domingo, 27 de maio de 2012

Reforma agrária: Nove anos do Olga Benário

A partilha simbólica do pão
O Assentamento Olga Benário, em Santa Tereza do Oeste, vem somando conquistas e demonstrando que a reforma agrária dá certo, beneficiando não somente as famílias que conquistaram a terra, mas gerando emprego e distribuição de renda que auxilia a economia da região.

O assentamento do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra), distante 15 quilômetros de Cascavel, completou nove anos neste sábado (26/05). A festa reuniu trabalhadores, amigos e colaboradores da reforma agrária na região Oeste do Paraná. O Sítio Coletivo foi um dos convidados da bela festa organizada pelos trabalhadores rurais sem-terra.

A comemoração foi iniciada com uma celebração ecumênica e a leitura de um texto das tradicionais místicas realizadas pelo MST, rituais que se constituem em práticas pedagógicas e educativas do movimento. Em menção a inauguração da padaria comunitária da comunidade, foi realizada a partilha simbólica do pão por dois jovens sem-terra.

A padaria comunitária produzirá alimentos que são frutos da reforma agrária. O espaço, de 48 metros quadrados, foi construído pelos assentados e contou com doações de aliados da reforma agrária, como sindicatos de Cascavel, caritas diocesanas, paróquias, prefeitura de Santa Tereza do Oeste e comerciantes do município.  

O espaço ainda necessita de acabamentos, mas já está produzindo semanalmente cerca 900 quilos de pães, cucas e bolachas. Esses produtos são entregues a 33 colégios estaduais nos municípios de Cascavel e Santa Tereza do Oeste.

Além da merenda escolar, o Assentamento Olga Benário tem a experiência do PAA (Programa de Aquisição de Alimentos), onde as famílias têm conseguido garantir a produção diversificada de alimentos para a doação a entidades assistenciais e educacionais de Santa Tereza do Oeste.

"A ideia da construção da padaria surgiu em dezembro do ano passado e hoje estamos felizes com essa conquista para a comunidade, teremos um local adequado para produzir os alimentos da reforma agrária. Pretendemos ampliar nossa produção, participar da feira municipal do pequeno agricultor e fornecer nossos produtos ao comércio local de Cascavel e Santa Tereza", destaca a assentada Marilene Hammel, uma das 13 pessoas que trabalham na padaria comunitária.

Além da padaria, o assentamento deverá implantar ainda esse ano um viveiro comunitário para a produção de mudas de hortaliças. Com isso, também será garantido o fornecimento de água para que as famílias possam organizar suas hortas e melhora sua produção e alimentação. O viveiro será viabilizado por meio de um patrocínio da Eletrosul. A comunidade também projeta a construção de um barracão comunitário, um espaço para confraternização das famílias com a sociedade, que deverá ser viabilizado por meio de uma emenda parlamentar do deputado federal Dr. Rosinha (PT).

O militante Eduardo Rodrigues, um dos coordenadores do Olga Benário, destaca as conquistas obtidas pelo assentamento, mesmo diante de uma série de dificuldades. "Ao longo desses anos tivemos que enfrentar a tiraria do latifúndio, o ódio de grande parte dos meios de comunicação e muitas vezes a incompreensão da sociedade, mas dia a dia, fomos conquistando nosso pedaço de terra e cada melhoria de vida com grande esforço e luta", diz o sem-terra.

Ele destaca que as conquistas só foram possíveis graças à união das famílias que lutam até hoje, empunhando a bandeira do MST, movimento que os une e que dá condições para que as conquistas sejam alcançadas. "Também gostaria de agradecer aos amigos e parceiros da reforma agrária na região, que nos acompanham nesses nove anos de luta", conclui Eduardo.

O compromisso de estar na contramão do agronegócio, fazendo a opção pela agroecologia como ferramenta de produção em uma terra sem veneno e agrotóxicos, faz com que os assentados do Olga Benário sigam na luta pela reforma agrária, levando o legado da ex-militante comunista que pregava a luta pelo que é "bom, belo e justo". 

Padaria comunitário do Olga Benário
Produtos da reforma agrária
Produtos da reforma agrária
Eduardo Rodrigues
Eduardo e Marilene em leitura do texto da mística
Celebração ecumênica
Araídes Duarte e a filha Yara

domingo, 20 de maio de 2012

Jornalistas elegem nova diretoria do Sindijor-PR

Visita à Assessoria de Comunicação da Prefeitura de Cascavel
O Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Paraná (Sindijor-PR) realizará de segunda a quarta-feira (21 a 23 de maio), eleição para escolha da nova diretoria que assumirá a entidade nos próximos três anos.  Serão eleitas a direção estadual e as subseções regionais de Cascavel, Foz do Iguaçu e Ponta Grossa.

A atual gestão, sob a presidência do jornalista Marcio Rodrigues deixará a direção no fim de maio. Durante sua administração, a gestão "Sindicato é uma questão de classe" passou pelo cenário do fim da exigência do diploma em 2009, tentativas de rebaixamento do piso da categoria no interior do Estado, entre outras dificuldades, porém os jornalistas paranaenses conseguiram dois aumentos reais nas últimas Convenções Coletivas, fato que não acontecia há 14 anos.

"Há três anos, um grupo de jornalistas se dispôs a dar continuidade a uma ação surgida ainda no fim dos anos 1980 e desde então o Sindijor tem sido uma entidade que atua de forma inequívoca na defesa dos interesses da categoria, incentivando-a a ser uma classe de trabalhadores mais consciente de seus direitos", destaca Marcio.

Apenas uma chapa se inscreveu para eleição. Intitulada "Juntos Somos Mais Fortes", ela é encabeçada pelo jornalista Guilherme Carvalho, de 32 anos. Curitibano, Guilherme trabalha no Sindicato dos Servidores Públicos Municipais de Curitiba (Sismuc). É mestre pela UFPR e doutor em Sociologia pela Unesp, tendo se formado em jornalismo pela UEPG. Cursa pós em Comunicação, Cultura e Arte na PUCPR.

"Os jornalistas do Paraná podem ter certeza de que a entidade será comandada por um grupo que vai defender os interesses dessa coletividade de forma presente e independente, sempre respeitando aquilo que é melhor para a categoria", diz Marcio Rodrigues, em declaração de apoio a chapa inscrita para a eleição.

Dentre os principais desafios elencados pelos candidatos à nova gestão está a inclusão de uma grande parcela de jornalistas distantes das condições previstas na Convenção Coletiva da categoria; como é o caso das assessorias públicas, políticas e privadas, freelancers, funcionários de pequenos veículos, entre outros. Dentre as lutas, destaque para a regulamentação da profissão e a obrigatoriedade do diploma.

