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sábado, 26 de abril de 2014

Ato marcará Dia em Memória das Vítimas de Acidentes de Trabalho

Péssimas condições de trabalho em frigoríficos será um dos focos
O Dia Mundial em Memória das Vítimas de Acidentes e Doenças do Trabalho, 28 de abril, será lembrado com ato público em Cascavel. O evento é organizado pelo SintiAcre (Sindicato dos Trabalhadores na Indústria de Alimentação de Cascavel), Sindepospetro (Sindicato dos Empregados em Postos de Serviços de Combustíveis e Derivados de Petróleo de Cascavel e Região), APP-Sindicato-Núcleo Cascavel, MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) e Paróquia da Ascensão da Igreja Anglicana.

A concentração será a partir das 9 horas, na Boca Maldita, no calçadão da Avenida Brasil. Os manifestantes farão caminhadas até o Ministério do Trabalho e o INSS, onde entregarão uma carta aberta à população. O principal objetivo é chamar a atenção da sociedade para a gravidade dos acidentes de trabalho no Brasil, especialmente denunciar as péssimas condições de trabalho a que estão expostos os trabalhadores de frigoríficos avícolas e de carnes na região Oeste do Paraná.

As doenças do trabalho são comuns no processo de produção dos frigoríficos, pois a organização do trabalho geralmente ocorre em linhas de montagem, especialmente nas nórias, onde os frangos são pendurados, causando LER (Lesões por Esforço repetitivo) e DORT (Distúrbio Osteomuscular Relacionado ao Trabalho), além dos casos de mutilados. "Esses trabalhadores estão expostos a carga excessiva de jornada de trabalho, ambientes insalubres, gestos repetitivos, hora determinada para ida ao banheiro ou beber água", comenta o reverendo Luiz Carlos Gabas, da Igreja Anglicana de Cascavel.

Segundo dados da OIT (Organização Internacional do Trabalho), divulgados em 2013, 2 milhões de pessoas morrem por ano por conta de doenças ocupacionais no mundo. Já o número de acidentes de trabalho fatais ao ano chegam a 321 mil. Neste panorama, a cada 15 segundos, um trabalhador morre por conta de uma doença relacionada ao trabalho. No Brasil, são quase 4 mil mortes anualmente em decorrência de acidentes de trabalho. Os dados da OIT colocam o país como quarto colocado no ranking mundial de acidentes fatais de trabalho.

Porque 28 de abril?

Em 28 de abril de 1969, a explosão de uma mina nos Estados Unidos matou 78 trabalhadores. A tragédia marcou a data como o Dia Mundial em Memória às Vítimas de Acidentes do Trabalho. Encampando essa luta, mas com foco na prevenção, a Organização Internacional do Trabalho instituiu em 2003 o 28 de abril como o Dia Mundial de Segurança e Saúde no Trabalho.

segunda-feira, 24 de março de 2014

Caso Teixeirinha: Sem terra vão a júri popular nesta quarta-feira

Diniz Bento da Silva, o 'Teixeirinha', morto em 1993 
O caso de maior repercussão no cenário histórico de conflitos de terra que marcam a região Oeste do Paraná e que rendeu condenação ao Brasil na OEA (Organização dos Estados Americanos) terá novo capítulo nesta quarta-feira (26/03) no município de Guaraniaçu, onde será realizado o júri popular de cinco sem terra acusados da morte dos policiais militares Vicente de Freitas, Algacir José Bebber e Adelino Arconti. O fato aconteceu na ocupação da Fazenda Santana, em Campo Bonito, no dia 03 de março de 1993.

Durante a ocupação, os policiais foram até a fazenda acompanhar o madeireiro Adessir Cassol na retirada de máquinas do local. Por se tratarem de policiais à paisana (conhecidos como P2), os militares foram confundidos com pistoleiros, segundo a versão dos sem terra, que ainda alegaram que os policias teriam atirado primeiro, agindo assim em legítima defesa.

Na época, a PM fechou cerco ao acampamento dos sem terras e, segundo relatos de integrantes do movimento, torturou diversos ocupantes para que fossem revelados os envolvidos no incidente. Sete homens foram presos preventivamente e o líder dos sem terra Diniz Bento da Silva, o 'Teixeirinha' ficou foragido por cinco dias. Segundo denúncia do MST, após entregar-se desarmado aos policiais diante de testemunhas, Teixeirinha teria sido torturado e executado na frente da esposa e do filho de 13 anos no dia 8 de março de 1993.

Ainda conforme a versão dos sem terra, Teixeirinha havia se escondido da polícia, até saber que seu filho estava nas mãos dos policiais. Entregou-se, foi algemado e arrastado em direção à roça, onde moradores ouviram vários disparos de tiros. O caso teve repercussão internacional e levou o governo brasileiro a ser alvo do relatório, em 2001, da Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA e posteriormente ser condenado por violação do direito à vida.

