domingo, 3 de fevereiro de 2013

"Flashblack": O show, soberania e o ex-general

Oviedo em Cascavel em 2009
Estava quase convencido a não postar sobre o tema, confesso que esses shows para gringo ver não me atraem em nada e a cobertura que a mídia corporativa faz já é mais do que suficiente, porém algumas lembranças me fizeram acabar dando um "pitaco" e ter um flashback.

Não vou discutir modelo agrícola, da opção pela agricultura familiar voltada a produção orgânica ou pelas monoculturas dos agrotóxicos e das commodities. Não sou camponês e esse sim tem mais propriedade (não posse) para isso. Até porque, em minhas andanças pela imprensa comercial, fui colocar esse debate em pauta em uma entrevista com o presidente "vitalício" da cooperativa e a resposta não foi das mais "educadas".

Não lembro em quantas vezes precisei fazer a cobertura política do show. O simples fato de  uma feira de "agrobusiness" ter uma cobertura política já é um caso à parte, afinal, alguns "figurões" sempre fazem do evento seu próprio "showzinho" particular, principalmente quando a feira coincide com anos eleitorais.

Nesse clima, "autoridades estabelecidas" desembarcam no velho oeste e desfilam pelas ruas internas do parque como se fosse uma passarela eleitoral, escoltados por rol de "aspones", outras "otoridades" não tão estabelecidas ainda e uma comissão de frente capitaneada por um fiel "relações públicas".

Os figurões criam um clima de cordialidade mútua, apertos de mãos, tapinhas nas costas e sorrisos amarelos. Puxa-sacos de plantão, figurões locais e parte da imprensa ajudam no cenário com a massagem no ego dessas figurinhas carimbadas.

Em uma dessas oportunidades - em 2009 - estava entre os figurões o ex-general paraguaio Lino Oviedo, muito bem quisto no evento devido à amizade com grandes produtores rurais da região. Lembro que enquanto alguns lhe perguntavam sobre a "magnitude da feira", resolvi questioná-lo sobre a luta agrária no Paraguai e a questão dos brasiguaios - que não é de hoje e nem da última década, mas que teve início no final dos anos 70.

A conversa com Oviedo me veio à lembrança neste domingo ao saber da morte do ex-general. Lembro dele culpando Lugo pela situação na fronteira, lembro dele exaltando a produção dos "sojeiros", mas em nenhum momento fez uma contextualização histórica ao ser indagado. O foco de Oviedo se assemelhou em muito ao enfatizado por grande parte da imprensa tupiniquim.

Todos sabemos que a luta pela terra no Paraguai tem se acentuado com as ocupações feitas pelos "carperos", cerca de 18 mil camponeses que não possuem terras em seu próprio país, mas que não tem o mesmo espaço editorial na nação ocupada em grande parte por latifúndios de brasileiros, que tiveram uma "mãozinha" na aquisição dessas propriedades.

A lógica agrária no Paraguai sempre esteve diretamente ligada aos partidos tradicionais do país, que instauraram durante décadas um poder ditatorial no campo. Os poderes militares e autoritários que dominaram o país até a eleição de Lugo promoveram por décadas, na base da repressão e dos benefícios concedidos a setores e funcionários do Estado, uma política agrária nacional conhecida como de "bem-estar rural", onde os beneficiados foram latifundiários e a burocracia político-militar.

Enquanto a propaganda midiática vende o "desenvolvimento" e a "modernização do campo", o que se tem visto é que os latifundiários sojeiros não estão preocupados em enriquecer a economia paraguaia, pelo contrário, tem provocado empobrecimento do solo, redução da quantidade de terra para o plantio de alimentos, encarecendo os preços dos produtos agrícolas. Essa é a lógica da agricultura de monocultura extensiva das commodities.

Entender a situação agrária no Paraguai passa por lembrar que na década de 70, o governo militar de Alfredo Stroessner passou a entregar praticamente de graça as terras de seu país aos latifundiários brasileiros. Até 1967, existia por lá uma lei que proibia a compra de terras por estrangeiros na faixa de 150 km de suas fronteiras. Com a abolição da lei, houve uma migração em massa de brasileiros para o Paraguai, inclusive da região Oeste e Sudoeste do Paraná. A partir daí, o Paraguai passou a ter a soja como principal base de sustentação e sua principal pauta de exportação, tornando-se refém de grandes multinacionais.

Tratar o tema do campo no viés do clima do medo e do "estado de exceção" cheira a orquestração, é colocar trabalhador contra trabalhador, pois apesar de poucos noticiarem muitos desses brasiguaios são trabalhadores que foram trabalhar em grandes fazendas de grileiros brasileiros, ou seja, também são sem-terras que precisam ser assentados em seu país de origem, mas que são constantemente jogados contra sem-terras paraguaios. E não será conclamando o braço militarizado de Estado que a situação se resolverá.

Luta pela terra é questão de soberania nacional, um debate que retornou e tem se acentuado no Paraguai nos últimos anos. Ele ficou engasgado durante anos de ditadura e tentativas de golpes de Estado. Com o retorno do debate, retornaram as lutas sociais na nação vizinha, mas ao avaliarmos a cobertura de grande parte da imprensa corporativa - tão em sintonia com o modelo dos feirões do agrobussiness - podemos tirar a conclusão que muitos no Brasil ainda têm problema com a democracia, especialmente a democracia alheia.

