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quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Stédile: "Para burguesia, mídia é seu patrimônio sagrado"

Coletiva com Stédile na Escola Milton Santos [foto: Paulo Porto]
"Os meios de comunicação do Brasil se transformaram numa arma da burguesia, num negócio que lucra financeiramente e pela reprodução das ideias da classe dominante".  Quem opina é o militante João Pedro Stédile, da coordenação nacional do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) e da Via Campesina, que entre os dias 07 e 10 de agosto esteve presente na 12ª Jornada de Agroecologia, realizada na Escola Milton Santos, em Maringá (PR).

A declaração acima foi uma resposta a questionamento surgido em entrevista coletiva ao Setor de Comunicação da Jornada e veículos alternativos, entre eles o Sítio Coletivo, sobre os motivos para o governo Dilma Rousseff evitar o debate sobre a regulamentação e democratização dos meios de comunicação.  Para Stédile, a fuga do tema da mídia faz parte da política de aliança de conciliação de classes caracterizada no governo.

O líder da Via Campesina fez uma analogia a luta pela terra. "O tema da democratização da comunicação é muito parecido com a Reforma Agrária, porque ele propõe democratizar algo que a burguesia tem como patrimônio sagrado deles", afirma Stédile. Apesar desse cenário, o militante é otimista que esse debate possa avançar a partir da série de manifestações nas ruas que vem acontecendo pelo país. "Não foi a toa que vários protestos terminaram na porta da Globo", destacou.

Stédile destacou iniciativas populares que buscam a democratização dos meios de comunicação, como o Projeto de Lei de Iniciativa Popular, proposta pelo FNDC (Fórum Nacional de Democratização da Comunicação), onde os movimentos sociais estão colhendo assinatura para levar um projeto de lei ao Congresso tendo como principal objetivo regulamentar os artigos da Constituição Federal que versam sobre Comunicação Social. 

Para João Pedro Stédile, essa iniciativa foi motivada pelo abandono do projeto de regulação dos meios de comunicação por parte do governo federal.  "Foi um recado dos movimentos sociais para o ministro Paulo Bernardo [Comunicações]: já que vocês têm vergonha do filho de vocês, nós estamos adotando", disse o militante, ressaltando que a uma democratização real da mídia só será possível com um amplo movimento popular nas ruas.  "Essa luta só está começando", concluiu.

Indígenas

A questão indígena também esteve em pauta na coletiva com Stédile. Questionado por esse blogueiro sobre o atual cenário de luta dos povos tradicionais, ele declarou apoio e total solidariedade da Via Campesina a questão que considera 'intocável'. "Temos a obrigação moral de preservar as terras tradicionais, isso não se trata de folclore, mas de uma questão ética com esses povos que vem sendo massacrados ao longo da história", destacou.

Indagado sobre o avanço do agronegócio aos territórios indígenas, o membro da direção do MST destacou que a preocupação dos grandes proprietários de terra refere-se à politização do embate. "No início eles [indígenas] acreditavam na lei e governo, agora eles passaram a entender que trata-se de luta de classes", ressaltou Stédile, que considera que no cenário atual as demarcações de terras tradicionais representam o grande entrave ao avanço do agronegócio.

Jornada

Com o lema "Terra Livre de Transgênicos e Sem Agrotóxicos", a Jornada de Agroecologia 2013 visou a construção de um Projeto Popular e Soberano para a agricultura, em contrapartida às empresas transnacionais do agronegócio. Aproximadamente 3,5 mil pessoas participaram da edição que foi encerrada com o lançamento do Plano Nacional de Agroecologia, além da aprovação de moções por uma constituinte exclusiva para uma reforma política no Brasil;  de repúdio aos esquemas de espionagem do Governo dos Estados Unidos contra o Brasil, América Latina e o Mundo; de apoio à Escola Milton Santos e em apoio aos povos indígenas e comunidades tradicionais, que têm sofrido inúmeras violações por parte de latifundiários e do poder público.