Catorze policiais militares de batalhões de várias regiões do Paraná foram formalmente acusados pela morte de Teixeirinha, em denúncia oferecida à Justiça de Guaraniaçu. O processo que investigava a morte de Teixeirinha recém saiu da fase de inquérito, enquanto os sem terra irão ser julgados em júri popular.

Integrantes do MST prometem 'vermelhar' o município de Guaraniaçu para acompanhar o júri na cidade. Por outro lado, é evidente que os familiares e amigos dos policiais militares mortos deverão comparecer para acompanhar o julgamento, situação que pode acirrar os ânimos e requer atenção redobrada dos órgãos de segurança.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Cascavel, Cuba, Mandirituba: Itinerário de um militante

Éverton (à direita) em atendimento na Jornada de Agroecologia, em 2013
No fim de agosto de 2009, eu visitava uma casa simples no bairro do Santa Cruz, na região oeste de Cascavel, para conhecer um militante com então 23 anos que realizava o sonho de cursar medicina em Cuba. Na época, completava-se uma década de uma parceria entre os governos brasileiro e cubano – aliado com um trabalho de articulação de movimentos sociais – que proporciona a jovens brasileiros a oportunidade de estudar medicina no país caribenho, reconhecido internacionalmente pelo seu setor de saúde pública e gratuita.

Esse foi meu primeiro contato com o hoje médico formado, Everton Rodrigues Ferreira, militante do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Ele completava três anos de estudos em Cuba e me relatava sua experiência na ilha caribenha, falava de seus sonhos e de personagens que servem de inspiração para o povo cubano, como o Fidel Castro e Ernesto Che Guevara.


Cinco anos depois, já com uma relação de amizade com Éverton, recebo com felicidade a notícia que este militante teve confirmada sua inserção no programa Mais Médicos, do Governo Federal. É o fim de mais um ciclo na vida deste jovem lutador, que em março, rumara à Mandirituba, região metropolitana de Curitiba, para atuar no programa.


Desejando a ele bom trabalho e boa luta e para relembrar a trajetória do jovem médico nascido em Vera Cruz do Oeste, reproduzo a entrevista feita em 2009, então pelo jornal Tribuna das Cidades, quando Evérton esteve de passagem de férias na casa da mãe, dona Fátima. Segue abaixo a íntegra do bate papo.

Como surgiu a oportunidade de estudar em Cuba?
Everton Ferreira: Faz três anos que estou estudando em Cuba num projeto chamado Escola Latino Americana de Medicina, que desde 1999, oferece bolsas para estudantes que tem não oportunidade de estudar medicina em seus países. Esse convênio se dá através de organizações sociais e partidos políticos. Sou militante do Movimento Sem-Terra e do PCdoB (Partido Comunista do Brasil) e fui selecionado pelo movimento. Estudar medicina em um país socialista com a concepção que eles têm alimenta mais esse compromisso com a luta, de voltar para o Brasil e poder trabalhar e construir algo diferente.

Como é a medicina cubana?
EF: A medicina em Cuba é totalmente pública, não existe hospital privado, ou consultório ou algum médico que atenda de forma particular. Todos os serviços de medicina são públicos e gratuitos, desde a consulta até a realização de um exame, do mais simples ao mais complicado, até mesmo as internações, que tem altos custos. A medicina de Cuba se destaca por ser uma das melhores do mundo e a prova são índices de saúde que ela tem alcançado. Um índice interessante que indica essa qualidade é taxa de mortalidade infantil. Cuba ficou no ano passado [2008] com 4,7 mortes a cada mil nascidos vivos, que é o melhor índice da América. Os EUA, com toda a tecnologia e propaganda, são o terceiro colocado, tem 6 mortes para cada mil vivos. Para se ter uma ideia, o Brasil tem uma taxa de 19.

O foco é a medicina preventiva?
EF: Sim, tudo tem a ver com a prevenção, é outra forma de trabalho. Não é uma medicina mercantilista, direcionada ao lucro. No Brasil um médico fica esperando que a pessoa fique doente, o que chamamos de medicina clientelista. A melhor ideia de saúde que eu entendo é evitar que a pessoa fique doente, que não seja necessário que busque um médico. Um médico de família faz a medicina nas casas, faz acompanhamento do histórico de saúde da família, levando em conta alimentação, profissão, pois tudo isso está relacionado com o desenvolvimento de algumas doenças.