Um diferencial da chapa inscrita é a presença de jornalistas do interior fazendo parte da direção estadual, além da pluralidade na composição, reunindo editores, repórteres, fotojornalistas e assessores de imprensa.

Na última semana, Guilherme Carvalho esteve fazendo um roteiro de visitas pelos municípios que elegerão suas regionais; ele passou por redações e assessorias em Foz do Iguaçu, Cascavel e Ponta Grossa. Na oportunidade, o jornalista falou com os colegas da profissão sobre a eleição, divulgando o material de campanha com as prioridades para gestão e a importância do jornalista estar sindicalizado para fortalecer sua entidade representativa.

Guilherme, que participou da gestão do Sindijor entre 2003 e 2006, destaca os avanços conquistados pela categoria nos últimos anos. "Esses avanços são resultado da organização dos jornalistas enquanto classe. Pretendemos dar continuidade ao que vem dando certo", diz.

Por outro lado, o candidato aponta que há muito ainda a avançar. "Para solucionarmos os sérios problemas que ainda existem, é preciso que os jornalistas se percebam como o próprio sindicato. Precisamos trazer para o sindicato aqueles jornalistas que estão dispersos, como os de assessorias, das redações menores, os recém-formados e também os estudantes. Nossas conquistas dependerão da nossa capacidade de participação", afirma.

A eleição do Sindicato dos Jornalistas do Paraná acontecerá durante os três dias, das 9 às 18 horas. Em Foz do Iguaçu haverá duas urnas: uma fixa e outra itinerante pelas redações. Em Cascavel, os votos serão coletados na segunda e terça-feira em redações e assessorias. A urna itinerante da regional ainda passará pelos municípios de Toledo e Marechal Cândido Rondon. Na quarta-feira, última dia da eleição, a urna estará fixa na Agência F 5 Fotografias, na Rua Paraná, 3498.

Estarão aptos a votar os jornalistas em dia com a contribuição sindical. Os profissionais que estiverem com suas contribuições em atraso poderão regularizar a situação para votar, conforme as orientações que serão repassadas pelo coordenador e mesário nos dias de votação.

Abaixo os componentes da chapa "Juntos Somos Mais Fortes"

Diretor-Presidente:
Guilherme Carvalho
Diretor-Executivo: Gustavo Henrique Vidal
Diretora-Financeira: Maigue Gueths
Diretor de Defesa Corporativa: Célio Martins
Diretor de Fiscalização do Exercício Profissional: Ivonaldo Alexandre
Diretor de Formação: Pedro Carrano
Diretor de Saúde e Previdência: Wilson Soler
Diretor de Imagem: Pedro Alexandre Serápio
Diretor de Ação e Cidadania: Ismael de Freitas
Diretora de Cultura: Mauren Lucrécia
Diretora-Administrativa de Assessoria de Comunicação: Ana Cecília Pontes de Souza
Diretor-Administrativo de Interior: Júlio César Carignano
Diretora-Administrativa de Professores e Estudantes: Cristiane Lebelem
Diretor-Administrativo de Esporte, Lazer e Eventos: Filipi Manoel Rodrigues de Oliveira
Diretor-Administrativo Institucional: Fernando César Borba de Oliveira 

Redação da RPC TV
Portal da CATVE

Redação da Gazeta do Paraná
Jornais Hoje/O Paraná
Entrevista à Rádio Globo
TV Tarobá

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Duas obras, um tema e o "manto de sombras"

Luiz Manfredini ministra palestra na Unioeste
A combinação música mais história é sinônimo de ótimos debates no meio acadêmico. Esse formato, idealizado na Unioeste (Universidade Estadual do Oeste do Paraná) pelo professor Alexandre Fiuza, trouxe um tema que está em evidência com a possibilidade da instalação da Comissão da Verdade, que apurará crimes cometidos pelo Estado brasileiro durante a ditadura civil-militar.

Esse debate foi enriquecido com a presença do jornalista e escritor Luiz Manfredini, que esteve nos últimos dias na região Oeste. Nascido em 1950, o curitibano foi personagem dessa história, sendo inclusive preso no período dos 'Anos de Chumbo'.

Em Foz, ele foi um dos convidados do Salão Internacional do Livro, enquanto em Cascavel ministrou a palestra 'Memória da neblina e as moças de Minas: história e ficção sobre a ditadura'. "É a primeira vez que faço uma palestra assim, é muito gostoso ouvir música de qualidade e não ficar aqui só discutindo", diz o jornalista sobre as apresentações dos músicos Ana Carolina Noffke, Sil Vaillões e Giovani Pinheiro, que abriram o debate.

Antes do evento, o 'camarada Manfra' - apelido oriundo dos tempos de militância política no grupo Ação Popular - teve uma prosa com o Sítio Coletivo, onde falou de seus livros mais conhecidos que dão nome à palestra. Falou ainda sobre sua expectativa para a instalação da Comissão da Verdade e a atuação da imprensa na sustentação do golpe de 64 e nos dias atuais. Abaixo trechos deste bate-papo.


[Sítio] 'Memória da neblina' e 'Moças de Minas'
[Manfredini]
Na literatura podemos ter dois olhares sobre o regime, aquele jornalístico, histórico e jurídico, e o olhar da ficção. Diferente da ciência, na ficção não se precisa provar nada, mas está baseado em fatos que podem ter ocorrido. Ela te faz avançar e toca na alma das pessoas, fazendo que elas pensem. O Moças de Minas, publicado em 1989 e reeditado em 2008, é um livro jornalístico, um caso conhecido envolvendo cinco moças que pertenciam a Ação Popular, grupo que militei nos anos 60, onde estudantes se integraram a operários e camponeses. Éramos um grupo diferente dos grupos de Mariguela e Lamarca, que eram organizações armadas. Entendíamos que mais a frente esse seria o caminho, mas naquele momento era impossível, a história mostrou isso, pois do outro lado tinha um exército enorme e fortalecido. Não dava para chegar sozinho, era preciso a participação do campo, das fabricas, enfim, o livro traz depoimentos dessas cinco jovens, pesquisas junto o Supremo Tribunal Militar e uma bibliografia da época vivida, entre os anos de 1968 a 1971, que coincidem com o AI-5 (Ato Inconstitucional número 5). A outra obra, Memória de Neblina, publicada no ano passado, é uma ficção atrelada à realidade vivida nos anos 60. São três cinquentões que se reúnem para falar daquele passado. Fala da dramaticidade de viver naquela época, mas como eles eram adolescentes nessa fase, também há espaço para as brincadeiras, algumas atitudes próprias da idade, como quando vão fazer pichações nos colégios com as palavras de ordem do tipo "Abaixo a ditadura" e poesias de Ferreira Gullar. Esse era um diálogo da época de se unir a poesia e política. Os dois livros dialogam entre si, que se relacionam na problemática, apesar de não serem continuações.

