quarta-feira, 27 de maio de 2015

Eduardo Galeano, a FIFA e os "donos da bola"

Eduardo Galeano: paixão pelo futebol
A FIFA, que tem trono e corte em Zurique, o Comitê Olímpico Internacional, que reina de Lausanne e a empresa ISL Marketing, que tece seus negócios em Lucerna, manejam os campeonatos mundiais de futebol e as olimpíadas. Como se vê, as três poderosas organizações têm sua sede na Suíça, um país que ficou famoso pela pontaria de Guilherme Tell, a precisão de seus relógios e sua religiosa devoção ao sigilo bancário.

Casualmente, as três têm um extraordinário sentido do pudor em tudo o que se refere ao dinheiro que passa por suas mãos e ao que fica em suas mãos. A ISL Marketing possui, pelo menos até o final do século, os direitos exclusivos da venda da publicidade nos estádios, os filmes e videocassetes, as insígnias, flâmulas e mascotes das competições internacionais. Este negócio pertence aos herdeiros de Adolph Dassler, o fundador da empresa Adidas, irmão e inimigo do fundador da concorrente Puma. Quando outorgaram o monopólio desses direitos à família Dassler, Havelange e Samaranch estavam exercendo o nobre dever da gratidão.

A empresa Adidas, a maior fabricante de artigos esportivos do mundo, tinha contribuído muito generosamente para construir o poder dos dois. Em 1990, os Dassler venderam a Adidas ao empresário francês Bernard Tapie, mas ficaram com a ISL, que a família continua controlando em sociedade com a agência publicitária japonesa Dentsu. O poder sobre o esporte mundial não é coisa à toa. No final de 1994, falando em Nova York para um círculo de homens de negócios, Havelange confessou alguns números, o que nele não é nada freqüente:

— Posso afirmar que o movimento financeiro do futebol no mundo alcança, anualmente, a soma de 225 bilhões de dólares. E se vangloriou, comparando essa fortuna com os 136 bilhões de dólares faturados em 1993 pela General Motors, que encabeça a lista das maiores corporações multinacionais. Nesse mesmo discurso, Havelange advertiu que "o futebol é um produto comercial que deve ser vendido o mais sabiamente possível", e lembrou a primeira lei da sabedoria no mundo contemporâneo: - É preciso tomar muito cuidado com a embalagem. A venda dos direitos para a televisão é o veio que mais rende, dentro da pródiga mina das competições internacionais e a FIFA e o Comitê Olímpico Internacional recebem a parte do leão do que a telinha paga. O dinheiro multiplicou-se espetacularmente desde que a televisão começou a transmitir os torneios mundiais ao vivo para todos os países.

As Olimpíadas de Barcelona receberam da televisão, em 1993, seiscentas e trinta vezes mais dinheiro que as Olimpíadas de Roma em 1960, quando a transmissão só chegava ao âmbito nacional. E na hora de decidir quais serão as empresas anunciantes de cada torneio, tanto Havelange e Samaranch como a família Dassler são claros: é preciso escolher quem paga mais. A máquina que transforma toda paixão em dinheiro não pode se dar ao luxo de promover os produtos mais sadios e mais aconselháveis para a vida esportiva: pura e simplesmente se põe sempre a serviço da melhor oferta, e só lhe interessa saber se o Mastercard paga melhor ou pior do que o Visa e se a Fuji-film põe ou não põe sobre a mesa mais dinheiro que a Kodak. A Coca-Cola, nutritivo elixir que não pode faltar no corpo de nenhum atleta, encabeça sempre a lista. Suas virtudes milionárias a deixam fora de qualquer discussão.

Neste futebol de fim de século, tão pendente do marketing e dos sponsors, nada tem de surpreendente que alguns dos times mais importantes da Europa sejam empresas que pertencem a outras empresas. O Juventus, de Turim, faz parte, como a Fiat, do grupo Agnelli. O Milan integra a constelação de trezentas empresas do grupo Berlusconi. O Parma é da Parmalat. O Sampdoria, do grupo petroleiro Mantovani. O Fiorentina, do produtor de cinema Cecchi Gori. O Olympique de Marselha foi lançado ao primeiro plano do futebol europeu quando se transformou numa das empresas de Bernard Tapie, até que um escândalo provocado por um suborno arruinou o empresário de êxito.

O Paris Saint-Germain pertence ao Canal Plus da Televisão. A Peugeot, sponsor do Sochaux, é também dona de seu estádio. A Philips é a dona do time holandês PSV Eindhoven. Se chamam Bayer os dois clubes da primeira divisão alemã que a empresa financia: o Bayer Leverkusen e o Bayer Uerdingen. O inventor e dono dos computadores Astrad é também proprietário do time britânico Tottenham Hotspur, cujas ações são cotadas na bolsa, e o Blackburn Rover pertence ao grupo Walker. No Japão, onde o futebol profissional tem pouco tempo de vida, as principais empresas fundaram times e contrataram astros internacionais, a partir da certeza de que o futebol é um idioma universal que pode contribuir para a projeção de seus negócios no mundo inteiro. A empresa elétrica Furukawa fundou o Jeff United de Ichihara e contratou o astro alemão Pierre Littbarski e os tchecos Frantisek e Pavel. A Toyota criou o Grampus de Nagoya, que contou em suas fileiras com o artilheiro inglês Gary Lineker. O veterano mas sempre brilhante Zico jogou no Kashima, que pertence ao grupo industrial e financeiro Sumitomo. As empresas Mazda, Mitsubishi, Nissan, Panasonic e Japan Airlines também têm seus próprios times de futebol.

