sábado, 14 de abril de 2012

MST realizará ato em memória de Eldorado dos Carajás

Eldorado dos Carajás (Paulo Araújo/Folha Imagem)
Ao longo do mês de abril várias mobilizações são realizadas por trabalhadores do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra). A programação faz parte do 'Abril Vermelho', atos em prol da reforma agrária no País. Em abril, os integrantes dos movimentos sociais de luta pela terra também realizam manifestações em memória ao Massacre de Eldorado dos Carajás, a chacina no Pará onde foram assassinados 21 sem-terra em 17 de abril de 1996.

Os sobreviventes daquele massacre ainda têm dúvidas do número oficial de mortos divulgados pelo Estado, pois há crianças, homens e mulheres desaparecidos que não estão na lista dos mortos e também não foram encontrados depois. Dois meses após a operação policial, uma ação coletiva teve início na Justiça. O processo é considerado o maior da história criminal brasileira em número de réus, no total são 155 policiais. Em 2002, saiu a decisão da Justiça: dos 155 acusados, 142 foram absolvidos, 11 acabaram sendo retirados do processo e apenas dois condenados. A partir de então o 17 de abril tornou-se oficialmente o Dia Nacional de Luta pela Reforma Agrária.

Em Cascavel, integrantes do MST farão na próxima terça-feira (17/04) - data onde serão completados 16 anos do Massacre de Eldorado - uma manifestação em frente ao assentamento Valmir Mota, na rodovia BR-277, a partir das 8h. O ato envolverá trabalhadores camponeses e os 'sem-terrinha', crianças dos acampamentos e assentamentos. O nome do assentamento onde acontecerá o ato é uma homenagem ao militante 'Keno', morto há cinco anos em confronto com seguranças-milicianos na antiga estação da multinacional Syngenta, em Santa Tereza do Oeste.

Além dessa manifestação, trabalhadores sem-terra da região Oeste irão à Brasília para outras atividades alusivas ao Abril Vermelho. Em Curitiba, segundo informações da assessoria de comunicação do MST, militantes farão nesta segunda-feira (16/04) uma marcha até a Superintendência Regional do Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária do Paraná) para fazer a entrega de uma pauta de reivindicações.

A mobilização tem por objetivo cobrar tanto do governo federal quanto do estadual a realização da reforma agrária, que se encontra paralisada no país, sendo que somente no Paraná cerca de seis mil famílias permanecem acampadas, em situação precária, vivendo em beiras de estradas e em áreas ocupadas, e que muitas vezes são vítimas da violência do latifúndio e do agronegócio.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

A democratização não será televisionada


Nessa semana completam-se 10 anos do golpe de Estado que durou aproximadamente 48 horas na Venezuela. No dia 11 de abril de 2002, a direita venezuelana desencadeou uma ação contra o presidente eleito Hugo Chávez. Uma década depois, no momento em que setores progressistas, movimentos sociais e militantes da comunicação levantam bandeiras pela democratização e por um marco regulatório para as comunicações é importante lembrar do fato, independente de posições ideológicas, de chavistas ou anti-chavistas.

A partir dessa ação - que ficou conhecida como um golpe midiático - é que iniciou-se no país de Bolívar, o "Libertador das Américas", as discussões sobre um marco regulatório dos meios de comunicação, modelo que muitos ativistas, jornalistas e blogueiros puderam conhecer detalhes no 1º Encontro Mundial de Blogueiros, ocorrido no fim do ano passado em Foz do Iguaçu, que contou com a explanação do ex-ministro de Comunicações da Venezuela, Jesse Chacón.

Vale lembrar que o golpe ocorrido 10 anos atrás foi protagonizado por vários setores da elite venezuelana, mas foi liderado por grandes grupos midiáticos, especialmente a Globo Vision e a Venevision. Os detalhes sobre esse golpe fracassado podem ser vistos no documentário: 'A Revolução não será Televisionada'. Lançado em 2003, ele foi dirigido pelos irlandenses Kim Bartley e Donnacha O’ Brian. O título é inspirado no poema de mesmo nome do poeta estadunidense Gil Scott-Heron (que também vale como sugestão).

O documentário mostra a derrocada de uma ação que teve como "mentora intelectual", a grande imprensa venezuelana, que assim como a nossa terra tupiniquim tem por costume cuspir juízos de valores e se auto-intitular a "verdadeira dona da verdade absoluta" (como se realmente existisse alguma).

A curiosidade da obra é que os dois irlandeses "pegaram" por acaso a tentativa de golpe. Eles estavam na Venezuela desde setembro de 2001 com a intenção de documentar o governo bolivariano e o "homem por trás da revolução" (basicamente o cotidiano de Hugo Chávez), porém acabaram sendo surpreendidos pelos momentos que desencadearam o golpe.

