Mostrando postagens com marcador Eduardo Galeano. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Eduardo Galeano. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Eduardo Galeano, a FIFA e os "donos da bola"

Eduardo Galeano: paixão pelo futebol
A FIFA, que tem trono e corte em Zurique, o Comitê Olímpico Internacional, que reina de Lausanne e a empresa ISL Marketing, que tece seus negócios em Lucerna, manejam os campeonatos mundiais de futebol e as olimpíadas. Como se vê, as três poderosas organizações têm sua sede na Suíça, um país que ficou famoso pela pontaria de Guilherme Tell, a precisão de seus relógios e sua religiosa devoção ao sigilo bancário.

Casualmente, as três têm um extraordinário sentido do pudor em tudo o que se refere ao dinheiro que passa por suas mãos e ao que fica em suas mãos. A ISL Marketing possui, pelo menos até o final do século, os direitos exclusivos da venda da publicidade nos estádios, os filmes e videocassetes, as insígnias, flâmulas e mascotes das competições internacionais. Este negócio pertence aos herdeiros de Adolph Dassler, o fundador da empresa Adidas, irmão e inimigo do fundador da concorrente Puma. Quando outorgaram o monopólio desses direitos à família Dassler, Havelange e Samaranch estavam exercendo o nobre dever da gratidão.

A empresa Adidas, a maior fabricante de artigos esportivos do mundo, tinha contribuído muito generosamente para construir o poder dos dois. Em 1990, os Dassler venderam a Adidas ao empresário francês Bernard Tapie, mas ficaram com a ISL, que a família continua controlando em sociedade com a agência publicitária japonesa Dentsu. O poder sobre o esporte mundial não é coisa à toa. No final de 1994, falando em Nova York para um círculo de homens de negócios, Havelange confessou alguns números, o que nele não é nada freqüente:

— Posso afirmar que o movimento financeiro do futebol no mundo alcança, anualmente, a soma de 225 bilhões de dólares. E se vangloriou, comparando essa fortuna com os 136 bilhões de dólares faturados em 1993 pela General Motors, que encabeça a lista das maiores corporações multinacionais. Nesse mesmo discurso, Havelange advertiu que "o futebol é um produto comercial que deve ser vendido o mais sabiamente possível", e lembrou a primeira lei da sabedoria no mundo contemporâneo: - É preciso tomar muito cuidado com a embalagem. A venda dos direitos para a televisão é o veio que mais rende, dentro da pródiga mina das competições internacionais e a FIFA e o Comitê Olímpico Internacional recebem a parte do leão do que a telinha paga. O dinheiro multiplicou-se espetacularmente desde que a televisão começou a transmitir os torneios mundiais ao vivo para todos os países.

As Olimpíadas de Barcelona receberam da televisão, em 1993, seiscentas e trinta vezes mais dinheiro que as Olimpíadas de Roma em 1960, quando a transmissão só chegava ao âmbito nacional. E na hora de decidir quais serão as empresas anunciantes de cada torneio, tanto Havelange e Samaranch como a família Dassler são claros: é preciso escolher quem paga mais. A máquina que transforma toda paixão em dinheiro não pode se dar ao luxo de promover os produtos mais sadios e mais aconselháveis para a vida esportiva: pura e simplesmente se põe sempre a serviço da melhor oferta, e só lhe interessa saber se o Mastercard paga melhor ou pior do que o Visa e se a Fuji-film põe ou não põe sobre a mesa mais dinheiro que a Kodak. A Coca-Cola, nutritivo elixir que não pode faltar no corpo de nenhum atleta, encabeça sempre a lista. Suas virtudes milionárias a deixam fora de qualquer discussão.