O time pode perder dinheiro, mas este detalhe carece de importância se propicia boa imagem à constelação de negócios que integra. Por isso, a propriedade não é secreta: o futebol serve à publicidade das empresas e no mundo não existe um instrumento de maior alcance popular para as relações públicas. Quando Silvio Berlusconi comprou o Milan, que estava em bancarrota, iniciou sua nova era desenvolvendo toda a coreografia de um grande lançamento publicitário. Numa tarde de 1987, os onze jogadores do Milan desceram lentamente de um helicóptero no centro do estádio, enquanto nos alto-falantes cavalgavamas Walkirias de Wagner. Bernard Tapie, outro especialista em seu próprio protagonismo, costumava celebrar as vitórias do Olympique com grandes festas, fulgurantes de fogos artificiais e raios laser, onde trepidavam as melhores bandas de rock.

O futebol, fonte de emoções populares, gera fama e poder. Os clubes que têm certa autonomia, e que não dependem diretamente de outras empresas, são habitualmente dirigidos por opacos homens de negócios e políticos de segunda que utilizam o futebol como uma catapulta de prestígio para lançar-se ao primeiro plano da popularidade. Há, também, raros casos inversos: homens que põem sua bem merecida fama a serviço do futebol, como o cantor inglês Elton John, que foi presidente do Watford, o time de seus amores, ou o diretor de cinema Francisco Lombardi, que preside o Sporting Cristal do Peru.


Trecho do livro 'Futebol ao sol e a sombra', de Eduardo Galeano

sábado, 2 de maio de 2015

Jornalistas promovem ato público contra perseguição à categoria no Paraná

Caminhada do Primeiro de Maio em Curitiba [foto: Manoel Ramires]
Neste domingo, 3 de maio, data que marca a comemoração do Dia Mundial da Liberdade de Imprensa, jornalistas paranaenses farão uma manifestação pública em Curitiba em defesa da categoria que vem sofrendo com perseguições e ameaças pelo Estado. O ato, organizado pelo Sindijor-PR (Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Paraná) e pelo Sindicato dos Jornalistas do Norte do Paraná, acontecerá na Feira do Largo da Ordem, a partir das 10 horas.

Na oportunidade será lançada a campanha "BASTA: Chega de perseguição à jornalistas". Os trabalhadores irão vestir preto em luto e repúdio às tentativas de cerceamento o livre exercício profissional. Serão distribuídos panfletos a população e camisetas à categoria.


"A liberdade de imprensa é um direito dos jornalistas de fazer circular livremente as informações, um pressuposto para garantir a democracia. O contrário dela é a censura que limita o poder de ação da imprensa de acordo com seus interesses particulares", comenta Guilherme Carvalho, presidente do Sindijor-PR.


Nesta sexta-feira, 1º de maio, jornalistas também foram as ruas e participaram das manifestações em defesa dos trabalhadores, somando-se na luta dos servidores estaduais contra agressões e perseguições. Eles se juntaram aos servidores na caminhada e no ato no Centro Cívico.

quarta-feira, 4 de março de 2015

Crônica: Estádios e lutas populares

Assembleia dos educadores na Vila Capanema [foto: Joka Madruga]

* Por Manoel Ramires

Atualmente o Paraná Clube é considerado o primo pobre dos clubes da capital paranaense, atrás de Atlético Paranaense e Coritiba. Mas nem sempre foi assim. Sendo resultado da fusão do Pinheiros e Colorado, que também vieram de outra fusões, o time foi seis vezes campeão estadual em dez anos. Possuía a maior sede social e seus frequentadores pertenciam à elite curitibana. No entanto, essa história foi se diluindo e o time de futebol atravessando más fases, estando há sete anos na Série B do futebol nacional e correndo o risco de fechar no fim do ano, segundo um diretor.

Seria um final trágico para o tricolor da Vila Capanema, cujo estádio, Durival Britto e Silva, que era superintendente da Rede de Viação Paraná-Santa Catarina, foi uma doação para o time de futebol formado por seus funcionários, em 1947. Contudo, uma nova áurea pode ter atingido o estádio nesta data: 4 de março de 2015. Neste dia, cerca de 20 mil professores rejeitaram a proposta governamental e decidiram continuar greve contra atrasos salariais e a tentativa do governador Carlos Alberto Richa de se apropriar da Previdência dos trabalhadores.

Agora, a Vila Capanema se une a seleta história de estádios de futebol que foram utilizados a favor da luta dos trabalhadores, na luta de classes. Um deles foi São Januário, do Vasco da Gama, na década de 1940. O Gigante da Colina abrigou as festividades do 1º de Maio em 1941, 42, 43, 45 e 51, promovidas por Getúlio Vargas. Foi neste estádio, por exemplo, que foram anunciadas a criação do salário mínimo e da Justiça do Trabalho. Com média de público de 40 mil pessoas, ocorriam discursos e partidas de futebol, inclusive de times sindicais, como em 1945. Cabe destacar que o Vasco da Gama foi o primeiro clube a permitir negros no campo futebol (honra disputada com Bangu e Ponte Preta na década de 1920).