 Confira mais imagens da 12ª Jornada de Agroecologia neste link

domingo, 21 de outubro de 2012

Keno Vive: Ato lembrará os cinco anos do assassinato

Valmir Mota de Oliveira, o Keno, assassinado em 2007

Neste domingo, dia 21 de outubro, completam-se cinco anos do assassinato do trabalhador sem-terra Valmir Mota de Oliveira, o Keno. Como lembrança da data, trabalhadores camponeses da Via Campesina e do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra) promovem um ato político batizado de "Keno Vive" nesta segunda-feira (22) no Centro de Ensino e Pesquisa em Agroecologia Valmir Mota de Oliveira, local onde funcionava a antiga fazenda da multinacional Syngenta Seeds, em Santa Tereza do Oeste.

Keno foi morto após um ataque de uma milícia armada contratada pela empresa após a ocupação da área de 127 hectares, onde a multinacional suíça mantinha desde 1998 um campo experimental. Em 2006, a Via Campesina denuncia crimes cometido pela empresa, como o desrespeito ambiental e do Plano de Manejo do Parque Nacional do Iguaçu. A Syngenta realizava experimentos com soja e milho geneticamente modificados, o que em março de 2006, levou o Ibama a multar a empresa no valor de R$ 1 milhão, dívida até hoje não paga.

A luta das famílias camponesas, que organizaram o Acampamento Terra Livre e que permaneceram resistindo por mais de dois anos no espaço, juntamente com o grande apoio e solidariedade recebidos por organizações de várias partes do mundo, foi primordial para a importante vitória obtida pelos trabalhadores camponeses. Foi mediante a grande repercussão do caso e a condenação da sociedade à ação armada da multinacional que, em 2008, a Syngenta teve que transferir a posse da área para o Governo do Paraná.

Com o objetivo de fazer o resgate histórico de luta e resistência das famílias camponesas, mantendo viva a chama de rebeldia e indignação que fortalece a necessidade de seguir denunciando os crimes do agronegócio, lutando pela Reforma Agrária e contra a utilização dos transgênicos e agrotóxicos em nosso alimento, é que a Via Campesina e o MST convidam a sociedade a participar do ato no Centro de Ensino e Pesquisa, administrado atualmente pela Iapar (Instituto Ambiental do Paraná), que leva o nome do militante morto em há cinco anos.

Histórico

A empresa suíça Syngenta Seeds, detentora de 19% do mercado de agroquímica e a terceira de maior lucro na comercialização de sementes no mundo instala em 1998 uma sede em Santa Tereza do Oeste. Atenta aos crimes ambientais e ao desrespeito a legislação, a Via Campesina denúncia as irregularidades a órgãos nacionais e internacionais e a empresa é multada em R$ 1 mi pelo Ibama.

No dia 14 de março de 2006, a área é ocupada, com ampla repercussão internacional. As 70 famílias camponesas permanecem até novembro de 2006 no local, quando o Estado do Paraná cumpre liminar de reintegração de posse expedida pela Justiça de Cascavel. As famílias retornam ao local depois que a área foi desapropriada pelo governo para a criação de um Centro de Agroecologia. 

Em 18 de julho de 2007, os sem-terra cumprem ordem judicial e as famílias se deslocam para o assentamento Olga Benário, em Santa Tereza do Oeste. Em outubro de 2007, a área é reocupada, após os rumores de que a terra estava sendo preparada para plantação de soja e milho transgênico, o que desrespeita a regras de um centro de agroecologia.

Após a nova ocupação, em uma ação covarde e sorrateira de uma milícia contratada pela multinacional, pelo menos 10 sem-terra são feridos e um deles é executado. No confronto, um dos milicianos também é morto. O caso é denunciado em todo o Brasil, em tribunais internacionais, entre eles, o país de origem da empresa. A longa resistência da Via Campesina e do MST garantem a conquista da área e o compromisso do Estado.      

