros momentos - como seu envolvimento com os zapatistas do México e com a Causa Palestina - marcam o trabalho de Latuff.

“A charge tem poder de sintetizar um tratado, capturar a essência da mensagem, ela consegue se comunicar com gente de outras línguas, religiões, culturas diferentes através da imagem”, diz o cartunista que iniciou seu trabalho na imprensa sindical, onde segue atuando.

Latuff esteve recentemente em Foz do Iguaçu no I Encontro Mundial de Blogueiros e falou ao Sítio Coletivo. A conversa foi longa e precisou ser dividida em duas partes. Acompanhe a primeira parte dessa 'prosa'. 

[Sítio] 'Artevismo'
[Latuff] Antes de eu ter consciência política e social, eu era um artista que sabia desenhar. Depois a ficha caiu para o fato que o artista não vive isolado na sociedade, não está acima das ideologias, das necessidades, ele é um cidadão comum. Acontece que por ele ter uma aptidão, uma habilidade, ele acaba se destacando. Por conta disso, acho importante que o artista coloque seu trabalho a serviço da transformação, das causas sociais. Ele deveria - não vou dizer que tem pois é impositivo - entender que seu trabalho não está apartado do processo social e político. Não precisa ser um artista militante 24 horas, cito o que Botero faz [Fernando Botero, artista plástico colombiano], você pode dedicar parte do seu trabalho para instigar e promover reflexão, não fazer somente arte para decorar parede. Botero é um cara de galeria, da pintura, conhecido, badalado, mas que faz trabalhos relevantes sobre a Colômbia, sobre a violência, sobre Abu Ghraib, sobre Guantánamo.

Imprensa sindical
Ainda atuo na imprensa sindical, é meu ganho pão e tenho orgulho de trabalhar com a imprensa sindical. O problema da imprensa sindical é que ela não se entende como imprensa que vai disputar hegemonia, ela é muito voltada para sua classe. Existem algumas experiências, eu trabalho para uma revista chamada Ideias em Revista, do Sindicato dos Servidores das Justiças Federais no Rio de Janeiro, que trata de vários temas, não só da categoria. Grande parte do setor é dedicado quase que exclusivamente a temas das categorias. A imprensa sindical é grande, me refiro a imprensa sindical de esquerda, não a sindical 'pelega'. Tem grande amplitude e poderia fazer contraponto com a grande imprensa, disputar hegemonia, como diz o Vito Gianotti. Está faltando isso nela, fazer disputa.

Zapatismo e Palestina
Meu primeiro contato com os zapatistas foi interessante, foi no final dos anos 90, era um momento que eu já tinha sete ou oito anos de imprensa sindical, mas só que naquela época minha atuação na imprensa sindical era profissional, não tinha envolvimento ideológico com as causas. Esse contato com a imprensa sindical foi criando um acúmulo e a ficha caiu realmente quando eu tive contato com os zapatistas. Comecei fazendo arte para grupos de solidariedade à causa na internet, percebi que a arte não é como trocar lâmpada, você pode fazer arte fazendo diferença. Os zapatistas abriram meus olhos para uma arte a serviço de uma causa justa. A partir desse primeiro trabalho com o zapatismo eu pude fazer o trabalho com os palestinos, que culminou com minha visita a Palestina. Depois de ver aquela realidade dura, não tinha outra coisa a fazer do que voltar ao Brasil e me tornar um apoiador da causa.

Ser cartunista no Brasil
Quando se fala em artista o que as pessoas pensam? Celebridade, o sujeito que faz novela, esse é o artista. O cara pensa: "ah, ele faz charges, é para Folha (sic)...". A grande imprensa construiu um senso comum de que cartunista é quem trabalha para grande jornal, o artista é que o aparece na televisão, que faz novela. Esses conceitos artificiais são criados cuidadosamente. Temos um encontro de cartunistas e dificilmente eu sou chamado porque para eles eu não sou cartunista, eu sou outra coisa. Uma vez eu estava num debate com o Chico Caruso e o Jaguar, e o Chico falou: "O Latuff não é cartunista, é um ativista". Dentro desse censo comum são duas coisas incompatíveis. Achei interessante ele dizer aquilo, pois representa a essência do pensamento majoritário. Cartunista é o cara que trabalha para grande imprensa para fazer piada, para ser engraçadinho. Se ele tem um viés ideológico mais marcado, se ele decide apoiar causas populares, se defende os sem-terra, os sem-tetos, se é contra violência policial, se defende Palestina, ele é um propagandista, um ativista, um militante, um radical, mas nunca um artista.