Se o uso político de estádios de futebol por Getúlio Vargas era considerado positivo para sua imagem na capital da República, Rio de Janeiro, o mesmo não ocorria em São Paulo. O estádio Paulo Machado de Carvalho foi inaugurado em 27 de abril de 1940 e Vargas recebido por enorme vaia dos paulistas. Eles estavam insatisfeitos com o fracasso do golpe dado na chamada Revolução Constitucionalista de 1932. Por outro lado, esse mesmo Pacaembu abrigou evento das centrais sindicais em 2011 e em defesa da pauta dos trabalhadores.

Outro estádio emblemático da classe trabalhadora é o 1º de Maio, em São Bernardo do Campo. Era período da Ditadura Militar e os metalúrgicos já haviam realizados greves em 1978 e 1979. Nessa época, como registra o site ABC de Luta, as greves e as manifestações públicas contra a alta dos preços cresciam cada vez mais. Nesse contexto, o Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema, em greve desde o dia 1º de abril (90% da categoria paralisada), com a diretoria cassada e sob a proteção da Igreja, convoca o 1º de Maio para o Estádio da Vila Euclides, sob as bandeiras da “liberdade e autonomia sindical, direito de greve, garantia de emprego, salário mínimo nacional real e unificado, contra a carestia”. Foi esse movimento, inclusive que fundou o Partido dos Trabalhadores e promoveu o sindicalista Luís Inácio Lula da Silva, mais tarde se tornando presidente da República, em 2002.

Perversidade

Os estádios de futebol também foram utilizados contra a luta dos trabalhadores e dos defensores da democracia. Um desses casos ocorreu na Ditadura Militar chilena de Augusto Pinochet (1973). O Estádio Nacional Julio Martínez Prádanos, mais conhecido como Estádio Nacional, serviu de cadeia para cerca de 40 mil presos políticos. No local, os oposicionistas eram torturados e mortos, como o jornalista norte americano Charles Horman (ver filme Missing, de Costa-Gavras) e o artista e músico Víctor Lidio Jara Martínez, que foi assassinado no Estádio do Chile e seu corpo jogado em um matagal, conforme revela a Comissão da Verdade e Reconciliação do Chile, em 1990.

Recomeço

Embora a função social dos estádios não seja abrigar assembleias sindicais, o seu clima se confunde muito com a luta dos trabalhadores. Pois há disputa por uma pauta, por um gol, por uma agenda, por uma vitória. Alegrias e emoções, decepções e agonias se misturam. Há também uma grande diferença e uma grande consciência. O antagonismo é de que o jogo é jogado nas arquibancadas e não no gramado e a semelhança é sobre a imprevisibilidade do resultado. É isso que apaixona no futebol e na greve.

* Manoel Ramires é jornalista e editor no Sindicato dos Servidores Públicos Municipais de Curitiba (Sismuc)

sábado, 7 de fevereiro de 2015

Pela humanização do parto e da saúde!

Grupo realizou ato no calçadão central de Cascavel
Mães, pais, gestantes, profissionais de saúde e ativistas promoveram neste sábado (07/02), em Cascavel, uma mobilização em defesa do Parto Humanizado. Com faixas, cartazes e panfletos, o grupo buscou chamar a atenção para questões como o crescimento da violência obstetrícia e o alto número de cesarianas no país.

Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) recomendam que apenas 15% dos partos sejam realizados por cesáreas. Mas, no Brasil, o “campeão mundial no procedimento”, o percentual chega a 84%, no sistema privado de saúde e 40% no SUS (Sistema Único de Saúde).

A desumanização da saúde pública, a desinformação e preconceito ainda são barreiras a serem superadas para que esse quadro seja alterado. É o que explica Marieli Araújo Marcioli, coordenadora do Gesta Cascavel – Grupo de Apoio à Gestante e ao Parto Ativo. “Ao longo das últimas décadas a mulher deixou de ser a protagonista do parto, sendo pouco encorajada a enfrentar um processo que é natural”, comenta.

O parto de uma gestação de baixo risco pode ser encarado como algo natural como a própria 
concepção. “O corpo da mulher está fisicamente preparado para esse procedimento humanizado. Infelizmente se hospitalizou o parto, tirando das mãos da mulher esse protagonismo e passando ele para os médicos”, destaca Marieli.


Para a coordenadora do Gesta Cascavel, esse primeiro ato surtiu o resultado esperado. “Obviamente que essa é apenas uma primeira iniciativa perto de tudo que ainda precisa acontecer. Mas acho que cumprimos o papel de levar maior informação e dar viabilidade a essa bandeira”, afirma Marieli, completando que o grupo buscou conscientizar pelos direitos das mulheres e crianças diante do parto e um alerta aos casos de violência obstétrica que inclui maus tratos e até mesmo mutilações.

O vereador Paulo Porto (PCdoB), um dos apoiadores do ato, destacou que é ainda há muita desinformação sobre o tema e que é preciso levar esse debate para a esfera pública. “Precisamos pensar políticas públicas que caminhem nesse sentido de humanizar nossa saúde”. Para Porto, um primeiro passo foi dado em Cascavel com o início da construção da nova ala materna do HUOP (Hospital Universitário do Oeste do Paraná), que terá uma estrutura preparada para atender o parto humanizado.