Ditadura e Comissão da Verdade
A ditadura está em evidência novamente no país, devido às circunstâncias políticas, pelo momento democrático que passamos, pela instituição da Comissão da Verdade, ainda que falte a indicação dos membros do governo. Apesar de não ter caráter de punição, acho que a comissão irá prosperar. Há um interesse grande da juventude nisso, prova disso foram ações em frente às residências dos torturadores. É algo que eu não esperava e isso está acontecendo porque a sociedade entende que o país não pode avançar diante de tantas sombras em seu passado, há essa ansiedade em desvendar esse 'manto de sombras'. Ainda que a comissão não puna, é preciso tirar a limpo essa situação.

Recuos na instalação
Os recuos são próprios da luta política, são resultado de uma correlação de forças, assim como foi a própria Lei da Anistia. A comissão não depende exclusivamente da Dilma, talvez essa demora do governo em indicar seus membros tenha causado esse desgaste todo. Precisamos lutar é por uma estrutura que seja ágil, uma comissão que separe o joio do trigo, que comprove o que foi verdade, o que foi mentira e que vale a pena investigar. A própria Lei da Anistia deverá ser questionada, pois sabemos que ela foi imparcial, pois o Estado foi auto-anistiado. O que se cometeu foram crimes de Estado, veja o caso da Argentina, eles agiram positivamente ao radicalizar e o hoje o Videla está na cadeia [Jorge Rafael Videla, ex-general argentino que admitiu os crimes da ditadura]. Basicamente, se a sociedade não se envolver, se não houver pressão social, a comissão não avançará.

A imprensa e o golpe
A mídia brasileira tem três grandes momentos que merecem ser citados. Um primeiro, em 1964, quando a imprensa participa da conspiração que instaura o golpe, assim como já havia participado da oposição a Getulio Vargas. A família Mesquita [proprietária do Grupo O Estado de São Paulo] cedeu veículos aos militares e inclusive comprou armas para se preparar para uma eventual revolta. Nessa mesma fase, os meios de comunicação participam da organização da 'Marcha da Familia, com Deus e pela Liberdade'. Somente um jornal na época, o Última Hora do Samuel Wainer fazia oposição a isso. Um segundo momento é entre 1971 a 1974, quando a mídia começa a se deslocar do golpe, é quando em 1976 começa a censura do regime ao Estadão, através das receitas de bolo e dos poemas de Camões. Eu inclusive trabalhei nessa época para o Estadão, trabalhei pro PIG [Partido da Imprensa Golpista] na época (risos). Nessa mesma fase fui preso quando estava no JB [Jornal do Brasil], que precisou contratar advogados para me soltar. Já o terceiro momento é a fase pós-Lula, onde temos uma oposição direta ao governo, com uma tentativa de golpe em 2006, onde a imprensa começa a agir com o papel político, de partido de oposição. O que a revista Veja faz, por exemplo, não é jornalismo, é criação de fatos políticos que hoje, com esse caso do escândalo do [Carlinhos] Cachoeira, estamos vivendo o auge.

Os jornalistas e o patronato

A mídia privada integra o poder econômico nacional, ela vende um produto que é a informação, mas qualquer informação precisa de um mínimo de credibilidade. Quando a mídia age como partido político, como 'partido do capital', perde essa credibilidade e vai se afastando cada vez mais dos princípios jornalísticos para defender interesse de seus donos. O mais dramático é quando os jornalistas entram nessa onda de achar que a imprensa deve ser intocável e jamais questionada. Todo mundo está sob regulação de seus conselhos, mas só a imprensa não pode ter um órgão regulador. É um absurdo quando os jornalistas assumem a posição do patronato. O Mino Carta [diretor da revista Carta Capital] costuma dizer que esse é aquele profissional que trata os Marinho como se fossem 'colegas' (sic).

Blogs e novas mídias
Isso é um grande dado, veja o caso do livro Privataria Tucana, do Amaury Ribeiro Junior, que sofreu um boicote dos grandes veículos de comunicação, ele estava vendendo igual pão quente em padaria, mas a Veja não o colocava naquele espaço dos mais vendidos, só foi fazer após a pressão de blogs e as redes sociais que começaram a pipocar isso. Esse dado novo vem pra furar esse bloqueio, hoje existem sites, portais, blogs que produzem jornalismo cidadão. Óbvio que é preciso selecionar, pois tem para tudo que é gosto na internet, desde pedofilia até cidadania. Acho que a internet tem alterado a forma de fazer política, está alterando as relações. O grande problema é que acabamos sofrendo da 'síndrome do excesso de informação'.

Caminho da esquerda
As experiências que começaram com a União Soviética acabaram se esgotando, elas tiveram consequências fantásticas para sociedade, mas tiveram erros e precisamos fazer essa leitura. Ela teve a dificuldade de não poder se basear em experiências anteriores, mas serviram para promover os ideais de uma sociedade menos individualista. No início dos anos 90, tivemos uma guinada para o neoliberalismo, que se opunha a isso. Talvez o grande equívoco do projeto socialista foi achar que só existia um modelo único. Existem princípios básicos, é simplismo pensar que tomado o poder, rapidamente o socialismo será implantado, isso traz problemas inclusive para o processo democrático, pois aqueles que não se enquadram são excluídos, promovendo desigualdades sociais. Apesar disso, vimos que o capitalismo não é a solução e que não há perspectiva para esse sistema que tem como objetivo o lucro máximo, o cada um por si.


*   Luiz Manfredini é jornalista e escritor em Curitiba. Trabalhou em O Estado do Paraná, TV Iguaçu, O Estado de S. Paulo, Jornal do Brasil e revista IstoÉ, entre outros órgãos de imprensa. É colunista do portal Vermelho, membro do Conselho Editorial da revista Princípios, editada em São Paulo, e coordenador da Fundação Mauricio Grabois.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Sítio Coletivo: um ano de luta!