Como é a educação em Cuba?
EF: É totalmente gratuita, desde o jardim da infância até o curso superior. Gratuito e com muita qualidade. No ensino primário eles têm um limite de comportar no máximo 15 alunos por sala, já no fundamental e médio, no máximo 25. Isso representa uma capacidade de acompanhamento de cada aluno muito maior. Outro fator interessante é a questão do material didático, cada aluno tem acesso ao material didático de maneira completa, no ensino superior todos têm os livros necessários. São universidades, onde além de você não pagar mensalidade, você tem moradia, restaurantes universitário que oferece quatro refeições ao dia. Todo mês é entregue um kit de higiene e, como a maioria dos cursos são integrais, para estimular que os estudantes só estudem, eles dão um valor em dinheiro, que eles chamam de “estipêndio”, que é uma ajuda na complementação da alimentação, do transporte.

E o acesso à cultura?
EF: Isso é interessante, enquanto aqui no Brasil, a gente relaciona um balé ou ópera com quem tem dinheiro, lá é algo socializado. Pela primeira vez assisti um balé e uma ópera em Cuba e já perdi as contas de quantas vezes, pois é muito barato. Para eles, a cultura deve ser de acesso de todos. Isso é igualdade de possibilidade da pessoa se desenvolver. Você sai à noite e em todo lugar há um foco de uma manifestação cultural.

Porque tanta propaganda negativa de Cuba?
EF: Desde quando a revolução triunfou, Cuba passou a sofrer ataques, que vão desde medidas militares, econômicas, até propaganda ideológica. O único intuito é desmoralizar e desacreditar a revolução. Há muita propaganda manipulada. Nunca vi uma população com maior liberdade que os cubanos, na questão de se expressar. É uma população muito critica com a política do seu país e com a política internacional, são muitos politizados e tem muito conhecimento. Uma informação que não chega é que acontecem eleições periódicas, a cada cinco anos, a única diferença é que lá não há um limite para um governante se reeleger.

Como estão os cubanos em relação ao estado de saúde de Fidel Castro?
EF: Essa é uma informação que foi manipulada. Foi passada para fora a informação errada que quando o Fidel adoeceu, e caso ele morresse, os cubanos iriam para as ruas comemorar, mas foi muito pelo contrário. Primeiro não houve nenhuma manifestação, mas sim uma comoção geral da população. Nas escolas, as professoras estavam tristes e preocupadas como se estivessem preocupadas com um pai. O respeito pelo Fidel é muito grande, por toda sua história e moral.

Como jovem militante e estudante de medicina, Che Guevara lhe serve de inspiração?
EF: Por seus pensamentos, pela sua história e pelo fato da vivência em Cuba, obviamente que sim. Muitas vezes sua imagem acaba sendo banalizada, pois tornou-se uma ‘marca’. Em Cuba é diferente, por tudo que ele representou. Sua força de luta, sua ética, moral como militante e com um jovem de garra que acreditou em seus sonhos, em seus ideais. Obviamente que a figura do Che é um grande estímulo para todos em Cuba.

Há corrupção em Cuba?
EF: Nunca soube de um ato de corrupção em Cuba, mas na história isso já aconteceu, porém a punição que se tem para um político que rouba o Estado é bastante severa de uma maneira que inibe esses atos. Uma das maiores diferenças para o Brasil é que lá um político quando se candidata tem que estar com muita disposição de trabalhar, porque lá eles não ganham uma enormidade, o salário dele não se diferencia de um salário de outro trabalhador. Para se ter ideia, o presidente não ganha mais que um jornalista ou um professor em sala de aula e ainda não tem toda essa facilidade daqui, que além do salário, o político tem uma série de privilégios.

Há uma maior participação popular?
EF: O acompanhamento que o cubano tem sobre a política do seu país é muito mais séria e muito mais presente. A comunicação dos políticos com a população é maior. A vida de um governante de uma província é o cotidiano daquela população.

Quais seus planos após concluir o curso daqui três anos?
EF: O principal é voltar formado clínico geral, voltar a militar junto ao Movimento Sem Terra e como militante desta organização poder contribuir na continuidade da luta, com o compromisso de fortalecê-la.

sábado, 9 de novembro de 2013

Militante relata missão de solidariedade na Palestina

Armelindo Rosa, o Beá, em seminário na Unioeste
Uma brigada de solidariedade da Via Campesina esteve no mês de outubro em uma missão na Palestina. Batizada de Ghassan Kanafani – em menção ao escritor palestino marxista e um dos líderes da Frente Popular Pela Libertação da Palestina assassinado em 1972 – a brigada foi composta por 12 militantes do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) e da Alba (Aliança Bolivariana para as Américas). Por lá, o grupo conheceu a realidade do país árabe, os efeitos da ocupação do território palestino e as experiências de agricultura e resistência popular.