Em janeiro, a Agência Nacional de Saúde divulgou as novas regras para a realização de partos no Brasil. O objetivo da ANS e do Ministério da Saúde é estimular a realização dos partos normais.

Sobre o parto humanizado

* Ter um acompanhante da sua escolha antes, durante e depois do parto (Lei 11.108/2005);
* Ser orientada sobre o trabalho de parto com direito de: alimentar-se, caminhar, tomar banho quente, receber massagens, fazer exercícios na bola e no cavalinho;
* Pode escolher a posição que desejar parir: semi-sentada, deitada de lado, de quatro ou de cócoras junto com seu acompanhante, assistida por médico, enfermeira obstetra ou doula;
* O bebê deve ser colocado no colo da mãe logo após o nascimento, antes do cordão umbilical e antes de qualquer procedimento;
* A amamentação deve ser iniciada ainda na sala de parto, logo nos primeiros 30 minutos após o nascimento;
* Sem corte na vagina (episiotomia) a recuperação pós-parto se torna mais rápida, segura e mais confortável;
* Com o parto natural as complicações são menos freqüentes e o tempo de internação e recuperação é menor.

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Vitória dos jornalistas contra a truculência e mentira

* Hamilton Octavio de Souza

Nesta segunda-feira, dia 12 de janeiro, a categoria dos jornalistas conseguiu uma importante vitória na defesa dos direitos dos trabalhadores, da verdade e da dignidade da profissão. Trata-se do julgamento do primeiro processo movido por ex-jornalistas da revista Caros Amigos após a violenta demissão ocorrida em 11 de março de 2013, quando toda a equipe foi sumariamente colocada na rua por reivindicar o cumprimento da legislação trabalhista e protestar contra a ameaça de cortes (redução de postos de trabalho) na Redação.

Em audiência na 61ª Vara da Justiça do Trabalho, o juiz André Eduardo Dorster Araújo – após os depoimentos, acareação entre as partes e ameaça de prisão das testemunhas que faltaram com a verdade em seus depoimentos – condenou a Editora Casa Amarela ao pagamento de uma indenização de R$ 60.000,00 (sessenta mil reais) para a jornalista Débora Prado de Oliveira, que foi repórter e editora da revista Caros Amigos entre 2010 e 2013.

Nos depoimentos da empresa, o proprietário Wagner Nabuco e duas funcionárias administrativas declararam que a jornalista não passava de simples free-lancer, não tinha vínculo empregatício com a empresa, ganhava R$ 190,00 por página de matéria, não tinha horário fixo de trabalho e comparecia à Redação apenas “dois dias por mês”. Tais mentiras, contraditadas pela própria Débora Prado e pelos depoimentos dos jornalistas Hamilton Octavio de Souza e Cecília Luedemann, provocaram uma situação rara no Fórum.

O juiz, visivelmente irritado com as mentiras patronais, interrompeu a sessão e chamou as quatro testemunhas para uma conversa reservada em outra sala: ele insistiu que havia contradição evidente, chegou a oferecer uma oportunidade de retratação a quem estava mentindo, mas acabou por determinar que as testemunhas da empresa e as testemunhas da jornalista fossem encaminhados à Polícia Federal para abertura de inquérito com o objetivo de apurar a verdade dos fatos.

Em seguida, homens da Polícia Judiciária Federal levaram os quatro para a sala da segurança do Fórum, onde permaneceram durante um bom tempo, enquanto se providenciava viaturas para o transporte das testemunhas. As funcionárias da Editora Casa Amarela ficaram numa situação realmente constrangedora, obrigadas a uma declaração falsa imposta pelo dono da empresa. Uma delas, diante dos policiais do Judiciário, chegou a desabafar: “Eles se desentendem lá em cima e nós pagamos o pato”. Não era a mesma a situação das testemunhas da jornalista, que tinham prestado declarações corretas e verídicas.

Como a decisão do juiz surpreendeu a todos, em especial a bancada empresarial (advogados e testemunhas), o dono da editora, visivelmente contrariado, pediu a seu advogado para propor acordo com a reclamante, com imediata negociação entre as partes. Após algum tempo de conversa, com proposta e contraproposta, a jornalista Débora Prado concordou com a indenização oferecida pela empresa, desde que os depoimentos dados constassem da ata da audiência, já que revelam tanto a manobra safada da empresa quanto a conduta sincera dos jornalistas.

Ficou evidenciado que o dono da Editora Casa Amarela, Wagner Nabuco, e as duas funcionárias indicadas para testemunhar pela empresa, mentiram escandalosamente perante o Poder Judiciário, inventaram uma versão insustentável, fictícia, totalmente improvável, sem qualquer base na realidade cotidiana de uma Redação – que produzia matérias para o site, a edição mensal da Caros Amigos e para as demais edições especiais feitas entre 2009 e 2013. Tentaram também desqualificar os depoimentos dos jornalistas, mas foram prontamente desmascarados.

Tão vergonhoso como mentir, querer enganar a Justiça do Trabalho e levar vantagem com a exploração de trabalhadores, é o fato do empresário, que vive do lucro, tentar justificar seus desmandos e truculências com a desculpa de que se trata de um projeto empresarial de “esquerda”. Mais vergonhoso ainda é ver jornalistas e intelectuais que se dizem de esquerda dar apoio para uma editora privada que não é entidade coletiva e nem é vinculada a nenhuma cooperativa de trabalhadores ou movimento social, sem o devido questionamento dessa atuação típica da direita, que fere os mais elementares valores da ética e dos direitos humanos.