Enfim, a notícia da morte do ex-general paraguaio me trouxe esse flashback...

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Os "heróis" do Grande Irmão

Ilustração: Leandro Kemp

A multidão se agita para o tradicional espetáculo que se inicia. A fórmula deu certo, pois sai ano e entra ano, promove uma "comoção" da multidão que, atualizada, já puxou a "ficha corrida" de todas as feras que serão confinadas numa jaula de luxo em busca de um milhão e meio de verdinhas.

Como grande protagonista e "olho onipresente" está o mesmo personagem há exatos treze anos. Jornalista conceituado que todo ano assume o papel de animador de auditório ou domador de leões no circo onde as feras se digladiam para se tornarem a nova celebridade instantânea, que cairá nas graças da multidão de anestesiados a cada paredão.

Assim como em 1984, de George Orwell, no pano de fundo há o olho totalitário que tudo vê. Nosso Grande Irmão promove uma lavagem cerebral onde a vítima desse programa de condicionamento não se trata do Sr. Winston Smith, mas sim os milhões de paralisados pelo festival de intrigas, individualismo, falsos companheirismos, fofocas e corpos torneados.

Celebridades instantâneas são cada vez mais constantes na televisão trazendo o futuro para o presente e antecipando a previsão de Andy Warhol de que "no futuro todo mundo terá seus 15 minutos de fama". O salto do anonimato para o estrelato move esses "abnegados" que comovem a multidão anestesiada ao derramarem lágrimas frente às câmeras, falando do "estresse" de ficarem enclausurados longe de suas famílias na prisão de luxo das grandes festas e paqueras.

Como de praxe, as chamadas "minorias" precisam ser "representadas"; não pode faltar um afrodescendente e aquela pessoa que decidiu escolher amar aquele do mesmo sexo. Por vezes são chamados senhores (as) de meia idade – que ficarão com os papéis de paizões e mãezonas – para juntar-se a figuras estereotipadas, como o pseudointelectual e os saradões e gostosonas de pouco conteúdo.

Voltando ao animador de palco, que há mais de uma década repete frases e bordões, fica com ele o papel de comandar a massa vislumbrada com o mundo divino da televisão, que tem em fórmulas como do Grande Irmão a salvação da lavoura - sem trocadilho com nenhuma Fazenda - nessa verdadeira "guerra santa" que se tornou a busca pelos picos de audiência.

Ao mesmo instante em que se repete a mesma fórmula ininterruptamente há treze anos, nossa midiática suprema corte (que num passe de mágica se tornou inquestionável) tenta tornar ineficaz a classificação indicativa para a programação de televisão, alegando que proteger crianças de baixarias televisivas fere a chamada "liberdade de expressão".

Esse cenário de condicionamento, fórmulas decadentes que se repetem ano após ano coincide com a ausência total de uma regulação mínima no setor das concessões públicas das telecomunicações , cada vez mais distante da democratização e da pluralidade; cada vez mais necessitada de multidões anestesiadas que adotam celebridades instantâneas como "heróis" num país onde, infelizmente, contrariando Bertold Bretch, ainda se necessitam heróis, sejam eles de togas ou de sungas.

sábado, 22 de dezembro de 2012

Memórias do Chumbo: O Futebol nos Tempos do Condor

Médici cumprimenta delegação brasileira em 1970
Recuperar a memória, não com o objetivo de saudar o passado, mas para evitar que ele retorne. Essa frase foi dita pelo escritor Eduardo Galeano em entrevista ao documentário Memórias do Chumbo: O Futebol nos Tempos do Condor. O material é resultado de uma grande reportagem produzida pelo jornalista Lúcio de Castro exibida pela primeira vez entre os dias 18 e 21 de dezembro na ESPN Brasil. 

A série mostra como as ditaduras militares na América do Sul que integraram a Operação Condor - a 'multinacional do terror' criada para exterminar a oposição de esquerda aos governos ditatoriais - estiveram presentes no futebol. Muito já tinha se falado sobre o envolvimento do futebol e política e como o esporte foi usado como propaganda por esses regimes autoritários, porém, particularmente, acredito que esse deva ser o material mais aprofundado sobre essa relação. 

O esporte bretão e a pátria, o futebol e o povo, dois elementos que sempre estiveram unidos e com frequência políticos e ditadores especularam com esses vínculos de identidade. Mussolini usou as vitórias da seleção italiana para fortalecer o regime fascista na 'Velha Bota', assim como para os nazistas o futebol era uma "Questão de Estado" e para os franquistas espanhóis o Real Madri era um modelo de legitimação, uma espécie de "embaixada ambulante".

General Videla na Copa de 78
A grande reportagem de Lúcio de Castro passa por quatro países de nossa América: Argentina, Chile, Uruguai e Brasil – países que tem em comum a paixão pelo futebol e a política. São várias passagens marcantes nas quatro partes do programa; na Argentina onde há algumas quadras do Monumental de Nuñes – estádio do River Plate e principal palco dos jogos da Copa do Mundo de 1978 – funcionava um dos maiores centros de tortura da ditadura argentina.