Primavera Árabe
Os egípcios conheciam meu trabalho sobre a Palestina e viram charges sobre a Tunísia. Dois dias antes dos protestos começarem, no dia 25 de janeiro, me acionaram pelo meu twitter (@CarlosLatuff) me pedindo charges sobre os protestos que ainda estavam sendo planejados. Fiz cinco charges, mas fiquei preocupado, pois pensei: "o regime do Mubarak é muito mais organizado e brutal do que da Tunísia, pois o Egito iria ter um papel fundamental na região, então pensei esse pessoal vai ser esmagado". Começaram os protestos e vi fotos de agências internacionais e dos próprios egípcios segurando minhas charges. Aquilo me deu convicção que o trabalho que eu estava fazendo era relevante para aquele povo, isso para mim é a maior conquista, que não produzo peça de coleção, artigo de luxo para ser vendido ou leiloado. É uma arte viva, arte que serve às pessoas. Não é aquela charge que você vê um dia no jornal e no outro dia na lata de lixo. A partir do momento que alguém imprime, quando outro veículo usa, quando alguém salva, há o esforço para trazer aquele desenho da internet para a vida real. Você investiu um sentimento ali, você não levanta uma charge do Mubarak levando uma sapatada no Cairo por nada, mas sim porque aquilo era a voz dele também, era a expressão que ele sentia, me orgulho muito em saber que fiz algo para expressar a voz de um povo diferente.

Occupy Wall Street
Todo movimento que questione o establishment, que pretenda quebrar paradigmas, quebrar rupturas é bacana, mas esses Occupys não são movimentos de massa, diferente do que ocorreu no Egito, com dois milhões de pessoas nas ruas. Lá tínhamos uma ditadura clássica, tosca, sem verniz algum, esse tipo de regime suscita naturalmente as pessoas à indignação, tem um acúmulo e uma hora estoura, as pessoas não aguentam. Quando se tem uma falsa democracia é muito mais fácil de controlar as pessoas, você tem uma sensação de democracia. Por exemplo, você chega na Era Mubarak e diz claramente "isso é uma ditadura" e ninguém diz o contrário, pois você tem as provas. Mas você não tem como dizer que os EUA é uma ditadura, mesmo que seja, mesmo que tenha momentos de censura, repressão, ação da polícia, assim com não podemos dizer que o Brasil é uma ditadura objetiva, mesma coisa no Chile, você não pode dizer que o sistema do Piñera é a mesma coisa da ditadura do Pinochet, quando você consegue mascarar um regime autoritário em democracia as pessoas não sentem que estão sendo oprimidas e elas não reagem, existem dissidências como é no caso do Occupy Wall Street. Se fosse um movimento de massa eles tomavam aquilo lá, eles entravam no prédio. Enquanto a polícia conseguir reprimir é porque não é um movimento grande, no momento em que a polícia não conseguir reprimir você tem um movimento de massa, não dá mais e tem que mandar o exército, assim como no Egito. Nos EUA isso está longe de acontecer, se acontecer não será tão cedo. O movimento de massa que realmente assustou o sistema por lá foram os levantes de Los Angeles [1991], quando a polícia espancou aquele motorista negro [Rodney King], foi tudo filmado e a justiça soltou os policiais, então houve o levante em Los Angeles, que deu até o nome de um disco do Rage Against The Machine chamado The Battle of LA. Lá a polícia não segurou, eles mandaram a guarda nacional, mas mesmo assim foi retomado o controle depois. O Occupy ainda é um movimento de pessoas esclarecidas e a grande massa ainda não é esclarecida. 