Há exatamente um ano, a porteira deste sítio foi aberta. Ele foi criado de forma despretensiosa, especialmente por manter minha ânsia pela escrita mesmo distante das geladas e lineares redações tradicionais. Despretensões a parte, a intenção do Sítio Coletivo sempre foi se pautar pelos preceitos da liberdade de expressão, da função social do jornalismo e do contraponto de discursos homogêneos que acabam se tornando hegemônicos.

Esse espaço foi concebido na mesma data em que se comemora o 'Dia Mundial da Liberdade de Imprensa', um debate que sempre esteve presente por aqui. Nunca questionei a se há liberdade da imprensa, pois acredito que ela é plena, inclusive a liberdade de mentir, omitir, manipular, criminalizar e agredir. Porém, a pulga que fica é: "pode haver liberdade de imprensa sem liberdade de expressão?"

Não se discute liberdade de imprensa sem tocar em questões como 'libertinagem de empresa', sem discutir monopólio midiático, propriedade cruzada dos meios de comunicação e a ausência de um marco regulatório da mídia. Sem tocar em pontos como: quem pode ter um meio de comunicação? Quem pode escrever nele? Quem consegue concessões de rádio e TV? Quais segmentos sociais são representados nos espaços midiáticos? 

Há 12 meses decidi aderir a 'blogosfera', esse fenômeno que tem possibilitado a expansão de uma nova forma de fazer jornalismo - que apesar de não ser profissional - tem aberto um caminho importante para a construção de cidadania e de democratização dos meios de comunicação e da liberdade de expressão.

A internet avança, mesmo sem o Plano Nacional de Banda Larga em prática, e os blogs começam a se firmar como fontes de informação. Se a informação é um bem coletivo, todo cidadão tem direito a informar e ser informado. É assim que a comunicação deixa de ser vertical para ser horizontal e, diante disso, esse sítio sempre teve a pretensão de ser um espaço 'coletivizante' e 'colaborativo'.

Desde a primeira postagem, sempre fiz questão de deixar claro que esse espaço tem um lado e o assume sem vergonha alguma. Talvez esteja aí a grande diferença entre a blogosfera e os veículos tradicionais. Não acredito em neutralidade em qualquer setor da vida, assim como não acredito em 'centrismo' e afins, motivo que neste espaço nunca foram 'vendidas' fantasias como da imparcialidade; mentira propagada pelos meios de comunicação desde o primeiro jornal publicado no país, sob a direção editorial de Dom Pedro.

Neste primeiro ano de luta, algumas postagens merecem uma menção especial: a cobertura do 1º Encontro Mundial de Blogueiros, em Foz do Iguaçu, oportunidade que pude conhecer e bater um papo com o cartunista e ativista Carlos Latuff; a entrevista com professor Nildo Ouriques, que dirige o IELA (Instituto de Estudos Latino-Americanos); a história do artista de rua Fillipe Monteiro, que tem o sonho de conhecer Eduardo Galeano; a visita da jornalista estadunidense Lynette Wilson ao MST em Cascavel; além das postagens relacionadas ao midialivrismo, a comunicação popular, cultura, povos indígenas e movimentos sociais.

Ao completar um ano, o Sítio Coletivo reafirma seu compromisso com uma informação horizontal e plural, pois somente assim chegaremos a uma comunicação verdadeiramente democrática. Esse espaço acredita na função social do jornalismo e da informação, função que é constantemente relegada em favorecimento aos interesses de patrocinadores, financiadores, interesses comerciais e dos donos dos meios de comunicação.

Esse é um sítio sem cercanias, uma terra comunal e de pouca extensão, de produção saudável, livre dos 'agrotóxicos' e dos 'agentes laranjas' da velha mídia, mas como pitadas de veneno subversivo e transgressor. Durante a semana, um camarada me lembrou de uma frase de George Orwell que dizia que "jornalismo é publicar algo que alguém não quer que seja publicado (...)".  Tecnicamente, o Sítio Coletivo não tem a pretensão de produzir o 'jornalismo', mas entende que ele não pode ser uma mera peça da engrenagem de realimentação do sistema e seus discursos, deve ser uma atividade, acima de tudo, 'áspera e verdadeira'.



segunda-feira, 30 de abril de 2012

1º de Maio: comida, diversão e contra-informação

Ilustração: os mártires de Chicago
Historicamente, a classe patronal usa de artimanhas para alcançar objetivos e para que o trabalhador esqueça a verdadeira origem e sentido do 1º de Maio, atraindo a classe trabalhadora com seu velho 'pão e circo'. Primeiro dia do mês, dia do trabalhador e o que vem na cabeça de muitos: feriado, festas, bingos, premiações, shows de pagode ou de dupla 'sertaneja universitária', costelão e até corte de cabelo na 'faixa', tudo isso oferecido 'generosamente' por empresas e empregadores.

Mascarando o verdadeiro sentido desta data de luta, o 'festerê' promovido no feriadão serve para que o empregado - transformado hoje em 'colaborador' - esqueça os demais 364 dias do ano e abandone ideais de que é a partir da luta dos trabalhadores que se fazem as mudanças estruturais de uma sociedade.

Empresários conseguiram transformar o 1º de Maio em espetáculos das multidões atrás de prêmios, comida e diversão. Porém não podemos responsabilizar somente a classe patronal pela deturpação do sentido da data, somam-se a ela, igreja e até centrais sindicais, que há muito tempo usam dessa prática de shows com sorteios de prêmios, em atos patrocinados por grandes marcas, atendendo assim interesses classistas, prestando um serviço à classe patronal e um desserviço a classe trabalhadora.

Para dar voz ao tripé (patrões, clero e sindicalismo pelego) está a comunicação de massa, a de produção de pensamento hegemônico. Com o perdão das exceções (cada vez mais raras), a cobertura dos meios de comunicação tradicionais sobre o 1º de Maio ao mesmo tempo em que é deprimente - com suas pautas repetitivas - é também perigosa ao contribuir com esse cenário de alienação e falta de aprofundamento sobre seu real significado, ao ponto de ouvirmos a utilização de 'dia do trabalho', uma nomenclatura que para alguns pode parecer insignificante, mas que carrega um simbolismo ao valorizar o trabalho em si, como a velha ladainha do 'ato que dignifica', mas que não valoriza aquele que produz a riqueza.

Diante disso, vale destacar a importância histórica da imprensa alternativa, da comunicação sindical compromissada com a classe trabalhadora, e hoje - em épocas de era digital - as novas mídias, no papel de fazer o resgate do verdadeiro sentido do 1º de Maio como um dia de luta, uma data para reafirmação de reivindicações, defesa daquilo que já foi conquistado, reforçando a união dos trabalhadores enquanto classe que luta para acabar com toda forma de exploração e opressão.