Presente na missão de solidariedade, o militante Armelindo Rosa da Maia, o popular 'Beá', da coordenação do MST no Paraná, fez um relato da viagem em seminário recente realizado na Unioeste (Universidade Estadual do Oeste do Paraná), campus de Cascavel. Para o sem-terra, a passagem pelo país árabe foi um grande aprendizado que serviu para a militância fazer um paralelo da luta cotidiana dos movimentos sociais, uma nova leitura do significado da reforma agrária e para desmistificar uma série de informações massificadas pela grande mídia sobre o conflito histórico entre judeus e palestinos.

Beá iniciou seu relato com um contexto histórico do conflito, iniciado em 1948 quando a ONU (Organização das Nações Unidas) decretou a criação do estado de Israel em área da Palestina. Desde então, Israel realiza um processo de colonização do estado palestino, ocupando hoje mais de 80% de todo o território. "O que acontece naquele território é diferente de tudo que a gente já viu. É uma região historicamente ocupada e o que vemos na mídia é muita desinformação, as vezes tratam o conflito como algo religioso, mas o que está em jogo é que aquela é uma região estratégica para o capital", comenta.  

O militante falou sobre o constante estado de terror dos palestinos. "Imagine o que é viver sob o medo, sabendo que a qualquer momento o exército pode invadir sua casa, com cidadãos sendo presos muitas vezes a revelia e forma ilegal". Atualmente são mais de 5 mil presos políticos palestinos por resistirem à ocupação, além disso existem mais de 7 milhões de refugiados, que foram expulsos de suas terras desde a criação do Estado de Israel.

Muitos palestinos estão proibidos de sair do país e a construção de um muro desde 2003 isola e prende os palestinos, confiscando as terras férteis dos camponeses. As crianças também são alvo e vítimas de torturas físicas e psicológicas, como relata Beá. "O que nos chocou muito foi o número de crianças presas, ao todo são 188. Em nossa cultura não submete-se castigos e torturas à crianças. Por lá elas ficam presas e passam por isolamento de 30 a 40 dias, numa cela sozinha e o primeiro contato depois disso é com o torturador, então a criança sai de lá achando que o exercito são os melhores caras do mundo", conta o militante.  

O processo de colonização do território palestina passa pela construção dos chamadas 'assentamentos israelenses', já denunciados por diversas vezes por organizações internacionais por violarem os direitos dos palestinos. Os assentamentos desalojam os palestinos, destroem seus cultivos e propriedades e os submetem à violência. Para Beá, os assentamentos contrastam com a miséria dos palestinos. "Diferente daqui, onde lutamos pela constituição de nossos assentamentos, por lá a palavra assentamento representa o horror. São mansões construídas na Cisjordânia, locais murados com hectares de bananas plantadas em estufas sendo constantemente irrigadas com água que é desviada das áreas palestina".

Durante a viagem, a brigada traçou paralelos da luta dos movimentos sociais de luta pela terra com a resistência do povo palestino. "A viagem valeu para cair a ficha sobre algumas coisas, como o fato que nossa militância precisa entender de vez que a reforma agrária também passa pela defesa de nossos territórios tradicionais, das terras indígenas, quilombolas, faxinalenses, ribeirinhos. Quando olhamos a luta indígena no Brasil nos faz lembrar do povo palestino, que tiveram suas terras tomadas paulatinamente", destaca o coordenador do MST.   

Questionado sobre como é possível grupos armados resistirem dentro de um território pequeno e sob o comando de Israel, Beá afirma que a própria resistência acaba sendo utilizada como tática do 'terror sionista'. "Isso ajuda a aumentar e legitimar a opressão do Sionismo,  pois são por essas ações de um povo que resiste que se justificam as piores reações", conclui o militante em seu relato.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Após seis anos, assassinato de Keno segue impune

Ato em memória de Keno realizado em 2012
Nesta segunda-feira, dia 21 de outubro de 2013, completa-se seis anos do assassinato do trabalhador sem-terra Valmir Mota de Oliveira, o Keno, na antiga fazenda da multinacional Syngenta Seeds, em Santa Tereza do Oeste. O militante foi morto após um ataque de uma milícia armada contratada pela empresa após a ocupação da área de 127 hectares, onde a multinacional suíça mantinha desde 1998 um campo experimental. A ação ainda deixou vários feridos. 

A luta das famílias camponesas, que organizaram o Acampamento Terra Livre e que permaneceram resistindo por mais de dois anos no espaço, juntamente com o grande apoio e solidariedade recebidos por organizações de várias partes do mundo, foi primordial para a importante vitória obtida pelos trabalhadores camponeses. Foi mediante a grande repercussão do caso e a condenação da sociedade à ação armada da multinacional que, em 2008, a Syngenta teve que transferir a posse da área para o Governo do Paraná.