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Valmir Mota em festa: a conquista da terra e dignidade

Emoção marcou o sorteio dos lotes aos assentados
A realização de um sonho, a conquista de uma terra para produzir e criar raízes, a luta pela dignidade. A vitória de 83 famílias que se tornaram oficialmente moradoras do Assentamento Valmir Mota de Oliveira, em Cascavel, no Oeste do Paraná, e que comprovaram que a Reforma Agrária dá certo!

A festa organizada nesta semana pelos militantes do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) não foi o simples ato do sorteio dos lotes por parte do Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária), mas sim a reafirmação que o movimento social mais legítimo do país segue resistindo, vencendo o preconceito e a criminalização de grande parte da sociedade de nossa conservadora "fazenda iluminada", onde os interesses do agronegócio seguem controlando a mídia e os intitulados "ruralistas" seguem acreditando serem donos da região.

Foram 13 anos desde a ocupação do Completo Cajati e dois anos na área que se instalou o Assentamento Valmir Mota, uma das fazendas compradas pelo Incra para fins da Reforma Agrária. Uma luta simbolizada pela tradicional mística e pelas palavras de um dos coordenadores do movimento na região. "Isso aqui só foi possível graças as nossas lutas, nossas marchas, nossos protestos e enfrentamentos. A luta pela terra nos une e já levou alguns de nossos companheiros, como o Keno, que está presente aqui entre nós, que continua presente na nossa luta", disse Celso Barbosa, em menção ao militante sem-terra executado por milicianos na antiga estação da multinacional Syngenta, em Santa Tereza do Oeste, e que dá nome ao assentamento.

Para o superintendente do Incra, Nilton Bezerra, o Assentamento Valmir Mota de Oliveira será exemplo de moralidade, produtividade e do ponto de vista social. "Essa é uma área emblemática, é uma conquista histórica destes trabalhadores que seguem resistindo numa região crítica como essa", disse Bezerra, referindo-se a atos de violência protagonizados por milícias armadas que já marcaram a disputa pela terra no Oeste, além de citar a "campanha" de grande parte dos meios de comunicação. "Infelizmente a mídia regional é ligada ao agronegócio e trata a reforma agrária de maneira distorcida".

O reverendo da Igreja Anglicana, Luiz Carlos Gabas, acompanha a caminhada dos movimentos sociais e a luta dos assentados do Valmir Mota. "Essa conquista pode parecer pequena para alguns, mas representa muito para aqueles que lutam pela dignidade, que lutam contra o poderio do agronegócio. O grande temor dos poderosos, da burguesia, é quando o povo pobre, os mais humildes alcançam vitórias por meio da organização e da luta", disse o religioso, deixando um recado às famílias beneficiadas. "A luta prossegue companheiros, não se esqueçam daqueles que ainda estão acampados embaixo das lonas pretas".

O recado do religioso é significativo, uma vez que a luta continua. Existem ainda outras 400 famílias acampadas na área do complexo à espera da regularização. A conquista das 83 famílias assentadas de forma definitiva é uma resposta a muitos que criminalizam e desqualificam o movimento. Já a emoção de cada assentado fica impossível descrever, quem sabe uma frase no momento que o almoço estava sendo servido possa ajudar: "Não sei se eu almoço, se choro ou se continuo com esse sorriso que vai de orelha em orelha", disparou o camarada Ildemar Frohleich, um dos assentados beneficiados.



sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Olga Benário: Ecologia do Pensamento

Maycon numa "prosa" com o assentado Silvio
Os colegas Maycon Corazza e Pedro Sarolli produziram reportagem sobre o Assentamento da Reforma Agrária, Olga Benário, em Santa Tereza do Oeste. O material foi feito para a Revista Verbo, desenvolvida pelos acadêmicos do 5º período de Jornalismo da FAG. O Sítio Coletivo reproduz o material que é um verdadeiro raio-x do assentamento.