Uma data para relembrarmos os milhares de trabalhadores que lutaram para que hoje pudéssemos ter uma série de conquistas como carteira assinada, salário mínimo, licença maternidade, direito ao voto, dentre tantos outros.

A contra-informação

Assim como a comunicação hegemônica deforma, a comunicação alternativa forma. Nesse sentido, a imprensa alternativa sempre teve um grande papel ao mostrar o 1º de Maio dos trabalhadores e ser uma porta-voz ao serviço da classe. Tudo inicia com a imprensa anarquista do começo do século XX com publicações e jornais operários como: O Operário (Recife), O Socialista (Salvador), A Luta (Porto Alegre), O Proletário (Juiz de Fora), Primo Maggio (São Paulo) e, talvez o principal deles, A Plebe (São Paulo), dirigido pelo jornalista Edgard Leuenroth.
João Ferrador

Já nos anos de 1980, a imprensa sindical começa a ganhar força e dar voz ao grito dos trabalhadores. Sindicatos lançam jornais, boletins, folders e criam símbolos, como o personagem João Ferrador, que ilustrou as publicações diárias do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, durante a histórica greve de 1980.

Infelizmente, nos dias atuais, grande parte dos sindicatos tem se focado apenas nas pautas imediatas e corporativas (de cada categoria) com suas reivindicações do dia a dia (salários, condições de vida de trabalho e jornada), deixando de lado a luta histórica do trabalhador e suas pautas comuns, sendo a principal delas, a luta contra o grande capital que explora o homem sobre o homem.   

Um dos grandes estudiosos do 1º de Maio, o escritor Vito Gianotti, do NPC (Núcleo Piratininga de Comunicação), costuma dizer que "a comunicação é um instrumento do convencimento, que junto à força da organização e luta é componente essencial para a disputa de hegemonia". Então, se hegemonia é convencimento e força, a comunicação sindical, a imprensa alternativa e o fenômeno das novas mídias tem um potencial enorme pela frente.

Histórico

O Dia do Trabalhador nasceu em 1889, de uma iniciativa dos trabalhadores organizados na AIT (Associação Internacional dos Trabalhadores) de declarar um dia de luta pelas 8 horas diárias de trabalho e em homenagem aos mártires que morreram durante a greve geral de 1º de maio de 1886, em Chicago. Na ocasião, os grevistas de Chicago foram duramente reprimidos pela polícia, tendo os seus principais líderes – sindicalistas anarquistas – condenados à forca.

Ao longo dos anos, o dia 1º de Maio ficou, então, marcado como um dia para homenagear as lutas dos trabalhadores e das trabalhadoras por melhores condições de vida e de trabalho, sendo comemorado no mundo inteiro por sindicatos, associações de trabalhadores, militantes e trabalhadores do campo e das cidades.

Abaixo algumas capas de publicações históricas com menção ao 1º de Maio e a luta dos trabalhadores.

Jornal da COB (Confederação Operária Brasileira) do 1º de maio de 1913. Capa traz ilustração que traduz o ideal da central: um operário de marreta na mão sobre as caveiras do "capitalismo, clero, burguesia e militarismo".
Edição de 1918 do jornal O Cosmopolita, do Sindicato dos Trabalhadores em Hotéis do Rio,
conta a tragédia do 1º de maio de 1886 em Chicago
Em 1906, em Paris, é lançado o jornal satírico O Prato à Manteiga, com ilustração alusiva ao 1º de maio:
8 horas de trabalho, 8 horas de lazer, 8 horas de repouso, é o tema da capa

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Revolução dos Cravos é tema de palestra-espetáculo

Nesta quarta-feira, dia 25 de abril de 2012, completam-se 38 anos da 'Revolução dos Cravos', movimento que ocorreu em Portugal no ano de 1974. Comandada por jovens militares de baixa patente, muitos inspirados em ideais democráticos e socialistas, essa revolução derrubou a ditadura fascista do 'Estado Novo', inaugurada por Oliveira Salazar em 1933 e que teve sequência com Marcelo Caetano.

Esse período histórico dos 'patrícios' será tema da palestra e espetáculo musical "38 anos da Revolução dos Cravos em Portugal: 25 de abril sempre!", nesta quarta-feira (25), a partir das 19h30 no auditório da Unioeste (Universidade Estadual do Oeste do Paraná). O palestrante será o professor Alexandre Fiuza, doutor em História Contemporânea.

Assim como na palestra "O Golpe de 64 e os Golpes Contra a Memória", realizada no dia 30 de março, sobre o golpe que instaurou uma ditadura civil-militar no Brasil, o professor Alexandre terá a companhia do quarteto de músicos: Ana Carolina Noffke, Cristini Colleoni, Giovani Pinheiro e Sil Vaillões, além de Leo Mariani e Ricardo Denchuski.

Primavera libertária

O nome da revolução portuguesa é inspirado na atitude da juventude portuguesa, que colocava cravos e flores nos fuzis dos soldados em comemoração a restauração da primavera democrática, libertária e anti-colonialista no país.

Esse acontecimento é tema do filme 'Capitães de Abril' e inspirou várias canções. Podemos esperar no espetáculo na Unioeste clássicos como 'Grandola, Vila Morena', do compositor português Zeca Afonso. Abaixo outra canção inspirada na Revolução dos Cravos; 'Tanto Mar' de Chico Buarque de Hollanda.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Em memória de Carajás, em defesa da reforma agrária

Ato em frente ao assentamento Valmir Mota, em Cascavel
Covas com palmos medidas, partes que nos cabe nos latifúndios dos confins de terras tão divididas. Parafraseando versos 'cabralistas' de Melo Neto, que embalados pela voz inconfundível de Chico Buarque de Hollanda, são o retrato do segundo país que mais concentra terras nas mãos de poucos no mundo. Uma nação onde a reforma agrária ainda não tem espaço, onde a luta dos trabalhadores é criminalizada e onde os crimes de violência no campo seguem impunes.

Aliados à impunidade estão os retrocessos da reforma agrária no Brasil, motivados pela escolha prioritária do Estado por um modelo 'desenvolvimentista' que se torna cada vez mais excludente. Diante disso, anualmente o MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra) realiza sua Jornada de Lutas, conhecida como 'Abril Vermelho'. As manifestações culminam com o Dia Nacional de Luta pela Reforma Agrária, em 17 de abril, data escolhida em memória às vítimas do massacre ocorrido em 1996 em Eldorado de Carajás, no Pará.