A empresa suíça Syngenta Seeds, detentora de 19% do mercado de agroquímica e a terceira de maior lucro na comercialização de sementes no mundo instala em 1998 uma sede em Santa Tereza do Oeste. Atenta aos crimes ambientais e ao desrespeito a legislação, a Via Campesina denúncia as irregularidades a órgãos nacionais e internacionais e a empresa é multada em R$ 1 milhão pelo Ibama.

No dia 14 de março de 2006, a área é ocupada, com ampla repercussão internacional. As 70 famílias camponesas permanecem até novembro de 2006 no local, quando o Estado do Paraná cumpre liminar de reintegração de posse expedida pela Justiça de Cascavel. As famílias retornam ao local depois que a área foi desapropriada pelo governo para a criação de um Centro de Agroecologia.

Em 18 de julho de 2007, os sem-terra cumprem ordem judicial e as famílias se deslocam para o assentamento Olga Benário, em Santa Tereza do Oeste. Em outubro de 2007, a área é reocupada, após os rumores de que a terra estava sendo preparada para plantação de soja e milho transgênico, o que desrespeita a regras de um centro de agroecologia.

Após a nova ocupação, em uma ação covarde e sorrateira de uma milícia contratada pela multinacional, pelo menos 10 sem-terra são feridos e um deles é executado. No confronto, um dos milicianos também é morto. O caso é denunciado em todo o Brasil, em tribunais internacionais, entre eles, o país de origem da empresa. A longa resistência da Via Campesina e do MST garantem a conquista da área e o compromisso do Estado.     

Passados seis anos do episódio – que também vitimou um dos seguranças contratados pela empresa – o crime segue impune. Da mesma forma, a multinacional segue recorrendo da multa de R$ 1 milhão de reais imposta pelo IBAMA, pelos experimentos na área de amortecimento do Parque Nacional do Iguaçu, patrimônio da humanidade declarado pela Unesco.

A ação penal que apura as responsabilidades pelo assassinato ainda está longe do fim, já que o processo ainda não ultrapassou a fase de oitivas de testemunhas. Depois de ouvidas todas as testemunhas, o juiz decidirá quem irá a júri popular pelo assassinato de Keno e do funcionário da NF Segurança Fábio Ferreira.

Após o episódio, o próprio embaixador suíço Rudolf Bärfuss pediu desculpas a Íris Oliveira, com as seguintes palavras. "Em nome do governo do meu país, eu quero pedir desculpas". Na época, Íris entregou uma carta ao embaixador exigindo que o governo suíço ajudasse na punição à Syngenta pelo ato de violência e pelos crimes ambientais dos quais é acusada.

As investigações feitas pela polícia responsabilizaram nove pessoas contratadas pela NF Segurança, assim como o proprietário da Empresa, Nerci de Freitas, e o ruralista Alessandro Meneghel pelo assassinato de Keno, isentando a Syngenta de responsabilidade criminal por falta de provas.

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Stédile: "Para burguesia, mídia é seu patrimônio sagrado"

Coletiva com Stédile na Escola Milton Santos [foto: Paulo Porto]
"Os meios de comunicação do Brasil se transformaram numa arma da burguesia, num negócio que lucra financeiramente e pela reprodução das ideias da classe dominante".  Quem opina é o militante João Pedro Stédile, da coordenação nacional do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) e da Via Campesina, que entre os dias 07 e 10 de agosto esteve presente na 12ª Jornada de Agroecologia, realizada na Escola Milton Santos, em Maringá (PR).

A declaração acima foi uma resposta a questionamento surgido em entrevista coletiva ao Setor de Comunicação da Jornada e veículos alternativos, entre eles o Sítio Coletivo, sobre os motivos para o governo Dilma Rousseff evitar o debate sobre a regulamentação e democratização dos meios de comunicação.  Para Stédile, a fuga do tema da mídia faz parte da política de aliança de conciliação de classes caracterizada no governo.

O líder da Via Campesina fez uma analogia a luta pela terra. "O tema da democratização da comunicação é muito parecido com a Reforma Agrária, porque ele propõe democratizar algo que a burguesia tem como patrimônio sagrado deles", afirma Stédile. Apesar desse cenário, o militante é otimista que esse debate possa avançar a partir da série de manifestações nas ruas que vem acontecendo pelo país. "Não foi a toa que vários protestos terminaram na porta da Globo", destacou.

Stédile destacou iniciativas populares que buscam a democratização dos meios de comunicação, como o Projeto de Lei de Iniciativa Popular, proposta pelo FNDC (Fórum Nacional de Democratização da Comunicação), onde os movimentos sociais estão colhendo assinatura para levar um projeto de lei ao Congresso tendo como principal objetivo regulamentar os artigos da Constituição Federal que versam sobre Comunicação Social. 