A dupla conseguiu captar imagens geniais como a cena das elites comemorando e deliciando-se com champagne no interior do Palácio Miraflores após o golpe, a detenção ilegal do então presidente da República e a posse como "presidente interino" do empresário-militar Pedro Carmona, líder da oposição. Na festa palaciana, destaque para setores conservadores da igreja, exército, donos de meios de comunicação, além de belas mulheres ostentando suas jóias e peles.

Outra cena pitoresca do documentário é o momento em que donas de casa da classe média venezuelana são "orientadas" a iniciarem uma espécie de monitoramento de suas empregadas domésticas, as quais segundo os golpistas, seriam aquelas que iniciariam a revolução "trocando panelas e vassouras por armas de grosso calibre e passariam a sequestrar suas patroas".

Ao longo do filme é exposto o massacre dos cinco canais de televisão privada (com destaque para os dois já citados acima), uma verdadeira cruzada midiática - coberta por fraudes, edições de imagens, manipulações de acontecimentos e deturpação de opiniões - e desmascaradas posteriormente pelos próprios profissionais das emissoras.

Na ocasião da tentativa de golpe, o jornalista Maurice Lemoine, do Le Monde Diplomatique, afirmou que "nunca, mesmo na história latino-americana, a imprensa esteve envolvida tão diretamente em um golpe [de estado]". Aproveitando que no início do mês também comemorou-se o 'Dia do Jornalista', o documentário é uma ótima pedida, especialmente aos que militam por uma comunicação cidadã que, além de informar, deve formar e transformar.

Gil Scott-Heron, falecido em maio do ano passado, pregava: "A revolução não será televisionada, não será trazida pelo seu teatro favorito, não terá aquela atriz bonitinha no papel principal (...)". E na conclusão, apresenta a fórmula: "Será luz, câmera e ação. Tudo ao vivo, nada de cortes ou edições". Assim deverá ser a revolução que trará a verdadeira democratização da comunicação. Assim esperamos.

Abaixo o documentário 'A Revolução não será televisionada', dos irlandenses Kim Bartley e Donnacha O’ Brian


quinta-feira, 5 de abril de 2012

Quando 'neofascistas' criam verdades e vilões

Com sucessivas vitórias no Congresso, a bancada ruralista vem conseguindo alterar legislações em prol de especuladores de terra, grileiros e grandes latifundiários do agronegócio brasileiro. Os últimos golpes desse setor - que apesar de travestido na figura do desenvolvimento representa o que há de mais atrasado no Congresso - têm deixado marcas profundas que podem significar nova tensão no campo brasileiro.

Recentemente, os ruralistas do parlamento conseguiram a aprovação da PEC 215/2000, que visa transferir da União para o Congresso a prerrogativa de demarcar e homologar terras indígenas e quilombolas. Uma outra PEC, de número 038/1999, também tramita na Casa de Leis. Ambas as propostas tem o mesmo conteúdo e poderão significar uma 'nova invasão colonial' em terras tradicionais. 


Após aprovada, a PEC 215 motivou entusiasmo de alguns deputados que foram à público comemorar um eventual massacre dos 'povos de nossas florestas'. Verdadeiras pérolas foram disparadas, que nos remeteram a outras épocas, quando homens públicos falavam abertamente sobre 'limpezas étnicas'. 

O Congresso está repleto de parlamentares que obtiveram sucesso por meio de seus financiadores de campanha, dentre eles, empresas multinacionais do agronegócio, de maquinários agrícolas, insumos e agrotóxicos. Traduzindo em miúdos, a intenção da PEC é repassar para a raposa a vigia do galinheiro.

Ao ressuscitarem a PEC, os deputados pretendem rasgar a Constituição e descumprir acordos nacionais e internacionais. A proposta é antiga, foi apresentada há 12 anos pelo então deputado Almir Sá, do extinto PPB, hoje o 'progressista' PP. Já o relator é o paranaense Osmar Serraglio, peemedebista e, obviamente, outro ruralista.
 


Entre os que votaram a favor na CCJ, o 'democrata' Abelardo Lupion e entre os grandes defensores, outro paranaense: Nelson Padovani, de base eleitoral no Oeste do Estado. Esse último concedeu recente entrevista à CBN Cascavel, onde mostrou total desconhecimento sobre a temática indígena. Nela, o parlamentar soltou verdadeiras pérolas no quesito 'antropologia'. Ao tentar justificar a redução de terras aos povos indígenas, Padovani disparou: "os índios representam 0,43% de nossa população, eles não chegam a nem meio por cento".