Os 16 anos desta chacina foram lembrados nesta terça-feira (17/04) em atos por todo o país. No Paraná, não foi diferente e, no Oeste do Estado, integrantes do MST realizaram um manifestação em frente ao assentamento Valmir Mota, nome dado em homenagem ao sem-terra morto na antiga estação da multinacional Syngenta. Tragédia que abateu os dois lados, visto que também vitimou um segurança-miliciano, porém um crime que só aconteceu em virtude da formação de milícias armadas ligadas a setores ruralistas da região e onde o mandante ainda não foi punido.

Famílias do assentamento Valmir Mota e dos acampamentos 1º de Agosto e 7 de Setembro bloquearam a rodovia BR-277, em Cascavel, por 21 minutos, em alusão aos 21 mortos em Eldorado de Carajás. Em meio à rodovia e sob coordenação da professora do assentamento, Lucimar Ramires, os 'sem-terrinhas', crianças e adolescentes do movimento, realizaram uma encenação teatral para relembrar o fato ocorrido há 16 anos.

  
Além de homenagearem os companheiros mortos na operação policial, os sem-terra fizeram alertas para o retrocesso da reforma agrária no Brasil, com a diminuição de políticas de desapropriações de terras, além dos cortes previstos no orçamento da União para 2012, tanto do Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) quanto do MDA (Ministério do Desenvolvimento Agrário). São verbas cortadas que seriam destinadas à instalação de assentamentos, desenvolvimento da agricultura familiar e para a educação do campo.

A tendência, segundos os integrantes do MST, é que se repita números parecidos com o primeiro ano do Governo Dilma Rousseff - o pior em termos de criação de assentamentos dos últimos 16 anos - onde apenas 7 mil famílias foram assentadas. A preocupação é tanta que o setor poderá chegar em alguns casos a patamares parecidos aos tempos do Governo Fernando Henrique Cardoso, segundo levantamento feito pela própria assessoria técnica da liderança do PT na Câmara de Deputados.

Paraná

No Paraná, os trabalhadores sem-terra cobram no 'Abril Vermelho': assistência técnica para as famílias assentadas e infraestrutura para os assentamentos; como crédito, habitação e renegociação de dívidas, além da construção de escolas nas áreas de reforma agrária, e acesso à cultura. Somente no Estado, são cerca de 25 mil famílias sem terra, em aproximadamente 350 assentamentos e 70 acampamentos.

Em recente visita ao acampamento 7 de Setembro, no distrito de São João, o superintendente regional do Incra, Nilton Bezerra, informou que existem 72 áreas com reintegração de posse no Paraná, sendo 51 delas em processo de negociação por parte do órgão.Vale destacar que o Incra também está, segundo Bezerra, fazendo um monitoramento de terras que foram alvos de grilagem no Paraná - a raiz de grande parte da concentração fundiária no Estado. "As pessoas não fazem ideia do tanto de áreas griladas que existem no Paraná, áreas 'esquentadas' em cartório", disse na oportunidade.

Histórico

É preciso contextualizar Eldorado de Carajás após os 16 anos. Ao todo, 21 sem-terra foram mortos na operação policial, os sobreviventes do massacre ainda têm dúvidas do número oficial de mortos divulgados pelo Estado, pois há crianças, homens e mulheres desaparecidos que não estão na lista dos mortos e também não foram encontrados depois.

Dois meses após a operação policial, uma ação coletiva teve início na Justiça. O processo é considerado o maior da história criminal brasileira em número de réus, no total são 155 policiais. Em 2002, saiu a decisão da Justiça: dos 155 acusados, 142 foram absolvidos, 11 acabaram sendo retirados do processo e apenas dois condenados. Apesar da repercussão internacional, ninguém foi preso.

Grande parte da mídia ainda se refere ao massacre como um 'confronto', fora os meios que ignoram totalmente o caso. Diante disso, vale lembrar citação do médico legista Nelson Massini, no volume n.º 20 do Processo de Eldorado: "De um lado, havia um grupo fortemente armado; de outro, um grupo que também poderia estar armado, mas há desproporção muito grande entre aquelas forças policiais e trabalhadores, de tal maneira que essa situação de desproporção levou a esse massacre. Tanto é verdadeiro que não precisa ser uma conclusão médico-legal. Poder-se-ia dizer uma conclusão leiga, mas que mostra essa desproporção. Se de um lado morreram 19 [no local], do outro não morreu ninguém, há, só por isso massacre."

AVISO AOS SITIANTES: Esse blog abordou o Abril Vermelho sob outro prisma, sem dar destaque para congestionamento na rodovia, quando o assunto em pauta é reforma agrária e 16 anos de um massacre de repercussão internacional. Também não há espaço para frases como: "(...) período do Abril Vermelho, quando constantemente promovem agitos", além de não nos referirmos a uma professora da Educação do Campo como 'porta-voz do movimento'.

sábado, 14 de abril de 2012

MST realizará ato em memória de Eldorado dos Carajás

Eldorado dos Carajás (Paulo Araújo/Folha Imagem)
Ao longo do mês de abril várias mobilizações são realizadas por trabalhadores do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra). A programação faz parte do 'Abril Vermelho', atos em prol da reforma agrária no País. Em abril, os integrantes dos movimentos sociais de luta pela terra também realizam manifestações em memória ao Massacre de Eldorado dos Carajás, a chacina no Pará onde foram assassinados 21 sem-terra em 17 de abril de 1996.

Os sobreviventes daquele massacre ainda têm dúvidas do número oficial de mortos divulgados pelo Estado, pois há crianças, homens e mulheres desaparecidos que não estão na lista dos mortos e também não foram encontrados depois. Dois meses após a operação policial, uma ação coletiva teve início na Justiça. O processo é considerado o maior da história criminal brasileira em número de réus, no total são 155 policiais. Em 2002, saiu a decisão da Justiça: dos 155 acusados, 142 foram absolvidos, 11 acabaram sendo retirados do processo e apenas dois condenados. A partir de então o 17 de abril tornou-se oficialmente o Dia Nacional de Luta pela Reforma Agrária.

Em Cascavel, integrantes do MST farão na próxima terça-feira (17/04) - data onde serão completados 16 anos do Massacre de Eldorado - uma manifestação em frente ao assentamento Valmir Mota, na rodovia BR-277, a partir das 8h. O ato envolverá trabalhadores camponeses e os 'sem-terrinha', crianças dos acampamentos e assentamentos. O nome do assentamento onde acontecerá o ato é uma homenagem ao militante 'Keno', morto há cinco anos em confronto com seguranças-milicianos na antiga estação da multinacional Syngenta, em Santa Tereza do Oeste.