Pelo menos mais três processos contra a Editora Casa Amarela estão em andamento. Até agora a verdade está com os jornalistas demitidos da Caros Amigos em 2013. A vitória é da categoria, graças à coragem daqueles que são se dobraram aos interesses e ameaças patronais.

Hamilton Octavio de Souza é jornalista e professor. Foi editor-chefe da revista Caros Amigos de fevereiro de 2009 a março de 2013.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Comunicação pública forte só com autonomia e trabalhadores valorizados

Trabalhadores da EBC cruzaram os braços
Nesta terça-feira (9/12), os empregados da Empresa Brasil de Comunicação (EBC) realizam uma paralisação de 24 horas em Brasília, São Paulo, Rio de Janeiro e São Luís. O mote é a aprovação de um novo plano de carreiras da EBC que garanta a autonomia política e editorial e valorize os trabalhadores.

Atualmente, a EBC possui um plano de carreiras com diversos problemas. Empregados tem que trabalhar mais de 100 anos para chegar ao topo da carreira, os pisos salariais estão entre os piores do serviço público, a avaliação de desempenho não tem método justo nem critérios claros e os mecanismos de gratificação são totalmente discricionários.

Isso gera um clima de desânimo, falta de reconhecimento, valorização por proximidade e não pelo desempenho de fato, barganha na concessão de funções gratificadas e dificuldade de mobilidade nos cargos.

Entendemos que o plano de carreiras impacta diretamente as condições para produzir um conteúdo de qualidade e as possibilidades de ingerência política e editorial no cotidiano dos veículos da EBC.

As regras criadas podem, inclusive, servir de modelo para outros locais, para o bem e para o mal. Por isso, acreditamos que a revisão do plano de carreiras da maior empresa pública de comunicação do Brasil está relacionada aos rumos da comunicação pública como um todo no país.

Defendemos que um plano de carreiras deve assegurar perspectivas de carreira, procedimentos justos e equilibrados de progressão e promoção, remunerações adequadas e compatíveis com o serviço público, estímulos concretos à formação e qualificação, metodologias democráticas de avaliação de desempenho, entre outras questões. Somos contrários ao uso de mecanismos de gestão como forma de barganha, retaliação e ameaça, o que mina a independência dos trabalhadores frente a chefias, direções e governos de turno.

Neste sentido, apresentamos um conjunto de propostas após mais de um ano de debates entre os trabalhadores, entre elas: (1) melhoria da tabela salarial com redução de níveis para progredir na carreira e aumento do piso (em assembleia foi aprovada proposta de tabela com piso de R$ 4.400 para nível superior e R$ 3.080 para nível médio); (2) descrição de cargos que respeite a legislação e não abra brechas para acúmulos e desvio de função; (3) equilíbrio entre promoção por mérito e antiguidade; (4) Instituição de uma gratificação por qualificação; e (5) avaliação paritária (com igual peso para avaliação própria, pelos pares e pela chefia).

No entanto, os gestores da empresa acolheram muito pouco desta pauta. Pior, apresentaram propostas preocupantes. Um exemplo é a introdução de pisos diferenciados por carga horária, o que penalizaria as categorias com jornada especial, como radialistas e jornalistas.

Outro é o aumento de funções gratificadas (como funções técnicas e de supervisão), o que, combinado à ausência de procedimentos internos de seleção com regras claras, amplia a dependência dos trabalhadores em relação às chefias.

A paralisação dos trabalhadores da EBC visa sensibilizar a diretoria da empresa, o governo federal e a sociedade para a importância do processo e para a pauta dos empregados. Pois entendemos que o fortalecimento da comunicação pública passa necessariamente pela promoção da sua autonomia e pela valorização dos seus trabalhadores.

Brasília, Rio de Janeiro, São Paulo e São Luís, 4 de dezembro de 2014

Comissão de Empregados da EBC

Sindicato dos Radialistas do DF

Sindicato dos Radialistas do RJ

Sindicato dos Radialistas de SP

Sindicato dos Jornalistas Profissionais do DF

Sindicato dos Jornalistas do RJ

Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de SP

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Intervenções culturais alteram rotina escolar no bairro Floresta

Apresentações de hip hop
Foi encerrada nesta sexta-feira, dia 28 de novembro, a Semana Cultural do Colégio Estadual Francisco Lima da Silva, no Bairro Floresta, em Cascavel. O evento não é um fato isolado da unidade escolar localizada na região norte do município. O colégio tem promovido vários projetos de intervenção cultural, integrando professores, alunos e comunidade.

A proposta traz uma experiência que costuma fazer parte da rotina de universidades e faculdades. Essas ações tem alterado a rotina escolar e servido também para mudar mentalidades, vencer preconceitos e contribuir para alta estima da comunidade. "Essa é a segunda intervenção cultural que realizamos. Nossa intenção é trabalhar de forma lúdica com os alunos. São momentos que acabam sendo tão importantes para o aprendizado e para formação quantos as aulas dentro de sala", comenta o professor Péricles Ariza.

Durante os últimos dias, professores, alunos e comunidade participaram de oficinas e acompanharam apresentações que abordaram desde a cultura dos povos tradicionais, como o coral da Escola Indígena Araju Porã, de Diamante do Oeste, até a cultura contemporânea, com a arte urbana e shows de hip hop e break.