Neste futebol de fim de século, tão pendente do marketing e dos sponsors, nada tem de surpreendente que alguns dos times mais importantes da Europa sejam empresas que pertencem a outras empresas. O Juventus, de Turim, faz parte, como a Fiat, do grupo Agnelli. O Milan integra a constelação de trezentas empresas do grupo Berlusconi. O Parma é da Parmalat. O Sampdoria, do grupo petroleiro Mantovani. O Fiorentina, do produtor de cinema Cecchi Gori. O Olympique de Marselha foi lançado ao primeiro plano do futebol europeu quando se transformou numa das empresas de Bernard Tapie, até que um escândalo provocado por um suborno arruinou o empresário de êxito.

O Paris Saint-Germain pertence ao Canal Plus da Televisão. A Peugeot, sponsor do Sochaux, é também dona de seu estádio. A Philips é a dona do time holandês PSV Eindhoven. Se chamam Bayer os dois clubes da primeira divisão alemã que a empresa financia: o Bayer Leverkusen e o Bayer Uerdingen. O inventor e dono dos computadores Astrad é também proprietário do time britânico Tottenham Hotspur, cujas ações são cotadas na bolsa, e o Blackburn Rover pertence ao grupo Walker. No Japão, onde o futebol profissional tem pouco tempo de vida, as principais empresas fundaram times e contrataram astros internacionais, a partir da certeza de que o futebol é um idioma universal que pode contribuir para a projeção de seus negócios no mundo inteiro. A empresa elétrica Furukawa fundou o Jeff United de Ichihara e contratou o astro alemão Pierre Littbarski e os tchecos Frantisek e Pavel. A Toyota criou o Grampus de Nagoya, que contou em suas fileiras com o artilheiro inglês Gary Lineker. O veterano mas sempre brilhante Zico jogou no Kashima, que pertence ao grupo industrial e financeiro Sumitomo. As empresas Mazda, Mitsubishi, Nissan, Panasonic e Japan Airlines também têm seus próprios times de futebol.

O time pode perder dinheiro, mas este detalhe carece de importância se propicia boa imagem à constelação de negócios que integra. Por isso, a propriedade não é secreta: o futebol serve à publicidade das empresas e no mundo não existe um instrumento de maior alcance popular para as relações públicas. Quando Silvio Berlusconi comprou o Milan, que estava em bancarrota, iniciou sua nova era desenvolvendo toda a coreografia de um grande lançamento publicitário. Numa tarde de 1987, os onze jogadores do Milan desceram lentamente de um helicóptero no centro do estádio, enquanto nos alto-falantes cavalgavamas Walkirias de Wagner. Bernard Tapie, outro especialista em seu próprio protagonismo, costumava celebrar as vitórias do Olympique com grandes festas, fulgurantes de fogos artificiais e raios laser, onde trepidavam as melhores bandas de rock.

O futebol, fonte de emoções populares, gera fama e poder. Os clubes que têm certa autonomia, e que não dependem diretamente de outras empresas, são habitualmente dirigidos por opacos homens de negócios e políticos de segunda que utilizam o futebol como uma catapulta de prestígio para lançar-se ao primeiro plano da popularidade. Há, também, raros casos inversos: homens que põem sua bem merecida fama a serviço do futebol, como o cantor inglês Elton John, que foi presidente do Watford, o time de seus amores, ou o diretor de cinema Francisco Lombardi, que preside o Sporting Cristal do Peru.


Trecho do livro 'Futebol ao sol e a sombra', de Eduardo Galeano

sábado, 22 de dezembro de 2012

Memórias do Chumbo: O Futebol nos Tempos do Condor

Médici cumprimenta delegação brasileira em 1970
Recuperar a memória, não com o objetivo de saudar o passado, mas para evitar que ele retorne. Essa frase foi dita pelo escritor Eduardo Galeano em entrevista ao documentário Memórias do Chumbo: O Futebol nos Tempos do Condor. O material é resultado de uma grande reportagem produzida pelo jornalista Lúcio de Castro exibida pela primeira vez entre os dias 18 e 21 de dezembro na ESPN Brasil. 