Para João Pedro Stédile, essa iniciativa foi motivada pelo abandono do projeto de regulação dos meios de comunicação por parte do governo federal.  "Foi um recado dos movimentos sociais para o ministro Paulo Bernardo [Comunicações]: já que vocês têm vergonha do filho de vocês, nós estamos adotando", disse o militante, ressaltando que a uma democratização real da mídia só será possível com um amplo movimento popular nas ruas.  "Essa luta só está começando", concluiu.

Indígenas

A questão indígena também esteve em pauta na coletiva com Stédile. Questionado por esse blogueiro sobre o atual cenário de luta dos povos tradicionais, ele declarou apoio e total solidariedade da Via Campesina a questão que considera 'intocável'. "Temos a obrigação moral de preservar as terras tradicionais, isso não se trata de folclore, mas de uma questão ética com esses povos que vem sendo massacrados ao longo da história", destacou.

Indagado sobre o avanço do agronegócio aos territórios indígenas, o membro da direção do MST destacou que a preocupação dos grandes proprietários de terra refere-se à politização do embate. "No início eles [indígenas] acreditavam na lei e governo, agora eles passaram a entender que trata-se de luta de classes", ressaltou Stédile, que considera que no cenário atual as demarcações de terras tradicionais representam o grande entrave ao avanço do agronegócio.

Jornada

Com o lema "Terra Livre de Transgênicos e Sem Agrotóxicos", a Jornada de Agroecologia 2013 visou a construção de um Projeto Popular e Soberano para a agricultura, em contrapartida às empresas transnacionais do agronegócio. Aproximadamente 3,5 mil pessoas participaram da edição que foi encerrada com o lançamento do Plano Nacional de Agroecologia, além da aprovação de moções por uma constituinte exclusiva para uma reforma política no Brasil;  de repúdio aos esquemas de espionagem do Governo dos Estados Unidos contra o Brasil, América Latina e o Mundo; de apoio à Escola Milton Santos e em apoio aos povos indígenas e comunidades tradicionais, que têm sofrido inúmeras violações por parte de latifundiários e do poder público.

 Confira mais imagens da 12ª Jornada de Agroecologia neste link

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Íris de Oliveira: A memória e o legado de Keno

Mística em memória aos cinco anos do assassinato de Keno
"Nunca desisti, nunca pensei em sair do movimento ou deixar de lutar pela terra". A frase de Íris de Oliveira, viúva do trabalhador rural Valmir Mota de Oliveira, o Keno, é emblemática e retrata o sentimento de trabalhadores camponeses que driblam dificuldades, o preconceito elitista, superando entre outros obstáculos, a dor da perda de entes queridos, e seguem  lutando pela alteração de um modelo fundiário de estrutura 'pré-capitalista', lutando pela Reforma Agrária.

No fim de outubro, Íris participou em Santa Tereza do Oeste de um ato em memória ao assassinato de seu ex-marido. Organizado por integrantes da Via Campesina e do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra), o evento reuniu aproximadamente 500 pessoas na estação da IAPAR, local onde ocorreu o crime cometido por pessoas ligadas à NF Segurança, empresa contratada pela Synenta Seeds, multinacional que mantinha na área experimentos ilegais com transgênicos e que desrespeitava leis nacionais de biodiversidade.

Passados cinco anos do episódio – que também vitimou um dos seguranças contratados pela empresa – os integrantes da milícia armada permanecem impunes. Da mesma forma, a multinacional segue recorrendo da multa de R$ 1 milhão de reais imposta pelo IBAMA, pelos experimentos na área de amortecimento do Parque Nacional do Iguaçu, patrimônio da humanidade declarado pela Unesco.

A ação penal que apura as responsabilidades pelo assassinato ainda está longe do fim, já que o processo ainda não ultrapassou a fase de oitivas de testemunhas. Depois de ouvidas todas as testemunhas, o juiz decidirá quem irá a júri popular pelo assassinato de Keno e do funcionário da NF Segurança Fábio Ferreira.

Após o episódio, o próprio embaixador suíço Rudolf Bärfuss pediu desculpas a Íris Oliveira, com a seguintes palavras. "Em nome do governo do meu país, eu quero pedir desculpas". Na época, Íris entregou uma carta ao embaixador exigindo que o governo suíço ajudasse na punição à Syngenta pelo ato de violência e pelos crimes ambientais dos quais é acusada.

As investigações feitas pela polícia responsabilizaram nove pessoas contratadas pela NF Segurança, assim como o proprietário da Empresa, Nerci de Freitas, e o ruralista Alessandro Meneghel pelo assassinato de Keno, isentando a Syngenta de responsabilidade criminal por falta de provas.