Essa declaração me fez lembrar recente artigo publicado pelo jornalista e Doutor em História, José Ribamar Bessa Freire, que ao escrever sobre a aprovação da PEC lembrou de discurso da sessão magna das comemorações do 4º Centenário do Descobrimento do Brasil, onde o engenheiro Paulo de Frontin, empossado depois como prefeito do Rio de Janeiro, disparou: "Os selvícolas (...), não são nem podem ser considerados parte integrante da nossa nacionalidade; a esta cabe assimilá-los e, não o conseguindo, eliminá-los".


Voltando ao Padovani, ele ainda fez acusações graves, alegando que os indígenas - acobertados por órgãos como a FUNAI - estariam enterrando cadáveres de seus próprios com o intuito de tentar comprovar cemitérios de terras tradicionais. Quanto às provas, o deputado resumiu-se a dizer que "o índio quando toma cachaça conta a verdade", demonstrando preconceito e sendo extremante infeliz ao tratar do problema do alcoolismo.

A 'aula' do parlamentar sobre os indígenas durou pouco, mas terminou com chave de ouro: "É quilombola, é índio, é sem-terra, o trabalhador brasileiro já não agüenta mais (...)", esbravejou nas ondas da rádio, o representante do Partido Cristão. As declarações do político e empresário do setor de maquinários agrícolas expressam a opinião de setores elitistas da sociedade que demonstram desconhecimento, ignorância e má-fé quando o tema são os povos tradicionais.

Não raro ouvirmos que é "inconveniente os índios terem tanta terra", afinal, para esses conhecedores da causa, esses povos representam "atraso à nossa pujante economia". Querem relegar aos indígenas, camponeses, quilombolas e ribeirinhos, pequenas e cercadas porções de terras, afinal, "eles não contribuem para riqueza do país produzindo para exportação (sic)".


Confesso que me repugna ouvir declarações tão rasas de um homem público e entristece ver esses juízos de valores reproduzidos por setores de nossa sociedade, porém elas dão margem para povos indígenas e camponeses fazerem o seguinte questionamento: "é justo o homem branco ter tanta terra (ou lote) para fazer especulação?"


Para quem não acompanhou a entrevista citada no texto acima. 'Deliciem-se' com o link.
 

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Arquétipos e a 'sina' dos artistas populares

Solange e Miguel encenam 'A Princesa e o Pirata'
A sina de artistas que escolhem viver da cultural marginal e contra-hegemônica é de nadar contra a maré. Uma escolha que grande parte das vezes é forçada pela falta da contrapartida do poder público. Há anos essa 'sina' de lutar contra a corrente acompanha o casal Miguel Joaquim das Neves e Solange Esequiel. Eles desenvolvem projetos ligados ao teatro, musicalização e cultura popular em bairros da periferia de Cascavel.

Atores profissionais, Miguel e Solange driblam as dificuldades para manter projetos que não contam com um único 'centavo oficial'. Nos últimos meses eles têm levado alegria às crianças com o espetáculo teatral 'A Princesa e o Pirata'. As apresentações vêm acontecendo – especialmente – em pastorais e associações comunitárias.

A última delas aconteceu no último fim de semana no bairro Floresta, região onde a dupla há pouco tempo desenvolvia o 'Ensinar', projeto que precisou de uma pausa. Cerca de 60 crianças faziam parte do projeto que tinha como principal objetivo promover cidadania e descentralizar a produção cultural na cidade. A intenção de Miguel e Solange é retomar o projeto o quanto antes.

O Ensinar contava com oficinas de violão e aulas de teatro com as crianças dos bairros Floresta e Sanga Funda. Era uma proposta que não visava lucro, mas que necessita de maior apoio e patrocínios. No fim de 2010, oportunidade que esse blogueiro teve um longo papo com o artista, ele já projetava as dificuldades em seguir com o projeto. "é uma semente que eu e a Solange queremos plantar. Amanhã se alguém me disser que quer assumir o projeto, trazer professores para cá, para mim está ótimo. O interesse não é que o projeto seja meu", falou na oportunidade.

A 'centralização' e burocratização da cultura dificulta o trabalho de artistas que precisam (sobre)viver sem o apoio oficial. Um trabalho – que segundo palavras do próprio Miguel – acaba sendo 'pancada'. "Costumo dizer que Cascavel é uma faculdade de artes cênicas, se você conseguir sobreviver quatro, cinco anos dela fazendo cultura, você consegue dar aula no Golfo, no Iraque, até na Faixa de Gaza", brinca o artista, que ironiza. "O Anchieta conseguiu catequizar os índios pelo teatro, mas aqui nós não conseguimos fazer isso com o cascavelense".