A série mostra como as ditaduras militares na América do Sul que integraram a Operação Condor - a 'multinacional do terror' criada para exterminar a oposição de esquerda aos governos ditatoriais - estiveram presentes no futebol. Muito já tinha se falado sobre o envolvimento do futebol e política e como o esporte foi usado como propaganda por esses regimes autoritários, porém, particularmente, acredito que esse deva ser o material mais aprofundado sobre essa relação. 

O esporte bretão e a pátria, o futebol e o povo, dois elementos que sempre estiveram unidos e com frequência políticos e ditadores especularam com esses vínculos de identidade. Mussolini usou as vitórias da seleção italiana para fortalecer o regime fascista na 'Velha Bota', assim como para os nazistas o futebol era uma "Questão de Estado" e para os franquistas espanhóis o Real Madri era um modelo de legitimação, uma espécie de "embaixada ambulante".

General Videla na Copa de 78
A grande reportagem de Lúcio de Castro passa por quatro países de nossa América: Argentina, Chile, Uruguai e Brasil – países que tem em comum a paixão pelo futebol e a política. São várias passagens marcantes nas quatro partes do programa; na Argentina onde há algumas quadras do Monumental de Nuñes – estádio do River Plate e principal palco dos jogos da Copa do Mundo de 1978 – funcionava um dos maiores centros de tortura da ditadura argentina.

Fatos marcantes da ditadura de Pinochet, a derrubada de Salvador Allende, a partida "kafkaniana" disputada por somente uma equipe e histórias do Estádio Nacional que serviu como campo de concentração das vítimas do regime. Histórias em terras charruas, do Mundialito de 1981 no Uruguai, a "subversão" do ex-zagueiro Hugo De Leon (que vestiu a camisa do Grêmio) e a primeira vez que o povo gritou: "Se va a acabar, se va a acabar la dictadura militar!".

Documentos e passagens reveladoras dos Anos de Chumbo no Brasil e da seleção que foi mais utilizada pelos militares: o excrete canarinho de 1970. Com um arquivo vasto de pesquisa, Lúcio esmiuçou o que foi esse período onde os setores conservadores e elitistas temiam a "ameaça vermelha", preocupavam-se com os ventos que sopravam do Caribe, com o charme dos barbudos de Sierra Maestra e com a possibilidade de "novos Vietnans" em pleno Cone Sul.

O "João Sem Medo"
Ditaduras tem o poder de confiscar símbolos nacionais e por aqui isso foi muito bem feito - como mostra o documentário. "Ame ou deixe-o" e "Pra Frente Brasil" que o digam. O programa detalha a perseguição implacável a João Saldanha, o "João Sem Medo". Comunista convicto, foi derrubado do cargo de técnico da Seleção pela ditadura e sofreu uma perseguição voraz dos militares, sendo inclusive proibido de fazer a cobertura esportiva da delegação brasileira no México. Então contratado pela BBC para fazer artigos sobre a copa, Saldanha teve credenciais negadas pela então CBD [Confederação Brasileira de Desportos] em virtude de seus comentários considerados "incendiários".

Memórias do Chumbo traz "furos jornalísticos" como o caso do major Roberto Câmara Guaranys – torturador do regime – que foi o chefe de segurança da delegação brasileira na Copa do México; uma entrevista com o jornalista Luis Claudio Cunha, autor do livro Operação Condor: o sequestro dos uruguaios, com detalhes do sequestro que teve participação do ex-jogador Didi Pedalada, que após passagens por vários clubes - entre eles o Internacional - foi prestar "serviços" ao DOPS gaúcho.

Revelações sobre o "Rei" que, após voltar campeão de terras astecas, foi ao DOPS dedurar "comunistas" que haviam lhe procurado no exterior para assinalar um documento contra a ditadura no Brasil e pedindo a anistia de presos políticos. A informação consta em documento oficial do 21 de outubro de 1970 que só agora aparece. Procurado pelo programa, Pelé e sua assessoria não se manifestaram sobre o assunto.