Em recente conversa com o Sítio Coletivo, Íris falou da dor que permanece latente, mas de como o episódio fortaleceu suas convicções e não lhe fez desistir da luta pela terra. No bate papo com esse blogueiro, Íris também falou da conquista do lote no assentamento que leva o nome de seu ex-esposo, situado às margens da BR-277, em Cascavel. Confira abaixo trechos da conversa.

[Sítio] Memória
[Íris] Para nós da família, para mim que fui sua esposa, para nossos filhos, é muito gratificante essa homenagem que o movimento fez. Não esperávamos que a família do movimento fosse tão grande, não tenho nem o que falar deste ato em memória do Keno, é muito importante o que está acontecendo, ver que ele não foi e jamais será esquecido por esses trabalhadores.

Força para continuar
Em primeiro lugar eu nunca desisti após a morte do Keno, sua morte nunca me fez pensar em sair do movimento ou dizer agora vou parar com a luta. Na verdade isso me deu mais força e, junto com meus dois filhos, continuamos nossa luta.

Conquista da terra
A conquista do lote foi muito especial, apesar do Keno não estar com a gente pessoalmente, mas ele estava em memória, na minha, dos nossos meninos e de todos aqueles que conquistaram seus lotes. Foi uma grande conquista e para aqueles que achavam que nós iríamos se calar, mandamos o recado que não nos calaremos.

Desafio
Tocar o assentamento Valmir Mota para frente, onde o Keno estiver ele ficará admirado com nós, o assentamento é muito importante. É uma luta que ele conquistou junto com nós, a luta pela terra, pela produção orgânica no assentamento.

Legado

Apesar do Keno não estar aqui, tenho que certeza que todos que participaram deste ato veem a importância dele na nossa vida, na vida do movimento aqui na região. No dia do sorteio dos lotes foi muito triste ele não estar lá, mas eu tenho certeza que de onde ele está hoje, ele viu a felicidade de cada um, dos seus filhos, que hoje estão num lugar bem colocado. Uma conquista que também foi dele.

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

No "mês das crianças", Sem Terrinhas lutam por direitos

Trio sem terrinha faz leitura da pauta de reivindicações

Aprender desde cedo o valor da luta pela terra, pelo direito de estudar e pela dignidade. É com essa lição - para além da educação formal - que crianças camponesas, filhos e filhas de trabalhadores do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) saem em busca de direitos que ainda parecem "privilégios". É no tradicional "mês das crianças", que anualmente é organizada a Jornada Nacional dos Sem Terrinha.

Realizada desde 1996 pelo Setor de Educação do movimento, a Jornada deste ano ocupou nesta quarta-feira (31/10) sedes de pelo menos 16 Núcleos Regionais de Educação, além da SEED (Secretaria Estadual de Educação do Estado do Paraná).

A mobilização dos Sem Terrinhas, iniciada nesta terça-feira (30) dentro dos assentamentos e acampamentos, tem por objetivo denunciar a ausência do governo municipal e estadual no atendimento às demandas da educação no campo e também pressioná-los a atender a pauta de reivindicações do movimento social de luta pela terra.

Em Cascavel, aproximadamente 100 crianças com idade entre 05 e 12 anos estiveram na sede do Núcleo Regional, acompanhadas de mães e professoras de quatro acampamentos e um assentamento da região de Cascavel. Após a leitura da pauta feita pelo trio sem terrinha, Mailson Moreira (10 anos), Aline Salvador (09) e Milene Moreira (09), o chefe do Núcleo, professor Vander Piaia, recebeu as reivindicações do movimento.

As principais demandas giram em torno da construção, reforma e ampliação de colégios estaduais em assentamentos para que possam oferecer educação profissionalizante e técnica, garantindo toda estrutura necessária para dar qualidade ao ensino.

Além do atendimento apropriado às crianças com necessidades especiais nas Escolas Itinerantes, à garantia de transporte escolar seguro e suficiente para os estudantes, melhores condições de trabalho aos professores e a garantia do deslocamento dos educadores até as escolas e melhoria da merenda escolar, sendo no mínimo 30% da agricultura familiar.

Escolas no campo

A luta por educação é uma necessidade permanente no MST, visto que muitas escolas estão sendo fechadas no campo. Muitos assentamentos não têm escolas e os que têm a infraestrutura é precária e com o atendimento somente nos anos iniciais do Ensino Fundamental. A mobilização denunciou o fechamento dessas escolas do campo. Nos últimos anos, segundo levantamento do Setor de Educação, foram fechadas mais de 37 mil escolas rurais em todo o Brasil, sendo que só no Paraná - na década de 2000 - foram fechadas 44% das escolas da zona rural.