Enquanto o agronegócio brasileiro está cada vez mais dependente dos agrotóxicos e transgênicos, alguns agricultores familiares caminham na direção contrária, buscando pelo aprimoramento do debate e da prática ecológica. No Assentamento Olga Benário, em Santa Tereza do Oeste, distante 15 quilômetros de Cascavel, os assentados compreenderam a importância do debate ambiental e avançam na agroecologia (alternativa de agricultura familiar socialmente justa, economicamente viável e ecologicamente sustentável). 

O assentamento foi criado pelo Incra em 2005, em uma fazenda que pertencia a Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações). Dez famílias foram beneficiadas com 5,5 hectares cada, para o desenvolvimento da agricultura e da pecuária. A área comunitária (somando estradas e acessos) totaliza cinco hectares. E quase 30 hectares são de reserva legal e preservação permanente. Um dado importante do assentamento é a sua distância do Parque Nacional do Iguaçu, menos de quatro quilômetros. 

As entradas da área são de chão batido, tendo algumas vias principais largas e outras menores e mais tortuosas, que se encaminham para as casas dos moradores. Árvores de pequeno e médio porte são comuns nas áreas coletivas e variam nas áreas particulares, tanto na quantidade como na espécie, de acordo com o capricho e o tempo de estadia do agricultor. As casas mudam de tamanho, de cor e de detalhes, mas são arquitetonicamente parecidas, simplistas, algumas até sem reboco. O fundo das casas sempre possui algum tipo de barracão, uns pra extração do leite das vacas, outros para agrupar porcos, patos e galinhas; e alguns servem como depósito de materiais, ferramentas e objetos necessários para a atividade agrícola. A horta orgânica faz parte de quase todas as propriedades. Umas maiores em formato de um grande círculo, que além de ter sistema de irrigação elétrico, era abastecida por um poço artesiano localizado ao centro, criando a sensação de um grande “alvo”, se focalizado de cima. As hortaliças da época são a cenoura, a cebolinha, salsinha, rabanete, que fazem parte do cardápio diário dos assentados e também são comercializadas. 

A área comunitária é rudimentar. Grande parte é composta de pasto e grama, com dois barracões de madeira maltratados pelo tempo. O assentamento pediu apoio à prefeitura de Santa Tereza para viabilizar a construção de um galpão novo, que serviria como sede para reuniões e os compromissos da comunidade em geral, mas até hoje os pedidos não foram atendidos. 

Araídes Duarte da Luz, 35 anos, mora com a família, dois filhos e a esposa. Além de agricultor, ele é coordenador do assentamento. Araídes explica que a preocupação com o meio ambiente foi incorporada pelo MST há pouco mais de 10 anos. Segundo ele, o movimento percebeu que a luta pela reforma agrária estava ligada a defesa do meio-ambiente. “O MST surge com a proposta de organizar os sem-terra. Quando ele organiza os sem-terra vão surgindo as demandas do movimento”, afirma. 

A preocupação desses agricultores camponeses está baseada em dados alarmantes. O Brasil é o maior consumidor de agrotóxicos do mundo desde 2009. Mais de um bilhão de litros de venenos foram jogados nas lavouras, de acordo com dados oficiais. O uso dos transgênicos também é preocupante, e vem ganhando cada vez mais espaço. O documentário "O mundo segundo a Monsanto" destaca os perigos do crescimento de plantações geneticamente modificadas, que, em 2007, cobriam 100 milhões de hectares, com propriedades genéticas patenteadas 90% pela Monsanto.  À frente de tudo isso, uma publicidade ‘pesada’ que serve como cortina de fumaça para as reais intenções da multinacional. 