Fatos marcantes da ditadura de Pinochet, a derrubada de Salvador Allende, a partida "kafkaniana" disputada por somente uma equipe e histórias do Estádio Nacional que serviu como campo de concentração das vítimas do regime. Histórias em terras charruas, do Mundialito de 1981 no Uruguai, a "subversão" do ex-zagueiro Hugo De Leon (que vestiu a camisa do Grêmio) e a primeira vez que o povo gritou: "Se va a acabar, se va a acabar la dictadura militar!".

Documentos e passagens reveladoras dos Anos de Chumbo no Brasil e da seleção que foi mais utilizada pelos militares: o excrete canarinho de 1970. Com um arquivo vasto de pesquisa, Lúcio esmiuçou o que foi esse período onde os setores conservadores e elitistas temiam a "ameaça vermelha", preocupavam-se com os ventos que sopravam do Caribe, com o charme dos barbudos de Sierra Maestra e com a possibilidade de "novos Vietnans" em pleno Cone Sul.

O "João Sem Medo"
Ditaduras tem o poder de confiscar símbolos nacionais e por aqui isso foi muito bem feito - como mostra o documentário. "Ame ou deixe-o" e "Pra Frente Brasil" que o digam. O programa detalha a perseguição implacável a João Saldanha, o "João Sem Medo". Comunista convicto, foi derrubado do cargo de técnico da Seleção pela ditadura e sofreu uma perseguição voraz dos militares, sendo inclusive proibido de fazer a cobertura esportiva da delegação brasileira no México. Então contratado pela BBC para fazer artigos sobre a copa, Saldanha teve credenciais negadas pela então CBD [Confederação Brasileira de Desportos] em virtude de seus comentários considerados "incendiários".

Memórias do Chumbo traz "furos jornalísticos" como o caso do major Roberto Câmara Guaranys – torturador do regime – que foi o chefe de segurança da delegação brasileira na Copa do México; uma entrevista com o jornalista Luis Claudio Cunha, autor do livro Operação Condor: o sequestro dos uruguaios, com detalhes do sequestro que teve participação do ex-jogador Didi Pedalada, que após passagens por vários clubes - entre eles o Internacional - foi prestar "serviços" ao DOPS gaúcho.

Revelações sobre o "Rei" que, após voltar campeão de terras astecas, foi ao DOPS dedurar "comunistas" que haviam lhe procurado no exterior para assinalar um documento contra a ditadura no Brasil e pedindo a anistia de presos políticos. A informação consta em documento oficial do 21 de outubro de 1970 que só agora aparece. Procurado pelo programa, Pelé e sua assessoria não se manifestaram sobre o assunto.

Memórias do Chumbo: O Futebol nos Tempos de Condor é uma ótima sugestão para aqueles que são apaixonados por história, por futebol e por política. Fundamental para pesquisadores destes tempos de censura, suspensão do direito de votar, intervenção em sindicatos, cassação de direitos políticos, proibição de atividades ou manifestações de natureza política e fim do Estado de Direito.

Agraciado pela participação especial de Eduardo Galeano – outro pesquisador sobre o tema – Lúcio de Castro foi autor de um trabalho jornalístico único. Um documento histórico primordial no momento em que se discute a recuperação da memória e se cobra punição àqueles que cassaram direitos dos trabalhadores, torturaram, assassinaram com garras do Condor e seguem impunes. 

"(...)a impunidade estimula o delinquente, seja um delinquente militar, civil, seja individual, seja coletivo, a impunidade é o motor maior para a repetição dos crimes". 
Eduardo Galeano

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Dimas Gimenes: ao editor maldito


Misto de maldito transgressor, gonzo jornalista e vocalista "old school". Conheci o cara no final de 2001 quando ainda cursava meu segundo ano do curso de Comunicação Social. Estava prestes a assumir meu primeiro emprego, sem saber ao certo com quem iria me deparar. Levado por outro "maluco" até o jornal, pensei que a primeira reação do meu primeiro editor seria dizer: "Mais um cabeludo para me dar problemas (sic)". E não deu outra. Lembro bem do Dimas, ao se dirigir ao Alexandre e com ironia exclamar: "Já não chega um!..".

Meu primeiro contato com o "eterno editor" foi rápido, como reza a lenda dos "malditos jornalistas". Ele estava com seu "uniforme" diário de trabalho e suas ferramentas habituais. Trajava pijama (pois morava no emprego), pantufa nos pés, cabelos desgrenhados e barba por fazer. Um cinzeiro repleto de bitucas de cigarros e uma xícara grande de café. Algumas anotações em uma página aberta do Word, que dividia espaço na tela com um site especializado em música e outra janela com um jogo em rede.

Me cumprimentou, deu as boas vindas e sem levantar da cadeira pediu para o outro maluco me mostrar como tudo funcionava. Dimas tinha um olhar clínico para as coisas que aconteciam. Um idealista que acreditava que poderia transformar o mundo, dentro é claro de seus próprios limites. Buscava quebrar paradigmas e romper com os tradicionalismos de nossa função. Não se preocupava com o poder e, por vezes, o ironizava.

Reclamava dos limites da função, pois se sentia amordaçado por linhas editoriais, as quais conseguia driblar como ninguém, usando de metáforas e das chamadas por ele mesmo de "suas viagens". Como todo gênio, era genioso e por muitas vezes incompreendido.