Além da negociação das demandas das escolas e dos assentamentos, a Jornada dos Sem Terrinha constitui-se numa atividade pedagógica de grande valor do movimento que contrapõe o paradigma da educação formal, pensando a infância na perspectiva de um projeto de emancipação humana.

São com palavras de ordem como "Escola itinerante chegou para ficar, lutando pela terra e o direito de estudar!" ou "Che, Zumbi, Antonio Conselheiro; na luta por justiça, somos todos companheiros!",  que as crianças camponesas fortalecem sua identidade sem terra.  São nas jornadas que os filhos e filhas dos agricultores aprendem valores de forma lúdica e pedagógica. No mês dos "presentes e das travessuras", os Sem Terrinha aprendem a lição que na sociedade das desigualdades é preciso lutar desde cedo para que direitos deixem de ser privilégios.

Sem Terrinhas no Núcleo Regional de Educação de Cascavel

domingo, 21 de outubro de 2012

Keno Vive: Ato lembrará os cinco anos do assassinato

Valmir Mota de Oliveira, o Keno, assassinado em 2007

Neste domingo, dia 21 de outubro, completam-se cinco anos do assassinato do trabalhador sem-terra Valmir Mota de Oliveira, o Keno. Como lembrança da data, trabalhadores camponeses da Via Campesina e do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra) promovem um ato político batizado de "Keno Vive" nesta segunda-feira (22) no Centro de Ensino e Pesquisa em Agroecologia Valmir Mota de Oliveira, local onde funcionava a antiga fazenda da multinacional Syngenta Seeds, em Santa Tereza do Oeste.

Keno foi morto após um ataque de uma milícia armada contratada pela empresa após a ocupação da área de 127 hectares, onde a multinacional suíça mantinha desde 1998 um campo experimental. Em 2006, a Via Campesina denuncia crimes cometido pela empresa, como o desrespeito ambiental e do Plano de Manejo do Parque Nacional do Iguaçu. A Syngenta realizava experimentos com soja e milho geneticamente modificados, o que em março de 2006, levou o Ibama a multar a empresa no valor de R$ 1 milhão, dívida até hoje não paga.

A luta das famílias camponesas, que organizaram o Acampamento Terra Livre e que permaneceram resistindo por mais de dois anos no espaço, juntamente com o grande apoio e solidariedade recebidos por organizações de várias partes do mundo, foi primordial para a importante vitória obtida pelos trabalhadores camponeses. Foi mediante a grande repercussão do caso e a condenação da sociedade à ação armada da multinacional que, em 2008, a Syngenta teve que transferir a posse da área para o Governo do Paraná.

Com o objetivo de fazer o resgate histórico de luta e resistência das famílias camponesas, mantendo viva a chama de rebeldia e indignação que fortalece a necessidade de seguir denunciando os crimes do agronegócio, lutando pela Reforma Agrária e contra a utilização dos transgênicos e agrotóxicos em nosso alimento, é que a Via Campesina e o MST convidam a sociedade a participar do ato no Centro de Ensino e Pesquisa, administrado atualmente pela Iapar (Instituto Ambiental do Paraná), que leva o nome do militante morto em há cinco anos.

Histórico

A empresa suíça Syngenta Seeds, detentora de 19% do mercado de agroquímica e a terceira de maior lucro na comercialização de sementes no mundo instala em 1998 uma sede em Santa Tereza do Oeste. Atenta aos crimes ambientais e ao desrespeito a legislação, a Via Campesina denúncia as irregularidades a órgãos nacionais e internacionais e a empresa é multada em R$ 1 mi pelo Ibama.

No dia 14 de março de 2006, a área é ocupada, com ampla repercussão internacional. As 70 famílias camponesas permanecem até novembro de 2006 no local, quando o Estado do Paraná cumpre liminar de reintegração de posse expedida pela Justiça de Cascavel. As famílias retornam ao local depois que a área foi desapropriada pelo governo para a criação de um Centro de Agroecologia. 

Em 18 de julho de 2007, os sem-terra cumprem ordem judicial e as famílias se deslocam para o assentamento Olga Benário, em Santa Tereza do Oeste. Em outubro de 2007, a área é reocupada, após os rumores de que a terra estava sendo preparada para plantação de soja e milho transgênico, o que desrespeita a regras de um centro de agroecologia.

Após a nova ocupação, em uma ação covarde e sorrateira de uma milícia contratada pela multinacional, pelo menos 10 sem-terra são feridos e um deles é executado. No confronto, um dos milicianos também é morto. O caso é denunciado em todo o Brasil, em tribunais internacionais, entre eles, o país de origem da empresa. A longa resistência da Via Campesina e do MST garantem a conquista da área e o compromisso do Estado.