Além dessa manifestação, trabalhadores sem-terra da região Oeste irão à Brasília para outras atividades alusivas ao Abril Vermelho. Em Curitiba, segundo informações da assessoria de comunicação do MST, militantes farão nesta segunda-feira (16/04) uma marcha até a Superintendência Regional do Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária do Paraná) para fazer a entrega de uma pauta de reivindicações.

A mobilização tem por objetivo cobrar tanto do governo federal quanto do estadual a realização da reforma agrária, que se encontra paralisada no país, sendo que somente no Paraná cerca de seis mil famílias permanecem acampadas, em situação precária, vivendo em beiras de estradas e em áreas ocupadas, e que muitas vezes são vítimas da violência do latifúndio e do agronegócio.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

A democratização não será televisionada


Nessa semana completam-se 10 anos do golpe de Estado que durou aproximadamente 48 horas na Venezuela. No dia 11 de abril de 2002, a direita venezuelana desencadeou uma ação contra o presidente eleito Hugo Chávez. Uma década depois, no momento em que setores progressistas, movimentos sociais e militantes da comunicação levantam bandeiras pela democratização e por um marco regulatório para as comunicações é importante lembrar do fato, independente de posições ideológicas, de chavistas ou anti-chavistas.

A partir dessa ação - que ficou conhecida como um golpe midiático - é que iniciou-se no país de Bolívar, o "Libertador das Américas", as discussões sobre um marco regulatório dos meios de comunicação, modelo que muitos ativistas, jornalistas e blogueiros puderam conhecer detalhes no 1º Encontro Mundial de Blogueiros, ocorrido no fim do ano passado em Foz do Iguaçu, que contou com a explanação do ex-ministro de Comunicações da Venezuela, Jesse Chacón.

Vale lembrar que o golpe ocorrido 10 anos atrás foi protagonizado por vários setores da elite venezuelana, mas foi liderado por grandes grupos midiáticos, especialmente a Globo Vision e a Venevision. Os detalhes sobre esse golpe fracassado podem ser vistos no documentário: 'A Revolução não será Televisionada'. Lançado em 2003, ele foi dirigido pelos irlandenses Kim Bartley e Donnacha O’ Brian. O título é inspirado no poema de mesmo nome do poeta estadunidense Gil Scott-Heron (que também vale como sugestão).

O documentário mostra a derrocada de uma ação que teve como "mentora intelectual", a grande imprensa venezuelana, que assim como a nossa terra tupiniquim tem por costume cuspir juízos de valores e se auto-intitular a "verdadeira dona da verdade absoluta" (como se realmente existisse alguma).

A curiosidade da obra é que os dois irlandeses "pegaram" por acaso a tentativa de golpe. Eles estavam na Venezuela desde setembro de 2001 com a intenção de documentar o governo bolivariano e o "homem por trás da revolução" (basicamente o cotidiano de Hugo Chávez), porém acabaram sendo surpreendidos pelos momentos que desencadearam o golpe.

A dupla conseguiu captar imagens geniais como a cena das elites comemorando e deliciando-se com champagne no interior do Palácio Miraflores após o golpe, a detenção ilegal do então presidente da República e a posse como "presidente interino" do empresário-militar Pedro Carmona, líder da oposição. Na festa palaciana, destaque para setores conservadores da igreja, exército, donos de meios de comunicação, além de belas mulheres ostentando suas jóias e peles.

Outra cena pitoresca do documentário é o momento em que donas de casa da classe média venezuelana são "orientadas" a iniciarem uma espécie de monitoramento de suas empregadas domésticas, as quais segundo os golpistas, seriam aquelas que iniciariam a revolução "trocando panelas e vassouras por armas de grosso calibre e passariam a sequestrar suas patroas".

Ao longo do filme é exposto o massacre dos cinco canais de televisão privada (com destaque para os dois já citados acima), uma verdadeira cruzada midiática - coberta por fraudes, edições de imagens, manipulações de acontecimentos e deturpação de opiniões - e desmascaradas posteriormente pelos próprios profissionais das emissoras.

Na ocasião da tentativa de golpe, o jornalista Maurice Lemoine, do Le Monde Diplomatique, afirmou que "nunca, mesmo na história latino-americana, a imprensa esteve envolvida tão diretamente em um golpe [de estado]". Aproveitando que no início do mês também comemorou-se o 'Dia do Jornalista', o documentário é uma ótima pedida, especialmente aos que militam por uma comunicação cidadã que, além de informar, deve formar e transformar.

Gil Scott-Heron, falecido em maio do ano passado, pregava: "A revolução não será televisionada, não será trazida pelo seu teatro favorito, não terá aquela atriz bonitinha no papel principal (...)". E na conclusão, apresenta a fórmula: "Será luz, câmera e ação. Tudo ao vivo, nada de cortes ou edições". Assim deverá ser a revolução que trará a verdadeira democratização da comunicação. Assim esperamos.

Abaixo o documentário 'A Revolução não será televisionada', dos irlandenses Kim Bartley e Donnacha O’ Brian


quinta-feira, 5 de abril de 2012

Quando 'neofascistas' criam verdades e vilões

Com sucessivas vitórias no Congresso, a bancada ruralista vem conseguindo alterar legislações em prol de especuladores de terra, grileiros e grandes latifundiários do agronegócio brasileiro. Os últimos golpes desse setor - que apesar de travestido na figura do desenvolvimento representa o que há de mais atrasado no Congresso - têm deixado marcas profundas que podem significar nova tensão no campo brasileiro.

Recentemente, os ruralistas do parlamento conseguiram a aprovação da PEC 215/2000, que visa transferir da União para o Congresso a prerrogativa de demarcar e homologar terras indígenas e quilombolas. Uma outra PEC, de número 038/1999, também tramita na Casa de Leis. Ambas as propostas tem o mesmo conteúdo e poderão significar uma 'nova invasão colonial' em terras tradicionais. 


Após aprovada, a PEC 215 motivou entusiasmo de alguns deputados que foram à público comemorar um eventual massacre dos 'povos de nossas florestas'. Verdadeiras pérolas foram disparadas, que nos remeteram a outras épocas, quando homens públicos falavam abertamente sobre 'limpezas étnicas'. 