Considerado também um personagem folclórico da cena rock n' roll da "Londres paranaense", não tinha vergonha alguma em dizer que demorou quase oito anos para se formar, pois precisava dedicar tempo a sua música, que junto com o jornalismo eram suas grandes paixões. Depois de passagens por General X e Blue-Up, ele criou a Fahrenheit 451, bandas do cenário underground.

O nome de sua última banda é alusão ao filme de Truffaut, que conta a história de um futuro em que a ditadura queimava livros considerados subversivos: bem a cara do editor. Fazia parte de um grupo de jornalistas raros nos dias de hoje, discípulos de outros malucos como Vlado, Patarra, Tarso, Capote ou Hunter. Não parava em muitos lugares, após se formar em Londrina, atuou em vários meios de comunicação, em especial em Umuarama, onde criou o semanal Tempo Certo e ficou conhecido pela coluna ''Boca no Trombone".

Dimas Gimenes nos deixou há cinco anos, em 05 de dezembro de 2007, então com 43 anos. Esteja ele onde estiver, "Dimeira" - apelido dado pelo camarada Marcos Machado - deve estar escrevendo um de seus artigos ou compondo uma de suas canções com uma xícara de café ou uma dose de uísque em uma das mãos.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

"Jornalistas precisam assumir postura militante"

Gilney Viana no 35º Congresso Nacional dos Jornalistas

É de fundamental importância a participação dos jornalistas no processo de condução dos trabalhos da Comissão da Memória e da Verdade, pois a categoria tem muito a contribuir, foram um dos primeiros a serem atingidos pelo regime militar. A constatação de Gilney Viana, Assessor Especial da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República e coordenador do Projeto Direito à Memória e à Verdade da SDH, foi uma convocação aos jornalistas brasileiros a assumirem uma postura militante em relação aos crimes e violações contra os direitos humanos ocorridos no período da ditadura militar.

Presente no 35º Congresso Nacional de Jornalistas, realizado entre os dias 07 e 10 de novembro em Rio Branco, no Acre, o ex-militante da ALN (Ação Libertadora Nacional) falou sobre a criação da Comissão da Verdade, instalada pela presidenta Dilma Rousseff com a incumbência de investigar, no prazo de dois anos, as violações aos direitos humanos cometidas pelo Estado brasileiro entre 1964 e 1988. “Todos os povos tem direito à sua memória”, exclama o assessor, que tem recebido uma série de documentações das Comissões da Verdade criadas nos Estados para auxiliar o trabalho da comissão.

O Assessor da SDH enumerou desagravos aos direitos humanos no período, lembrando que a ditadura cometeu prisões, sob a forma de sequestro, deu um golpe de estado, destituindo um presidente eleito, acabando com partidos políticos e impondo o bipartidarismo no país. “O regime jogou na ilegalidade dezenas, centenas, milhares de pessoas”.

Para Viana, há um manto de silêncio em relação aos atentados ocorridos no regime militar no Brasil. “Chega a ser reducionismo falar em ditadura citando apenas as torturas e assassinatos, pois foi um regime que foi além, que cassou direitos da classe trabalhadora, direitos civis, cassou até mesmo a esperança de um povo”, destacou, fazendo referência ao domínio ideológico imposto pelos golpistas. “Em todo momento nos tentavam convencer que éramos incapazes de lutar e de vencer a ditadura”.

Na presença de delegados do Congresso – em sua maioria dirigentes sindicais – observadores, convidados e estudantes de comunicação, Viana falou da importância da participação de jornalistas nos trabalhos da Comissão da Verdade. “Os jornalistas precisam assumir uma postura, uma posição. Essa federação [Fenaj], esses sindicatos, tiveram companheiros exilados, torturados e mortos no período. Sindicatos sofreram intervenções e as redações foram as primeiras a serem visitados pelos militares. Os jornalistas de esquerda, o pessoal que trabalhava com comunicação de alguma forma e que eram ligados aos meios alternativos, foram os primeiros perseguidos pelo regime”, lembrou Viana.

Olhar jornalístico

Durante o congresso em Rio Branco foi lançada oficialmente a Comissão da Memória e da Verdade da Fenaj (Federação Nacional dos Jornalistas). O órgão vai reunir informações sobre a atuação da ditadura militar no Brasil contra os jornalistas. “Essa comissão pretende constituir um olhar jornalístico das violências que a categoria sofreu na ditadura. Tenho certeza que aparecerão novos casos de censura e cerceamento”, disse Celso Schroder, presidente da Fenaj.

O jornalista Pedro Pomar - neto de Pedro Ventura Felipe de Araújo Pomar, assassinado em 1976, e filho de Wladimir Pomar, preso e torturado pelo regime - apresentou como sugestão à comissão lançada a realização de audiências públicas e a participação de jornalistas de veículos alternativos da imprensa e que estiveram no exílio durante o período da ditadura militar.

Para Gilney Viana, a comissão criada pela Fenaj vai de encontro a história da categoria dos jornalistas brasileiros. “É uma iniciativa importante, pois essa categoria tem sua história marcada por agressões sofridas e pela resistência. É importante a constituição de relatos, documentos, arquivos audiovisuais, pois a batalha do passado se refere ao presente e ao futuro”.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Íris de Oliveira: A memória e o legado de Keno

Mística em memória aos cinco anos do assassinato de Keno
"Nunca desisti, nunca pensei em sair do movimento ou deixar de lutar pela terra". A frase de Íris de Oliveira, viúva do trabalhador rural Valmir Mota de Oliveira, o Keno, é emblemática e retrata o sentimento de trabalhadores camponeses que driblam dificuldades, o preconceito elitista, superando entre outros obstáculos, a dor da perda de entes queridos, e seguem  lutando pela alteração de um modelo fundiário de estrutura 'pré-capitalista', lutando pela Reforma Agrária.