Manifestante levanta charge em Cairo, no Egito

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

A necessidade de uma comunicação popular em uma mídia monopolizada


Reproduzo para os sitiantes um texto do professor de história de Foz do Iguaçu, Danilo Georges, sobre monopólio midiático, liberdade de empresa e o papel fundamental dos comunicadores populares na busca de uma mídia verdadeiramente plural e democrática. O artigo foi originalmente publicado no portal fronteiriço Megafone – Rede Cidadania de Comunicação. Mais informações no endereço: www.megafone.inf.br e pelas redes sociais (@redemegafone)



 O monopólio da comunicação exercido pelas grandes corporações da Mídia tem um forte impacto social, cultural e econômico na sociedade, a concentração de informação na mão de grandes empresas é um atentado a democracia, pluralidade de pensamentos e direitos humanos em suma um atentado a vida.

A mídia corporativista exerce um grande pacto com o capital construindo consenso sobre atores sociais, políticos e instituições financeiras. Padronizando comportamento e ditando ideologias, na qual não existe vida fora do capitalismo, exerce assim um verdadeiro controle social, tenta se apresentar como neutra mas tem um pacto com as elites econômicas que a controla. 

O jornalista Denis Morais chama atenção para o monopólio da imprensa mundial segundo ele: “quatro corporações (Viacom, Disney, AOL Time-Warner e Rupert Murdoch) concentram 90% da produção de jornais, rádios, televisão, teatro e cinema, fica descaracterizada qualquer possibilidade de democracia nos meios de comunicação”.

Segundo a analise do jornalista, aproximadamente 6 bilhões de pessoas são informadas e manipuladas por 4 corporações que estão atreladas aos interesses de mercado. Há sempre espaços nos telejornais para intelectuais que defendem o sistema econômico vigente, aos contrários cabe o ostracismo, a demonização de seus pensamentos e a criminalização dos  movimentos sociais que não são agregados nesse tipo de imprensanão possuem direito ou respaldo, são sujeitos invisíveis nesse formato capitalista aonde se valoriza mais o lucro do que a vida. 

Em contraposição à mídia burguesa e sua lógica perversa mercadológica, nasce dos becos, guetos, ruas, sindicatos e universidades, uma outra proposta de comunicação galgada na defesa de um dos mais fundamentais direitos humanos que é o direito de se comunicar, um outro olhar sobre a sociedade, uma  nova voz  que busca disputar hegemonia com o neoliberalismo, a comunicação popular tem como principal ofício dar voz aos excluídos e oprimidos aqueles que são silenciados, massacrados e invisíveis às corporações midiáticas.

A mídia monopolizada não carrega nenhuma liberdade de informação há somente a liberdade de mercado, que é protegida e assegurada pelas economias liberais capitalistas, e que fere o exercício aos direitos à liberdade de opinião e expressão. O papel dos meios de comunicação deveria ser democratizar o saber, educar, investigar, humanizar a sociedade e denunciar a corrupção. 

Como a mídia oficial faz geralmente um desserviço as camadas populares, comunidades indígenas e todos aqueles que não têm o poder aquisitivo para o consumo, creio que o papel do comunicador popular é o de ir na contramão da mídia corporativista e atuar junto com  a camada subalterna da população,  revelando os interesses político-econômicos que levam à publicação de determinadas notícias encomendadas pela elite patronal brasileira , os comunicadores populares devem  fornecer informações aos leitores que não são encontradas na grande mídia, fazendo uso de pesquisa e de reportagens utilizando muitas vezes  recursos próprios.

Enfrentar a elite e os desmandos de empresas que insistem em colocar o lucro acima da vida é o objetivo vital de quem se propõe lutar pela democratização da comunicação, a comunicação popular tem que estar atrelada a um projeto educacional não formal, é necessário exercer uma pedagogia libertária e emancipatória onde todos tenham acessos à informação e o direito a comunicação. 

A luta por uma outra mídia é vital, urgente e necessária para que a humanidade possa aspirar um novo mundo aonde se prevaleça a demanda coletiva e não individual, pautando os direitos e não privilégios, almejar valores igualitários e assegurar a diversidade de opinião, acima de tudo, viver em uma sociedade anti-capitalista.

Danilo Georges é professor de história em Foz do Iguaçu.