As oficinas também foram destaque do evento, entre elas, desenho, poesia, grafite, culinária, reutilização de materiais recicláveis, origami e esportes. Apesar das atividades não serem obrigatórias a presença dos alunos é grande. "Temos cerca de 1,3 mil alunos e pelo menos 80% deles participam de nossas intervenções culturais", comenta a diretora Silmar Paschoali.

O rapper Anderson Marcos da Silva, o Andy Combatente, destacou o projeto promovido pelo Colégio Estadual Francisco Lima da Silva. "Nós [Grupo Combatentes] participamos da primeira Semana Cultural e é sempre muito bom voltar a tocar aqui, recitar nossas poesias e passar nossa mensagem dentro do colégio. Conhecimento é tudo", destaca.

Oficina de grafite com Isaac Souza de Jesus

Crianças do coral Guarani de Diamante do Oeste


quinta-feira, 20 de novembro de 2014

'Passaralho': Demissão em massa na Folha de Londrina

Arte: Simon Taylor/Sindijor-PR
Os Sindicatos dos Jornalistas do Norte do Paraná e do Estado do Paraná manifestam sua indignação com as demissões ocorridas nesta quinta-feira (20/11) de 20 profissionais - dos quais oito da redação - na Folha de Londrina, em Londrina, com a alegação de corte nos custos de produção do jornal. O jornalismo no País atravessa um período de crise por sua perda de qualidade e isso está diretamente relacionado à redução do número de jornalistas nas redações.

Nos últimos anos, os leitores viram minguar o número de páginas dos jornais, que chegam às bancas cada vez mais enxutos e com matérias produzidas por assessores de imprensa e agências de notícias. O jornalismo local, de valorização da comunidade, vem perdendo espaço. Isso decorre da visão estreita dos empresários de comunicação que cada vez mais desvalorizam os profissionais que, dia a dia, saem em busca de notícias sobre política, cultura, educação, esporte e tantos outros assuntos que fazem parte do cotidiano de uma cidade.

Em 2013, a presidente Dilma sancionou a lei de nº 12.844/2013, que prevê a desoneração da folha de pagamento para as empresas de comunicação social. Isso ocorreu após reivindicação da Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (ABERT), da Associação Nacional dos Jornais (ANJ) e da Associação Nacional dos Editores de Revista (ANER). De acordo com a lei, a contribuição de 20% ao Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) sobre a folha de pagamento será substituída pela alíquota de 1% do faturamento das empresas.

Os donos da mídia, entretanto, têm promovido demissões em massa pelo Paraná e pelo Brasil. No último mês, foram mais 40 demissões na Gazeta do Povo. Eles mostram que não têm qualquer compromisso com a manutenção de empregos e muito menos com a construção de um país melhor.

Não estão preocupados com a informação de qualidade e com o debate público sobre questões de interesse público. A única preocupação das empresas tem sido o lucro do negócio. Descartar jornalistas experientes e com mais tempo de casa, por terem salários acima do piso da categoria – uma categoria que tem um dos pisos mais baixos entre as várias categorias profissionais – demonstra uma visão que despreza o conteúdo e a qualidade em nome dos interesses comerciais.


A competência, dedicação e compromisso com o bom jornalismo não entram na conta dos donos da mídia. Eles ainda não aprenderam a lição de que jornal se faz com jornalistas.

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Embaixador garante que Palestina resistirá aos ataques israelenses

Foto: Joka Madruga/Terra Livre Press 
O embaixador da Palestina no Brasil, Ibrahim Alzeben, garantiu que a população mais antiga do mundo não será extinta. As recentes ondas de ataque ao povo palestino suscitaram dúvidas com relação ao futuro da população, mas Alzeben foi enfático. "Resistiremos pela sobrevivência de um povo", destacou o embaixador em todas as reuniões e palestras que participou em Curitiba.

Alzeben, que é nascido na Jordânia, também uma das vítimas da ocupação israelense, esteve por três dias no Paraná para conversar com autoridades e estudantes em busca de apoio à luta pela liberdade e independência da Palestina. Após reuniões com o prefeito Gustavo Fruet, o vice-governador, Flávio Arns, e o presidente da Câmara, vereador Paulo Salamuni, o embaixador falou para quase 500 pessoas na Faculdade Uninter. 

"Esse contato com outros países é importante para elevarmos o apoio internacional contra o invasão de Israel. A Palestina vai recorrer aos tribunais internacionais pelo fim do genocídio e por sua liberdade", afirmou Alzeben. "Não estamos numa luta religiosa. A guerra, instaurada muito mais pela vontade dos israelenses visando o controle do território, é política. A religião judaica ou a islamita não tem nada com esse conflito", completou. 

Apoio no Paraná

Em 2014, a Organização das Nações Unidas decretou o "Ano Internacional de Solidariedade com o Povo da Palestina" e as embaixadas do país pelo mundo têm buscado ações com aliados para a reconstrução das cidades e doações de alimentos às famílias palestinas. "Com as investidas de Israel cada vez mais brutais, aumenta o sofrimento e a dificuldade de sobrevivência", explicou Alzeben.