No fim de outubro, Íris participou em Santa Tereza do Oeste de um ato em memória ao assassinato de seu ex-marido. Organizado por integrantes da Via Campesina e do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra), o evento reuniu aproximadamente 500 pessoas na estação da IAPAR, local onde ocorreu o crime cometido por pessoas ligadas à NF Segurança, empresa contratada pela Synenta Seeds, multinacional que mantinha na área experimentos ilegais com transgênicos e que desrespeitava leis nacionais de biodiversidade.

Passados cinco anos do episódio – que também vitimou um dos seguranças contratados pela empresa – os integrantes da milícia armada permanecem impunes. Da mesma forma, a multinacional segue recorrendo da multa de R$ 1 milhão de reais imposta pelo IBAMA, pelos experimentos na área de amortecimento do Parque Nacional do Iguaçu, patrimônio da humanidade declarado pela Unesco.

A ação penal que apura as responsabilidades pelo assassinato ainda está longe do fim, já que o processo ainda não ultrapassou a fase de oitivas de testemunhas. Depois de ouvidas todas as testemunhas, o juiz decidirá quem irá a júri popular pelo assassinato de Keno e do funcionário da NF Segurança Fábio Ferreira.

Após o episódio, o próprio embaixador suíço Rudolf Bärfuss pediu desculpas a Íris Oliveira, com a seguintes palavras. "Em nome do governo do meu país, eu quero pedir desculpas". Na época, Íris entregou uma carta ao embaixador exigindo que o governo suíço ajudasse na punição à Syngenta pelo ato de violência e pelos crimes ambientais dos quais é acusada.

As investigações feitas pela polícia responsabilizaram nove pessoas contratadas pela NF Segurança, assim como o proprietário da Empresa, Nerci de Freitas, e o ruralista Alessandro Meneghel pelo assassinato de Keno, isentando a Syngenta de responsabilidade criminal por falta de provas.

Em recente conversa com o Sítio Coletivo, Íris falou da dor que permanece latente, mas de como o episódio fortaleceu suas convicções e não lhe fez desistir da luta pela terra. No bate papo com esse blogueiro, Íris também falou da conquista do lote no assentamento que leva o nome de seu ex-esposo, situado às margens da BR-277, em Cascavel. Confira abaixo trechos da conversa.

[Sítio] Memória
[Íris] Para nós da família, para mim que fui sua esposa, para nossos filhos, é muito gratificante essa homenagem que o movimento fez. Não esperávamos que a família do movimento fosse tão grande, não tenho nem o que falar deste ato em memória do Keno, é muito importante o que está acontecendo, ver que ele não foi e jamais será esquecido por esses trabalhadores.

Força para continuar
Em primeiro lugar eu nunca desisti após a morte do Keno, sua morte nunca me fez pensar em sair do movimento ou dizer agora vou parar com a luta. Na verdade isso me deu mais força e, junto com meus dois filhos, continuamos nossa luta.

Conquista da terra
A conquista do lote foi muito especial, apesar do Keno não estar com a gente pessoalmente, mas ele estava em memória, na minha, dos nossos meninos e de todos aqueles que conquistaram seus lotes. Foi uma grande conquista e para aqueles que achavam que nós iríamos se calar, mandamos o recado que não nos calaremos.

Desafio
Tocar o assentamento Valmir Mota para frente, onde o Keno estiver ele ficará admirado com nós, o assentamento é muito importante. É uma luta que ele conquistou junto com nós, a luta pela terra, pela produção orgânica no assentamento.

Legado

Apesar do Keno não estar aqui, tenho que certeza que todos que participaram deste ato veem a importância dele na nossa vida, na vida do movimento aqui na região. No dia do sorteio dos lotes foi muito triste ele não estar lá, mas eu tenho certeza que de onde ele está hoje, ele viu a felicidade de cada um, dos seus filhos, que hoje estão num lugar bem colocado. Uma conquista que também foi dele.

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

No "mês das crianças", Sem Terrinhas lutam por direitos

Trio sem terrinha faz leitura da pauta de reivindicações

Aprender desde cedo o valor da luta pela terra, pelo direito de estudar e pela dignidade. É com essa lição - para além da educação formal - que crianças camponesas, filhos e filhas de trabalhadores do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) saem em busca de direitos que ainda parecem "privilégios". É no tradicional "mês das crianças", que anualmente é organizada a Jornada Nacional dos Sem Terrinha.

Realizada desde 1996 pelo Setor de Educação do movimento, a Jornada deste ano ocupou nesta quarta-feira (31/10) sedes de pelo menos 16 Núcleos Regionais de Educação, além da SEED (Secretaria Estadual de Educação do Estado do Paraná).

A mobilização dos Sem Terrinhas, iniciada nesta terça-feira (30) dentro dos assentamentos e acampamentos, tem por objetivo denunciar a ausência do governo municipal e estadual no atendimento às demandas da educação no campo e também pressioná-los a atender a pauta de reivindicações do movimento social de luta pela terra.