Memórias do Chumbo: O Futebol nos Tempos de Condor é uma ótima sugestão para aqueles que são apaixonados por história, por futebol e por política. Fundamental para pesquisadores destes tempos de censura, suspensão do direito de votar, intervenção em sindicatos, cassação de direitos políticos, proibição de atividades ou manifestações de natureza política e fim do Estado de Direito.

Agraciado pela participação especial de Eduardo Galeano – outro pesquisador sobre o tema – Lúcio de Castro foi autor de um trabalho jornalístico único. Um documento histórico primordial no momento em que se discute a recuperação da memória e se cobra punição àqueles que cassaram direitos dos trabalhadores, torturaram, assassinaram com garras do Condor e seguem impunes. 

"(...)a impunidade estimula o delinquente, seja um delinquente militar, civil, seja individual, seja coletivo, a impunidade é o motor maior para a repetição dos crimes". 
Eduardo Galeano

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

#15-O: Indignados ocupam ruas por democracia real

Panfletos foram espalhados pela cidade
Uma grande mobilização mundial está agendada para o dia 15 de outubro (sábado), unindo pessoas de todos os continentes num movimento chamado '15-O' que no Brasil adotou o nome de 'Democracia Real'. As convocações estão acontecendo via redes sociais, por meio do facebook ou pelo twitter com as chamadas tags: #globalchance, #15O ou #reasons15O.

O movimento é inspirado na onda de indignações pelo mundo, iniciada especialmente pela Primavera Árabe, passando pelas revoltas na zona do Euro (com menções especiais ao M-15 espanhol) e chegando até a recente ocupação de Wall Street, o maior centro financeiro do mundo em Nova Iorque.

No Brasil estão programados atos em aproximadamente 40 cidades de pelos 15 estados, além do Distrito Federal. No Paraná, quatro municípios participarão das mobilizações: Curitiba, Londrina, Paranavaí e Cascavel. Enquanto na capital a concentração está agendada para a Praça Santos Andrade; no 'velho oeste' o local escolhido é o Calçadão da avenida Brasil.

Segundo a página dos 'indignados' cascavelenses no facebook, a concentração será em frente a Igreja Matriz, em dois períodos, pela manhã às 9 h, e na tarde, das 14h às 18h. Um dos organizadores do movimento é o designer e programador Derek Willian Stavis. Um material convocando as pessoas a participarem do ato está circulando há algumas semanas e pode ser visto colado em alguns pontos centrais da cidade. No folder, o grupo chama a atenção para o atual sistema voltado ao autoritarismo e para uma "democracia voltada aos poderosos".

O panfleto menciona 500 anos de exploração do Brasil, sob o "saque de ruralistas, políticos corruptos e empreiteiros gananciosos". Pregando uma democracia participativa – por meio de assembleias livres, populares e amplas – o movimento é "contra a política suja de negociatas, de um sistema que concentra o poder nas mãos de uma minoria corrupta que nos representa".

A mobilização do 15-O em Cascavel tem semelhanças com manifestações recentes organizadas por jovens estudantes em repúdio aos atos de corrupção da administração municipal. Nessas ocasiões, as mobilizações também foram feitas via redes sociais, também tendo entre os organizadores um designer.

Diferente de alguns movimentos contra corrupção – organizados por determinados grupos políticos e dirigentes partidários – o atual movimento garante não ter conotação político-partidária, não se tratando de ideias políticas, religiosas ou filosóficas, mas sim uma questão de preocupação com o futuro do planeta.

O movimento é global e questiona o próprio processo eleitoral, onde os pleitos são decididos mesmo antes de acontecerem, especialmente pela dependência do poder financeiro, o que já mostra que não há pretensões eleitoreiras nas ações do grupo.

Como bem disse o escritor uruguaio Eduardo Galeano, em sua convocatória, 15 de outubro é o dia escolhido para celebração do "sagrado direito de indignação".