O Congresso está repleto de parlamentares que obtiveram sucesso por meio de seus financiadores de campanha, dentre eles, empresas multinacionais do agronegócio, de maquinários agrícolas, insumos e agrotóxicos. Traduzindo em miúdos, a intenção da PEC é repassar para a raposa a vigia do galinheiro.

Ao ressuscitarem a PEC, os deputados pretendem rasgar a Constituição e descumprir acordos nacionais e internacionais. A proposta é antiga, foi apresentada há 12 anos pelo então deputado Almir Sá, do extinto PPB, hoje o 'progressista' PP. Já o relator é o paranaense Osmar Serraglio, peemedebista e, obviamente, outro ruralista.
 


Entre os que votaram a favor na CCJ, o 'democrata' Abelardo Lupion e entre os grandes defensores, outro paranaense: Nelson Padovani, de base eleitoral no Oeste do Estado. Esse último concedeu recente entrevista à CBN Cascavel, onde mostrou total desconhecimento sobre a temática indígena. Nela, o parlamentar soltou verdadeiras pérolas no quesito 'antropologia'. Ao tentar justificar a redução de terras aos povos indígenas, Padovani disparou: "os índios representam 0,43% de nossa população, eles não chegam a nem meio por cento".

Essa declaração me fez lembrar recente artigo publicado pelo jornalista e Doutor em História, José Ribamar Bessa Freire, que ao escrever sobre a aprovação da PEC lembrou de discurso da sessão magna das comemorações do 4º Centenário do Descobrimento do Brasil, onde o engenheiro Paulo de Frontin, empossado depois como prefeito do Rio de Janeiro, disparou: "Os selvícolas (...), não são nem podem ser considerados parte integrante da nossa nacionalidade; a esta cabe assimilá-los e, não o conseguindo, eliminá-los".


Voltando ao Padovani, ele ainda fez acusações graves, alegando que os indígenas - acobertados por órgãos como a FUNAI - estariam enterrando cadáveres de seus próprios com o intuito de tentar comprovar cemitérios de terras tradicionais. Quanto às provas, o deputado resumiu-se a dizer que "o índio quando toma cachaça conta a verdade", demonstrando preconceito e sendo extremante infeliz ao tratar do problema do alcoolismo.

A 'aula' do parlamentar sobre os indígenas durou pouco, mas terminou com chave de ouro: "É quilombola, é índio, é sem-terra, o trabalhador brasileiro já não agüenta mais (...)", esbravejou nas ondas da rádio, o representante do Partido Cristão. As declarações do político e empresário do setor de maquinários agrícolas expressam a opinião de setores elitistas da sociedade que demonstram desconhecimento, ignorância e má-fé quando o tema são os povos tradicionais.

Não raro ouvirmos que é "inconveniente os índios terem tanta terra", afinal, para esses conhecedores da causa, esses povos representam "atraso à nossa pujante economia". Querem relegar aos indígenas, camponeses, quilombolas e ribeirinhos, pequenas e cercadas porções de terras, afinal, "eles não contribuem para riqueza do país produzindo para exportação (sic)".


Confesso que me repugna ouvir declarações tão rasas de um homem público e entristece ver esses juízos de valores reproduzidos por setores de nossa sociedade, porém elas dão margem para povos indígenas e camponeses fazerem o seguinte questionamento: "é justo o homem branco ter tanta terra (ou lote) para fazer especulação?"


Para quem não acompanhou a entrevista citada no texto acima. 'Deliciem-se' com o link.
 

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Arquétipos e a 'sina' dos artistas populares

Solange e Miguel encenam 'A Princesa e o Pirata'
A sina de artistas que escolhem viver da cultural marginal e contra-hegemônica é de nadar contra a maré. Uma escolha que grande parte das vezes é forçada pela falta da contrapartida do poder público. Há anos essa 'sina' de lutar contra a corrente acompanha o casal Miguel Joaquim das Neves e Solange Esequiel. Eles desenvolvem projetos ligados ao teatro, musicalização e cultura popular em bairros da periferia de Cascavel.

Atores profissionais, Miguel e Solange driblam as dificuldades para manter projetos que não contam com um único 'centavo oficial'. Nos últimos meses eles têm levado alegria às crianças com o espetáculo teatral 'A Princesa e o Pirata'. As apresentações vêm acontecendo – especialmente – em pastorais e associações comunitárias.

A última delas aconteceu no último fim de semana no bairro Floresta, região onde a dupla há pouco tempo desenvolvia o 'Ensinar', projeto que precisou de uma pausa. Cerca de 60 crianças faziam parte do projeto que tinha como principal objetivo promover cidadania e descentralizar a produção cultural na cidade. A intenção de Miguel e Solange é retomar o projeto o quanto antes.

O Ensinar contava com oficinas de violão e aulas de teatro com as crianças dos bairros Floresta e Sanga Funda. Era uma proposta que não visava lucro, mas que necessita de maior apoio e patrocínios. No fim de 2010, oportunidade que esse blogueiro teve um longo papo com o artista, ele já projetava as dificuldades em seguir com o projeto. "é uma semente que eu e a Solange queremos plantar. Amanhã se alguém me disser que quer assumir o projeto, trazer professores para cá, para mim está ótimo. O interesse não é que o projeto seja meu", falou na oportunidade.

A 'centralização' e burocratização da cultura dificulta o trabalho de artistas que precisam (sobre)viver sem o apoio oficial. Um trabalho – que segundo palavras do próprio Miguel – acaba sendo 'pancada'. "Costumo dizer que Cascavel é uma faculdade de artes cênicas, se você conseguir sobreviver quatro, cinco anos dela fazendo cultura, você consegue dar aula no Golfo, no Iraque, até na Faixa de Gaza", brinca o artista, que ironiza. "O Anchieta conseguiu catequizar os índios pelo teatro, mas aqui nós não conseguimos fazer isso com o cascavelense".

A dificuldade financeira também faz com que o casal perca oportunidades de levar sua arte para locais mais distantes. "Fomos convidados para participar do Festival de Teatro em Curitiba, mas não tivemos condições de ir", confessa Miguel. O casal levaria à capital do Estado a peça 'Sombras de um Passado'.

Sobrevivendo de festas infantis e de peças vinculadas a instituições, Miguel e Solange seguem enfrentando as barreiras da desvinculação do apoio oficial. Eles seguem sua 'sina' – palavra que também dá nome a um livro editado pelo poeta Miguel Joaquim das Neves, que junto com sua companheira Solange, se entregam de carne e osso à representação do ideal marginal da cultura popular, aquela de caráter transgressor e que se constitui em ferramenta de reflexão.