Em Cascavel, aproximadamente 100 crianças com idade entre 05 e 12 anos estiveram na sede do Núcleo Regional, acompanhadas de mães e professoras de quatro acampamentos e um assentamento da região de Cascavel. Após a leitura da pauta feita pelo trio sem terrinha, Mailson Moreira (10 anos), Aline Salvador (09) e Milene Moreira (09), o chefe do Núcleo, professor Vander Piaia, recebeu as reivindicações do movimento.

As principais demandas giram em torno da construção, reforma e ampliação de colégios estaduais em assentamentos para que possam oferecer educação profissionalizante e técnica, garantindo toda estrutura necessária para dar qualidade ao ensino.

Além do atendimento apropriado às crianças com necessidades especiais nas Escolas Itinerantes, à garantia de transporte escolar seguro e suficiente para os estudantes, melhores condições de trabalho aos professores e a garantia do deslocamento dos educadores até as escolas e melhoria da merenda escolar, sendo no mínimo 30% da agricultura familiar.

Escolas no campo

A luta por educação é uma necessidade permanente no MST, visto que muitas escolas estão sendo fechadas no campo. Muitos assentamentos não têm escolas e os que têm a infraestrutura é precária e com o atendimento somente nos anos iniciais do Ensino Fundamental. A mobilização denunciou o fechamento dessas escolas do campo. Nos últimos anos, segundo levantamento do Setor de Educação, foram fechadas mais de 37 mil escolas rurais em todo o Brasil, sendo que só no Paraná - na década de 2000 - foram fechadas 44% das escolas da zona rural.

Além da negociação das demandas das escolas e dos assentamentos, a Jornada dos Sem Terrinha constitui-se numa atividade pedagógica de grande valor do movimento que contrapõe o paradigma da educação formal, pensando a infância na perspectiva de um projeto de emancipação humana.

São com palavras de ordem como "Escola itinerante chegou para ficar, lutando pela terra e o direito de estudar!" ou "Che, Zumbi, Antonio Conselheiro; na luta por justiça, somos todos companheiros!",  que as crianças camponesas fortalecem sua identidade sem terra.  São nas jornadas que os filhos e filhas dos agricultores aprendem valores de forma lúdica e pedagógica. No mês dos "presentes e das travessuras", os Sem Terrinha aprendem a lição que na sociedade das desigualdades é preciso lutar desde cedo para que direitos deixem de ser privilégios.

Sem Terrinhas no Núcleo Regional de Educação de Cascavel

terça-feira, 30 de outubro de 2012

#Cascavel: Ato em memória aos desaparecidos políticos

Charge: Carlos Latuff

O ferido de Finados é uma data reservada para reverenciarmos a memória daqueles que não estão conosco, entre eles, os que foram vítimas da violência. Diante disso, o Conselho Nacional das Igrejas Cristãs (CONIC), realizará nesta sexta-feira (02/11), atos ecumênicos em várias cidades do país em memória aos desaparecidos políticos da ditadura civil-militar no Brasil.

Em Cascavel, o ato será realizado a partir das 19h30 na Igreja Anglicana, na Rua Arnaldo Estrela, 272, Jardim Alvorada, atrás do Rancho da Candoca. Sob coordenação do reverendo Luiz Carlos Gabas, o evento terá como um dos atrativos uma palestra-espetáculo, com explanação do historiador Alexandre Fiuza, professor da Unioeste (Universidade Estadual do Oeste do Paraná) e com apresentação do casal de músicos Sil Vaillões e Giovani Pinheiro.

A intenção do CONIC é fazer com que essa prática se torne anual, consolidando o dia 2 de novembro como Dia Nacional dos Desaparecidos Políticos. "Seus familiares, além de sofrerem a dor de uma morte nem sempre esclarecida tem um direito milenar violado, que é o de as pessoas e/ou comunidades darem um sepultamento digno a seus entes queridos e também de reverenciar a suas memórias ao visitar seus túmulos. Todos esses direitos foram negados pela ditadura", diz trecho da carta de Dom Manoel João Francisco, do CONIC. 

Segundo a organização do ato, a celebração também lembrará as vítimas de chacinas dos dias atuais. "Diariamente pessoas desaparecem ou são assassinadas, sem que seus familiares tenham respostas, assim como aconteceu na ditadura militar, um período triste de nossa história", diz o reverendo Luiz Carlos Gabas.

O ato em memória dos desaparecidos políticos em Cascavel conta com o apoio do Sinteoeste (Sindicato dos Trabalhadores em Estabelecimento em Ensino Superior do Oeste do Paraná), APP-Sindicato (Sindicato dos Trabalhadores em Educação Pública do Paraná) e do Sindijor-PR (Sindicato dos Jornalistas do Paraná), Subseção de Cascavel. 

domingo, 21 de outubro de 2012

Keno Vive: Ato lembrará os cinco anos do assassinato

Valmir Mota de Oliveira, o Keno, assassinado em 2007

Neste domingo, dia 21 de outubro, completam-se cinco anos do assassinato do trabalhador sem-terra Valmir Mota de Oliveira, o Keno. Como lembrança da data, trabalhadores camponeses da Via Campesina e do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra) promovem um ato político batizado de "Keno Vive" nesta segunda-feira (22) no Centro de Ensino e Pesquisa em Agroecologia Valmir Mota de Oliveira, local onde funcionava a antiga fazenda da multinacional Syngenta Seeds, em Santa Tereza do Oeste.