Mais informações na página: Democracia Real Brasil 
ou no facebook: Democracia Real Cascavel

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Che Guevara: 44 anos de renascimentos

Povoado de La Higuera, na Bolívia (foto: Marcelo Curia)
"A história não necessitou de que passasse o tempo para fazer-se lenda, agora me lembro da força profunda e bela que emanava, sem cessar, dentro deste homem. Tinha, recordo, um olhar como a alvorada: aquela maneira de olhar dos homens que crêem". Esse fragmento é retirado da obra 'CHE GUEVARA – Sierra Maestra: da guerrilha ao poder', do escritor e jornalista Eduardo Galeano.

O livro foi escrito pelo uruguaio em 1967, ano da morte do militante revolucionário Ernesto Guevara de La Sierna, conhecido também como Che, parafraseando título que dá nome a uma obra de Paco Ignacio Taibo, que na despretensiosa opinião deste blogueiro é uma das melhores biografias do guerrilheiro argentino.

Neste ano recordamos os 44 anos da morte do revolucionário. No dia 8 de outubro de 1967, ele foi capturado após combate com o exército boliviano e homens da CIA, num vale conhecido como Quebrada del Churo. Um dia depois de ser preso, Guevara foi executado no povoado de La Higuera. A data do combate inspirou no Brasil a criação do MR-8 (Movimento Revolucionário 8 de outubro), grupo de dissidentes do PCB (Partido Comunista Brasileiro), que durante a década de 1960, atuou na luta contra a ditadura civil-militar e por um estado socialista brasileiro.

Em Cuba, o argentino foi um dos protagonistas da revolução que derrubou o ditador Fulgêncio Batista e fez da ilha – antes um quintal do jet-set estadunidense – uma nação soberana. A ilha caribenha passou a adotar o 8 de Outubro como o "Dia do Guerrilheiro Heróico". Após sua morte nas serras bolivianas, Che foi transformado em mito - o que ainda dá arrepios nos 'reaças de plantão' que há mais de 40 anos tentam intensamente manchar a imagem do revolucionário.

Para algumas vozes conservadoras e reacionárias, o argentino era um "frio assassino", um "mau estrategista", um "péssimo burocrata", enfim, sobram adjetivações. A última delas e mais esdrúxula - que de praxe foi repercutida pela famosa revista semanal em suas páginas - é a "verdade inconveniente" de que Che Guevara cheirava mal por não gostar de tomar banho, o que lhe rendeu o apelido de "Chancho".  

Quando se pretende deturpar fatos é interessante visualizar como a linguagem é empregada. A trajetória de Che é uma amostra, mas temos como um dos principais exemplos o período da Guerra Fria, onde os 'inimigos' eram tachados de terroristas, guerrilheiros e rebeldes, e os aliados dos EUA, sempre 'combatentes da liberdade'.  

Deixando as deturpações de lado, Ernesto Che Guevara acreditava na revolução latino-americana e deixou um legado de solidariedade e voluntarismo, um compromisso com a luta pela libertação dos povos, revivendo grandes libertadores de nosso continente, como Bolívar e San Martin.

Nas palavras de Eduardo Galeano, "Che Guevara acreditava na revolução em seu doloroso processo, tinha fé na nova condição humana que o socialismo deveria engendrar". Ainda que isso incomode alguns, figuras como 'El chancho' seguem inspirando a imaginação, os sonhos e anseios das camadas que seguem sendo reprimidas e exploradas em nossa 'Pátria Grande'.

Abaixo uma poesia de Eduardo Galeano em homenagem a Che

Por que será que o Che
Tem este perigoso costume
De seguir sempre renascendo?
Quanto mais o insultam,
O manipulam
O atraiçoam
Mais ele renasce.
Ele é o mais renascedor de todos!
Não será por que Che
Dizia o que pensava e fazia o que dizia?
Não será por isso que segue sendo
tão extraordinário,
Num mundo onde palavras
e atos tão raramente se encontram?
E quando se encontram
raramente se saúdam
Por que não se reconhecem?