Flávio Arns e Gustavo Fruet afirmaram que estudarão ações para campanhas solidárias à Palestina encampadas pelos governos. Na Câmara de Vereadores, o embaixador recebeu um compromisso de parlamentares locais. "Vamos propor um projeto de Lei que nomeie uma cidade-irmã de Curitiba", afirmou o vereador Jorge Bernadi, que acompanhou a audiência. Nablus, cidade localizada ao norte da Cisjordânia, foi escolhida como a possível irmã da capital do Paraná. 

Redes sociais mostram a verdade

A crueldade dos ataques de Israel tem dificultado cada vez mais que as investidas sejam negadas pela grande mídia. Historicamente, a imprensa comercial mostra um viés de “defesa” judaica aos ataques do Hamas do que os ataques iniciados pelos israelenses.

“Esse genocídio não pode mais ser escondido. As empresas de comunicação que ‘encobriam’ a verdade hoje precisam publicar o que aparece pelas mídias sociais, sob risco de descrédito”, ressalta Alzeben.

As redes sociais, aliás, viraram as grandes aliadas. Conectados, palestinos alimentam com informações os movimentos aliados e personalidades mundiais mostrando "o outro lado", o lado real.

Texto: Gustavo Henrique Vidal

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Embaixador da Palestina cumpre agenda em Curitiba

Ibrahim Alzeben ministra palestra e atenderá jornalistas
O acirramento do conflito entre Palestina e Israel chamou a atenção de todo mundo ao longo deste ano. Com base neste interesse o embaixador do Estado da Palestina no Brasil, Ibrahim Alzeben, cumprirá uma série de atividades públicas em Curitiba nesta quinta (6/11) e sexta-feira (7/11).

As atividades oficiais do embaixador Ibrahim Alzeben tem início na manhã de quinta-feira com uma audiência marcada para às 9h30 na prefeitura de Curitiba com o prefeito Gustavo Fruet. De lá o representante palestino no Brasil segue para a Câmara Municipal de Curitiba onde, às 11h30, conversa com vereadores.

O embaixador ainda ministrará uma palestra no auditório do Campus Tiradentes da Faculdade Uninter. A exposição intitulada “Palestina: História de Genocídios e de Esperanças” – Reflexões sobre a complexidade da região da Palestina, terá análises sobre temas centrais da vida na Palestina, como perda território e os embates com Israel. A atividade terá início às 19h30 na Rua Saldanha Marinho, 131, Centro de Curitiba.

Na sexta-feira [07] Alzeben concederá entrevista coletiva no Salão Nobre da  Mesquita Imam Ali ibn Abi Tálib. O horário marcado é 10 horas na Rua Dr. Kellers, 383 - Bairro São Francisco.

 Serviço: Visita do embaixador da Palestina à Curitiba

Dia 06
09h30 :: Reunião na Prefeitura de Curitiba com prefeito Gustavo Fruet
11h30 :: Reunião com vereadores na Câmara Municipal
19 horas :: Palestra “Palestina: História de Genocídios e de Esperanças”na Uninter.

Dia 07
10 horas :: Entrevista Coletiva no Salão Nobre da  Mesquita Imam Ali ibn Abi Tálib

Mais informações:
Ualid Rabah :: (41) 9682.7729
Gustavo Vidal :: (41) 9195.6363


quarta-feira, 1 de outubro de 2014

"Zero, Zero e confirma": Para além da hora do voto

Professor Péricles, do Grupo Movimento 
Matéria originalmente publicada na Gazeta do Paraná em 26 de setembro de 2010. Republicada no blog devido a proximidade das eleições. 

Entramos na semana derradeira, decisiva para aqueles que pretendem nos representar. Nos próximos dias, a população já acostumada com a poluição visual proporcionada pelos milhares de cavaletes e bandeiras com algarismos eleitorais espalhados por canteiros centrais, terá que se preparar para  cartada final de candidatos que intensificarão seus trabalhos de convencimento, seja pelo corpo a corpo com o eleitorado, ou pela ação direta e indireta de seus cabos eleitorais.

Além das propagandas e promessas – muitas não aplicáveis – nessa fase também ouvimos discursos sobre o exercício da cidadania, que versam sobre o direito e consciência do voto, com lemas como “momento de pensar os próximos quatro anos”. Porém, há quem discorde dessa conjuntura, onde se discute política somente em época eleitorais e vejam nesse momento uma grande oportunidade de protestar e ampliar o debate político para além das urnas.

Diante de uma posição de descrença política, a melhor alternativa para alguns passa ser negar o voto a todos os candidatos. Na medida em que aumentam os escândalos e casos de corrupção, também cresce uma camada que, apesar de ainda não passar de 4% do eleitorado, vem ganhando força. A cada eleição aumenta o número de “Comitês do Voto Nulo” pelo país, alguns mais radicais ao estilo “Rauzito”, pregando a “não nutrição de parasitas” e outros que propõe um debate além do voto, discutindo temas como direito dos trabalhadores, voto facultativo e, especialmente, a democracia direta (participativa).

Grupo Movimento

Em Cascavel, o Grupo Movimento, que reúne estudantes e trabalhadores, organiza a campanha pelo Voto Nulo. Apesar de saber que anulação não tem resultado prático no sistema eleitoral, o grupo afirma que o Voto Nulo é uma maneira de protestar e iniciar um debate que não termina com a posse dos eleitos.