Keno foi morto após um ataque de uma milícia armada contratada pela empresa após a ocupação da área de 127 hectares, onde a multinacional suíça mantinha desde 1998 um campo experimental. Em 2006, a Via Campesina denuncia crimes cometido pela empresa, como o desrespeito ambiental e do Plano de Manejo do Parque Nacional do Iguaçu. A Syngenta realizava experimentos com soja e milho geneticamente modificados, o que em março de 2006, levou o Ibama a multar a empresa no valor de R$ 1 milhão, dívida até hoje não paga.

A luta das famílias camponesas, que organizaram o Acampamento Terra Livre e que permaneceram resistindo por mais de dois anos no espaço, juntamente com o grande apoio e solidariedade recebidos por organizações de várias partes do mundo, foi primordial para a importante vitória obtida pelos trabalhadores camponeses. Foi mediante a grande repercussão do caso e a condenação da sociedade à ação armada da multinacional que, em 2008, a Syngenta teve que transferir a posse da área para o Governo do Paraná.

Com o objetivo de fazer o resgate histórico de luta e resistência das famílias camponesas, mantendo viva a chama de rebeldia e indignação que fortalece a necessidade de seguir denunciando os crimes do agronegócio, lutando pela Reforma Agrária e contra a utilização dos transgênicos e agrotóxicos em nosso alimento, é que a Via Campesina e o MST convidam a sociedade a participar do ato no Centro de Ensino e Pesquisa, administrado atualmente pela Iapar (Instituto Ambiental do Paraná), que leva o nome do militante morto em há cinco anos.

Histórico

A empresa suíça Syngenta Seeds, detentora de 19% do mercado de agroquímica e a terceira de maior lucro na comercialização de sementes no mundo instala em 1998 uma sede em Santa Tereza do Oeste. Atenta aos crimes ambientais e ao desrespeito a legislação, a Via Campesina denúncia as irregularidades a órgãos nacionais e internacionais e a empresa é multada em R$ 1 mi pelo Ibama.

No dia 14 de março de 2006, a área é ocupada, com ampla repercussão internacional. As 70 famílias camponesas permanecem até novembro de 2006 no local, quando o Estado do Paraná cumpre liminar de reintegração de posse expedida pela Justiça de Cascavel. As famílias retornam ao local depois que a área foi desapropriada pelo governo para a criação de um Centro de Agroecologia. 

Em 18 de julho de 2007, os sem-terra cumprem ordem judicial e as famílias se deslocam para o assentamento Olga Benário, em Santa Tereza do Oeste. Em outubro de 2007, a área é reocupada, após os rumores de que a terra estava sendo preparada para plantação de soja e milho transgênico, o que desrespeita a regras de um centro de agroecologia.

Após a nova ocupação, em uma ação covarde e sorrateira de uma milícia contratada pela multinacional, pelo menos 10 sem-terra são feridos e um deles é executado. No confronto, um dos milicianos também é morto. O caso é denunciado em todo o Brasil, em tribunais internacionais, entre eles, o país de origem da empresa. A longa resistência da Via Campesina e do MST garantem a conquista da área e o compromisso do Estado.      

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Valmir Mota em festa: a conquista da terra e dignidade

Emoção marcou o sorteio dos lotes aos assentados
A realização de um sonho, a conquista de uma terra para produzir e criar raízes, a luta pela dignidade. A vitória de 83 famílias que se tornaram oficialmente moradoras do Assentamento Valmir Mota de Oliveira, em Cascavel, no Oeste do Paraná, e que comprovaram que a Reforma Agrária dá certo!

A festa organizada nesta semana pelos militantes do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) não foi o simples ato do sorteio dos lotes por parte do Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária), mas sim a reafirmação que o movimento social mais legítimo do país segue resistindo, vencendo o preconceito e a criminalização de grande parte da sociedade de nossa conservadora "fazenda iluminada", onde os interesses do agronegócio seguem controlando a mídia e os intitulados "ruralistas" seguem acreditando serem donos da região.

Foram 13 anos desde a ocupação do Completo Cajati e dois anos na área que se instalou o Assentamento Valmir Mota, uma das fazendas compradas pelo Incra para fins da Reforma Agrária. Uma luta simbolizada pela tradicional mística e pelas palavras de um dos coordenadores do movimento na região. "Isso aqui só foi possível graças as nossas lutas, nossas marchas, nossos protestos e enfrentamentos. A luta pela terra nos une e já levou alguns de nossos companheiros, como o Keno, que está presente aqui entre nós, que continua presente na nossa luta", disse Celso Barbosa, em menção ao militante sem-terra executado por milicianos na antiga estação da multinacional Syngenta, em Santa Tereza do Oeste, e que dá nome ao assentamento.

Para o superintendente do Incra, Nilton Bezerra, o Assentamento Valmir Mota de Oliveira será exemplo de moralidade, produtividade e do ponto de vista social. "Essa é uma área emblemática, é uma conquista histórica destes trabalhadores que seguem resistindo numa região crítica como essa", disse Bezerra, referindo-se a atos de violência protagonizados por milícias armadas que já marcaram a disputa pela terra no Oeste, além de citar a "campanha" de grande parte dos meios de comunicação. "Infelizmente a mídia regional é ligada ao agronegócio e trata a reforma agrária de maneira distorcida".