Mais sobre o revolucionário no link: “El chancho, os reaças e a Unasul”

sábado, 3 de setembro de 2011

Uma camêra na mão e Galeano na cabeça

O pequeno Waiki descansa no ombro do pai
"Não importa de onde vim, mas sim onde quero chegar". Essa frase do escritor e jornalista uruguaio Eduardo Galeano, que completou neste sábado 71 anos, descreve muito bem o sentimento de Fillipe Monteiro, 26, que tem como sonho conhecer o autor da citação. Acompanhado de sua família, o jovem de Muriaé - município mineiro de pouco mais de 100 mil habitantes - vem percorrendo vários Estados e países da América do Sul como Bolívia, Peru e Argentina.

Em Cascavel, muitos já devem ter visto e ouvido o trabalho do jovem, mas poucos conhecem seu desejo. Artista de rua, violinista, Fillipe carrega - além do case - uma câmera V-8 e uma 'ideia na cabeça', levando a frente à filosofia do saudoso Glauber Rocha. Junto com sua companheira July e o filho Waiki, (nome do dialeto quéchua que significa 'irmão espiritual'), Fillipe pretende chegar em Montevidéu, capital uruguaia. Sua intenção por lá é conhecer Eduardo Galeno.

Um dos maiores escritores e pensadores da América Latina na atualidade, o uruguaio é personagem central de um trabalho experimental que Fillipe vem realizando. O mineiro vem registrando seu trajeto pelas cidades onde passa com sua família, imagens avulsas e depoimentos de pessoas a respeito de Galeano, de sua obra e seus ideais. "Até o momento tenho duas horas de gravações, em algumas imagens avulsas quero inserir textos do Galeano que tenham relação com aquele momento exposto na imagem", explica.

Ao chegar em Montevidéu, Fillipe Monteiro tentará ter um encontro com Galeano e, se possível, entrevistá-lo para seu projeto. Ele sabe das dificuldades, mas afirma que o que lhe move é sua paixão pela América Latina e o trabalho do uruguaio. "Primeiro quero chegar até ele [Galeano] e mostrar o que fiz até o momento. Tenho o desejo de entrevistá-lo, mas se eu conseguir simplesmente conhecê-lo já estará de bom tamanho", diz Fillipe.

Na opinião do músico, o trabalho de Galeano precisa ser propagado, pois trata-se de uma referência quando o assunto é a nossa América. "Eu acho que o Galeno é um escritor boicotado, inclusive nos espaços acadêmicos. Acho que ele deveria ser leitura obrigatória para estudantes de história, jornalismo, ciências sociais", diz o mineiro que chegou a cursar Jornalismo por alguns meses.

Fillipe conta que após conhecer o trabalho de Galeano passou a entender melhor nosso continente. "Muitos sabem que vários países da América Latina sofreram com ditaduras militares, mas quando você lê Galeano começa a entender que não foram fatos isolados de cada país, começa a entender as conexões entre os golpes e visualizar uma exploração que ainda faz parte da vida de nosso continente", afirma Fillipe, referindo-se especialmente a obra mais conhecida do autor: As veias abertas da América Latina.

"Fiquei sabendo que ele [Eduardo Galeno] passa o verão europeu na Espanha e o verão da América no Uruguai, então iremos ficar aqui pela região até o fim de setembro pelo menos", prevê Fillipe. Depois dessa breve passagem pelo Oeste do Paraná, Fillipe, July e o pequeno Waiki, de 2 anos, seguem o rumo de uma viagem movida por um sonho e uma ideia na cabeça, afinal, o que realmente importa é onde eles querem chegar, já diria o escritor uruguaio.

Galeano completou 71 anos neste sábado (3), enquanto as Veias estão abertas há 40. Além da indicação dessa (‘bíblia pessoal’ deste blogueiro) e outras obras do uruguaio, compartilho abaixo uma entrevista do escritor que faz parte do projeto Sangue Latino, do Canal Brasil, onde o jornalista Eric Nepomuceno entrevista uma série de pensadores e intelectuais latinos.  


"Na América Latina, a liberdade de expressão consiste no direito ao resmungo em algum rádio ou em jornais de escassa circulação" (Eduardo Galeano)