Para Araídes são os fazendeiros, ou como ele prefere dizer ‘empresários-rurais’, os pilares de sustentação do avanço dessas multinacionais no campo da produção de alimentos. E por trás de tudo isso, um único objetivo: aumentar o lucro a qualquer custo. “Ele não está preocupado se a terra aguenta, se vai contaminar lençóis freáticos, contaminar a água ou se vai ter que derrubar uma árvore. O empresário rural pensa assim, se eu plantar essa qualidade de soja transgênica, então significa que vou faturar tanto por hectare. A terra para eles é como se fosse uma indústria”, explica. 

O assentamento tem uma conduta de comportamento, segmentada em quatro eixos. O primeiro é o eixo econômico, incentivando os agricultores a encontrar uma forma de sobreviver, de ganhar dinheiro, de se sustentar. O segundo é o desenvolvimento cultural. O coordenador afirma que o agricultor do assentamento deve sempre buscar conhecimento, respeitando outras culturas, deixando de lado o individualismo para pensar coletivamente. O terceiro eixo é o ambiental. “Como eu vou ter meu desenvolvimento econômico, se eu não respeitar o meio ambiente? A terra e a água, por exemplo, são elementos importantes. Sem eles não sobrevivemos”, diz Araídes.  O último eixo é a necessidade de autonomia política desses agricultores. O comprometimento deles é com a organização, com as famílias lá assentadas, com o MST e não com políticos ou partidos. 

Os pilares de conduta dos assentados sempre são retomados para que se possa entender qual o pensamento do grupo sobre a atual situação do meio ambiente. Araídes aprova o debate, lembrando sempre que a agroecologia está de um lado, enquanto o agronegócio está de outro. “Eu culturalmente entendi a necessidade do debate envolvendo o tema e os outros três eixos. Essa importância não é só para a família assentada, para mim ou para outro, mas para o novo modelo de sociedade que está aí, essa nova dinâmica”, diz.  De acordo com ele, se o mundo “continuar nesse desenvolvimento industrial da agricultura e do meio urbano, essa contaminação, o mundo não vai agüentar. O mundo uma hora vai explodir.” 

Algumas formas de sustentabilidade já são colocadas em prática pelos assentados. O adubo orgânico é um exemplo de que é possível quebrar o vínculo com os agrotóxicos e transgênicos. Silvio Duarte da Luz, 33 anos, é referência no assunto. “Nós transformamos aquilo que seria jogado fora em adubo. O melhor de tudo é que se trata de algo natural.” Além dele, outros assentados também desenvolvem as técnicas de produção de adubo orgânico em suas propriedades. 

Os assentados têm também alguns projetos para aumentar a produção, utilizando o meio ambiente de forma responsável. Dentre eles estão a agrofloresta, que consiste em um melhor aproveitamento da reserva legal, com a fruticultura. Onde não é necessário derrubar nenhuma árvore e sim plantar algumas frutíferas naquela área, gerando assim mais uma fonte de renda coletiva. Os agricultores já contaram com a ajuda técnica, mas a disponibilidade de tempo ainda os atrapalha na elaboração desse projeto. 

Outra grande meta é conseguir a certificação agroecológica, que reconhece o assentamento como “área orgânica”.  Mas para isso acontecer é necessário seguir uma série de critérios. Não adianta somente cultivar os alimentos de maneira orgânica, mas sim se precaver dos “vizinhos” que utilizam agrotóxicos. O veneno chega ao assentamento pelo vento e, de certa forma, atinge as plantações, contaminando em menor escala a produção. Para evitar o problema, os moradores devem construir um “cinturão verde”, que seria uma barreira de vegetação, uma cerca viva em volta de todo o assentamento. 

Os assentados compreenderam a necessidade de discutir, agir conforme as possibilidades e conscientizar que “antes de ser um negócio, a terra é fonte de vida”. Eles são exemplo de que é possível frear o processo de destruição ambiental que está em curso, principalmente com a ecologia do pensamento. “Nós queremos fazer muito, inclusive, mais do que é possível”, completa Silvio.