O professor de história, Péricles Ariza, um dos integrantes do comitê, esclarece que o momento não é contrário as eleições em si, mas sim a forma como se apresenta. “Não negamos as eleições, tanto é que comparecemos as urnas e damos nossos votos. Somos favoráveis as eleições até certo ponto, ao invés dela enfatizar somente a democracia representativa, ela deveria mostrar como funciona uma democracia direta, onde as pessoas realmente têm voz”.

Segundo o historiador, o Voto Nulo além de ter o caráter de protesto, também tem o sentido de provocar os partidos, especialmente os que dizem representar a classe trabalhadora. “Num primeiro momento é uma forma de protesto, a corrupção por si só já um ótimo motivo para o voto ser anulado, ma a gente não pode parar nisso. O objetivo também é provocar os partidos, especialmente os de esquerda, a defenderem programas que levem a resolução definitiva de problemas como o desemprego”.

Péricles afirma que a democracia representativa pode “pregar uma peça” no eleitor que muitas vezes escolhe a opção de votar no “indivíduo candidato”. “Muitos se iludem e votam em determinada pessoa e suas promessas, mas por trás destes indivíduos estão os partidos e seus programas partidários, que são paliativos e não resolutivos”.

Nulo e Branco

Para contrariar alguns “mitos” e discursos propagados, Péricles faz questão de ressaltar a diferença entre o Voto Nulo e Voto em Branco. “O voto em branco é aquele que aparece na urna. O seu significado é do “tanto faz”. Já no voto nulo você dizendo não para todos eles, ele tem esse caráter de protesto que o branco não tem. O branco é voto da isenção. Muitos dizem que estamos perdendo um direito, mas é o contrário, nós estamos exercendo esse direito votando nulo, usando um direito como protesto e ao mesmo tempo organizando as pessoas que estão desacreditadas com esse sistema. Os partidos que vencerão essas eleições não tem projeto de uma nova sociedade”, dispara.

Aristóteles 

O historiador, que também estuda Filosofia, tem uma forma curiosa de avaliar discursos sobre cidadania, peculiares em momentos eleitorais, usando como exemplo o filósofo Aristóteles. “Esse discurso cidadão serve para arrebanhar as pessoas para legitimar o governo e seus candidatos. Aristóteles dizia que na política tem momentos que o povo quer ser soberano. No momento do voto os poderosos precisam bajular as pessoas porque eles querem ser soberanos. Veja no ambiente de trabalho, por exemplo, não podemos exercer cidadania, apenas executar ordens. Depois que acaba eleição, a cidadania acaba. Depois de eleitos, ai vem o ‘exame de próstata’ no povo”.

“Intolerância democrática”

Eleição lembra democracia e livre opinião, porém a prática nem sempre é respeitada, inclusive por quem usa o discurso para angariar votos. O Grupo Movimento sentiu isso na pele durante uma manifestação recente no calçadão da Avenida Brasil. Tudo aconteceu em uma panfletagem em frente ao Café Boca Maldita, ponto tradicionalmente utilizado para tais discussões.

No instante da panfletagem, um candidato a deputado estadual fazia campanha do outro lado da avenida, em frente à Catedral. Incomodado com a panfletagem pelo voto nulo, o postulante a uma vaga na Assembleia foi ao encontro dos manifestantes. “Ele deve ter se sentido incomodado e foi até nós pedir para que a gente largasse mão daquilo. Ele inclusive falou pra gente ir trabalhar com ele, que ele pagava bem os cabos eleitorais”.

Depois da tentativa de “compra de consciência”, um dos integrantes do grupo acabou respondendo o candidato. “Um de nós falou que a diferença entre nós e ele é que a gente não estava ali fazendo algo por dinheiro e sim convicção, e falo que não compactuava com essa corja de ladrões. Se sentindo ofendido, ele levantou voz e pediu pra retirarmos o que falamos e tentou nos intimidar pedindo nomes e onde trabalhávamos, mas enfim, esse foi um fato isolado, mas acontece”.

O historiador fez questão de esclarecer que o material do grupo não tem nenhum direcionamento pessoal a candidato ou partido. “Nós questionamentos a estrutura, nossos cartazes e panfletos não são direcionados a ninguém, não há críticas pessoas, mas ele se ofendeu”, completou.

Curiosa e coincidentemente, a reportagem presenciou outro episódio. No momento em que a entrevista acontecia em frente a uma construção próxima a Unipar, um jovem parou seu carro foi ate onde acontecia a entrevista e, sem dizer uma única palavra, rasgou cartazes do movimento que estavam em um tapume. Com uma ‘educação’ de dar inveja (sic), o rapaz incorporou uma espécie de ‘inspetor ambiental’, dizendo que estaríamos sujando a construção, sem mencionar qual sua relação com a obra, que por sinal, estava emporcalhando a calçada com seus entulhos. Outro detalhe é que os cartazes estavam colados no local há mais de uma semana.

Bandeiras

Além do Voto Nulo, o Grupo Movimento levanta outras bandeiras: Defesa da democracia direta, por meio de conselhos, assembleias, sindicatos, associações independentes e DCEs; Luta contra o desemprego, demissões e achatamento salarial; Defesa da redução da jornada de trabalho, sem redução de salários; Reajuste automático dos salários de acordo com a elevação dos preços; Criação de frentes públicas de trabalho nas cidades; Criação de frentes de trabalho no campo, por meio de fazendas públicas.