O reverendo da Igreja Anglicana, Luiz Carlos Gabas, acompanha a caminhada dos movimentos sociais e a luta dos assentados do Valmir Mota. "Essa conquista pode parecer pequena para alguns, mas representa muito para aqueles que lutam pela dignidade, que lutam contra o poderio do agronegócio. O grande temor dos poderosos, da burguesia, é quando o povo pobre, os mais humildes alcançam vitórias por meio da organização e da luta", disse o religioso, deixando um recado às famílias beneficiadas. "A luta prossegue companheiros, não se esqueçam daqueles que ainda estão acampados embaixo das lonas pretas".

O recado do religioso é significativo, uma vez que a luta continua. Existem ainda outras 400 famílias acampadas na área do complexo à espera da regularização. A conquista das 83 famílias assentadas de forma definitiva é uma resposta a muitos que criminalizam e desqualificam o movimento. Já a emoção de cada assentado fica impossível descrever, quem sabe uma frase no momento que o almoço estava sendo servido possa ajudar: "Não sei se eu almoço, se choro ou se continuo com esse sorriso que vai de orelha em orelha", disparou o camarada Ildemar Frohleich, um dos assentados beneficiados.



segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Para prefeito, Biafra e "confirma"!


"Obrigar a polícia a ser eleita, guarda por guarda, pelas pessoas que ela vai controlar. Também acho que devíamos fazer um leilão em praça pública de todos os cargos oficiais mais lucrativos. Um leilão mesmo, aberto, em vez de fazer às escondidas, nos escritórios enfumaçados do poder".


Fiquem calmos 'sitiantes', este blog não quer disputar espaço com os noticiários diários de política institucional ou partidária, tampouco estou propagandeando propostas de postulantes que tem solução para todos nossos males.

Faltando poucos dias da data que nos fazem crer ser a mais importante da luta política ou o momento onde "todos se igualam (sic)" - não em direito, mas sim em dever - decidi fazer uma postagem em homenagem a uma figura que eu cravaria o 'confirma' sem titubear.

A proposta descrita no primeiro parágrafo fez parte da plataforma política de um dos candidatos a prefeito da cidade de São Francisco, na Califórnia, em 1979. Isso mesmo a frase é de Jello Biafra, um dos mais lendários nomes do punk rock mundial.

Autor de letras recheadas de ironia e discurso político anti-imperalista; de clássicos como California Über Alles, Holiday in Cambodia, Too Drunk to Fuck e Nazi Punks Fuck Off, Biafra é - sem sobra de dúvidas - uma das figuras mais importantes dos movimentos de esquerda mundial das três últimas décadas.

Ícone do cenário underground, seja na arte ou na política, Jello Biafra se aventurou por "processos políticos tradicionais".  Sua eleição a prefeito em 1979 foi o fato mais marcante. Sua candidatura à época teve como principal objetivo mostrar que a eleição em São Francisco não era "real", mas sim uma simples batalha entre dois setores da direita.

"O que eu queria era mostrar que a disputa era entre um candidato dos banqueiros, Feinstein, e Kopp, uma marionete dos interesses imobiliários", disse Jello Biafra em entrevista à revista Bizz, em 1986. "Quem tinha consciência disso, e já estava de saco cheio, votou em mim", fala o músico na mesma entrevista.

Crítico voraz do então governador da Califórnia Jerry Brown, Biafra foi o quarto candidato mais votado entre dez nomes, obtendo 6.591 votos, ou seja, pouco mais de 3% do eleitorado. Números que contribuíram para uma eleição de desempate (segundo turno) entre os dois principais candidatos.

Jello Biafra ainda tentou concorrer mais uma vez ao cargo de prefeito, mas foi banido por uma lei que só permite candidatos com o nome de batismo (Eric Boucher - no seu caso) e nunca com nome artístico, pseudônimo ou apelido.

Em 2000 chegou a concorrer nas prévias do Green Party (partido verde) em Nova Iorque para as eleições presidenciais dos Estados Unidos. Sua candidatura, caso aprovada, teria como vice o jornalista Mumia Abu-Jamal, condenado à morte sob acusação de ter matado um policial. A escolha foi a maneira de Jello mostrar sua posição em relação à pena de morte, num aspecto amplo, além de chamar atenção para o desenrolar do caso de Mumia.

Apesar de encarar o processo das urnas, Biafra sempre apontou que as ruas e os palcos são os espaços mais propícios para o embate político. "(...) ação nas ruas é uma parte disso, mas a outra é tirar estes imbecis dos escritórios deles, que é uma coisa que ainda podemos fazer".

A poucos dias de sermos 'convocados' a canalizar todas nossas forças na 'festa democrática' da cidadania ocasional, da indignação seletiva e dos 'candidatos cao cao', lhes deixo com versos da canção I Won’t Give Up, do projeto Jello Biafra And The Guantanamo School Of Medicine.


"(...) da minha pequena e própria maneira
  Eu fiz um juramento
  E você pode fazê-lo agora!
  as corporações não poderão me ter

 Não vou desistir
 Isso não é uma opção!"

(Jello Biafra- I Won´t Give Up)