Pedro Sarolli entrevista Araídes, coordenador do Olga Benário

Maycon Corazza e Pedro Sarolli são acadêmicos de Jornalismo
Mais informações dos autores em: http://www.facebook.com/maycon.corazza e 
http://www.facebook.com/profile.php?id=100002103508874

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Jornalista estadunidense conhece "berço" do MST

Lynette (ao centro) em visita ao 1º de Agosto
Nada melhor para uma jornalista estrangeira que busca conhecer a caminhada dos movimentos sociais de luta pela terra do que pousar na região Oeste do Paraná, a terra vermelha que foi o berço da criação do MST, em 1984, no auditório do Centro Diocesano de Formação de Cascavel. 

Nada melhor do que pisar em solo minado pelo lobby de ruralistas e setores do agrobusiness e seus porta-vozes da mídia tradicional. Foi o que fez Lynette Wilson, editora da agência de notícias da Igreja Anglicana de Nova Iorque (Episcopal Life Media) e repórter do jornal The Epicospal New Yorker. A jornalista visitou na semana passada acampamentos e assentamentos do MST em Cascavel. 

Durante a produção de uma reportagem sobre os movimentos sociais, ela também conheceu a hospitalidade e religiosidade de um povo tradicional de nossas terras, os indígenas Guarani, durante um ritual na Opã (casa de reza) da Tekoha Renda Poty, aldeia no município de Santa Helena. 

Acompanhada do bispo da Arquidiocese Anglicana de Curitiba, Dom Naudal Gomes, do reverendo Luiz Carlos Gabas (de Cascavel) e do missionário Michael Tedrik, a jornalista iniciou seu roteiro por um acampamento do MLST às margens da BR-369, em Corbélia. Em Santa Tereza do Oeste, a comitiva visitou o assentamento Olga Benário e, em Cascavel, estiveram no acampamento 1º de Agosto e no assentamento Valmir Motta, nome dado em homenagem ao sem-terra conhecido como "Keno", morto em um confronto com seguranças-milicianos na antiga estação da multinacional Syngenta. 

Projetos relacionados à agroecologia e a produção de alimentos sem uso de agrotóxicos, além da organização dos acampados e assentados por meio das "brigadas" foram alguns temas que chamaram a atenção da jornalista estadunidense nas entrevistas feitas com os sem-terra. Porém foi a educação que mais impressionou Lynette. Ela conheceu o projeto político-pedagógico das Escolas Itinerantes que, fugindo da lógica da educação formal trabalha a coletividade, em contraponto à escola capitalista que trabalha a individualidade de seus educandos. 

Esse blogueiro acompanhou parte do roteiro e aproveitou para bater um papo com a jornalista sobre algumas de suas impressões. A "prosa" contou com a ajuda da tradução da professora de inglês, Priscila Carvalho de Cruz, que também serviu de intérprete nas visitas aos acampamentos. 

Qual o motivo da visita à região Oeste do PR? 
[Lynette] Essa visita tem o objetivo de fazer uma reportagem para nossa agência de notícias da Igreja Anglicana e repassar algo aos norte-americanos, pois eles não entendem com funcionam os movimentos sociais e o envolvimento da Igreja com esses povos. 

Qual a visão dos estadunidenses em relação aos movimentos sociais? 
[Lynette] Eles não têm uma visão formada, pois não conhecem. Não há movimentos similares como esse [MST], especialmente os jovens, que por lá não costumam se organizar. Então essa é uma oportunidade de um outro continente conhecer e aprender algo com o movimento. 

Qual visão a Lynette leva dessas visitas? 
[Lynette] Na visita aos indígenas fiquei impressionada com a religiosidade. Já em relação ao movimento sem-terra o que me chamou mais atenção foi a organização, de como as pessoas estão envolvidas com o movimento, desde os jovens, especialmente por meio da educação dentro dos acampamentos. Acho importante esse ensino e a coragem de lutarem contra a monocultura, formando para a plantação sem o uso de agrotóxicos.

Jornalista norte-americana conheceu Escola Itinerante do MST