A dificuldade financeira também faz com que o casal perca oportunidades de levar sua arte para locais mais distantes. "Fomos convidados para participar do Festival de Teatro em Curitiba, mas não tivemos condições de ir", confessa Miguel. O casal levaria à capital do Estado a peça 'Sombras de um Passado'.

Sobrevivendo de festas infantis e de peças vinculadas a instituições, Miguel e Solange seguem enfrentando as barreiras da desvinculação do apoio oficial. Eles seguem sua 'sina' – palavra que também dá nome a um livro editado pelo poeta Miguel Joaquim das Neves, que junto com sua companheira Solange, se entregam de carne e osso à representação do ideal marginal da cultura popular, aquela de caráter transgressor e que se constitui em ferramenta de reflexão.

quarta-feira, 28 de março de 2012

Mobilizações pela memória, verdade e justiça

Tirinha do cartunista Carlos Latuff
Às vésperas de completarmos 48 anos do golpe civil-militar de 1964, o debate sobre o direito de apurar crimes praticados pela ditadura retoma força na sociedade por meio da criação da Comissão Nacional da Verdade. Nesta quinta-feira (29/03), a partir das 17 horas, a Boca Maldita, tradicional ponto de Curitiba, será palco de nova manifestação pela instalação imediata da Comissão da Verdade. Os manifestantes também vão convidar a população para o lançamento do Fórum Paranaense de Resgate da Verdade, Memória e Justiça, que acontecerá no dia 12 de abril, no Teatro da Reitoria da UFPR (Universidade Federal do Paraná).
 
Na última segunda (26/03), diversas organizações sindicais e populares ocuparam a Boca em ato semelhante.  Em Fortaleza, São Paulo, Belo Horizonte, Porto Alegre e Belém ocorreram ações diante de residências e locais de trabalho de ex-policiais e ex-militares acusados de tortura, estupro e assassinato de presos políticos durante a ditadura civil-militar (1964-1985). Tais ações, organizadas pelo Levante Popular da Juventude, contaram com o apoio de sindicatos e agremiações de esquerda. Em Curitiba, foram expostos banners com o nome dos mais violentos torturadores que atuaram no Paraná. Alguns jovens declamaram poemas em homenagem a militantes torturados e assassinados pela ditadura.
 
Criada no fim de 2011, a Comissão da Verdade ainda não foi instituída oficialmente pelo governo federal. Sua tarefa institucional é estabelecer quais circunstâncias em que as mortes, a tortura e a violência de Estado foram realizadas no Brasil. Apurar a responsabilidade dos militares e servidores públicos da época, que teriam participado de atos da ditadura, mas também dos próprios civis que participaram de estruturas não governamentais, empresariais, aliadas à repressão. A demora em instituir oficialmente a Comissão - na visão dos movimentos sociais - permite que clubes militares e outros grupamentos que sustentaram o golpe e participaram da repressão se manifestem de forma cada vez mais agressiva contra a sua instalação.

Também nesta quinta-feira (29/03), o Clube Militar do Rio de Janeiro promove mais um evento para comemorar o golpe, ao qual chamam de "revolução de 64", e reafirmar sua posição contra as investigações. O Coronel Brilhante Ustra, notório torturador, é um dos organizadores da "comemoração". O mesmo clube já havia lançado um manifesto atacando a iniciativa da criação da Comissão.
 
Para as organizações de esquerda, mesmo passados quase 30 anos da queda da ditadura, é preciso que o Brasil inicie o processo de apuração e punição dos crimes, como vem sendo feito na Argentina, no Chile, no Uruguai entre outros países latino-americanos. Vale lembrar que recentemente a Anistia Internacional denunciou que "o Brasil continua atrasado em comparação com demais países da região em sua resposta às graves violações de direitos humanos cometidas no período militar".

Cascavel

Em Cascavel, o período conhecido como "Anos de Chumbo" será lembrado pela palestra e espetáculo musical: "O Golpe de 64 e os golpes contra a memória". O evento acontecerá nesta sexta-feira (30/03) no anfiteatro da Unioeste (Universidade Estadual do Oeste do Paraná), a partir das 19h30. A palestra será ministrada pelo professor Alexandre Felipe Fiúza e o espetáculo será conduzido pelos músicos Cristini Colleoni, Sil Vaillões, Giovani Pinheiro e Alan Villaverde.
 
A promoção do evento é do Mestrado em Educação/ Colegiado de Pedagogia/ CECA/ Grupo de Pesquisa História e Historiografia na Educação da Unioeste. As inscrições serão gratuitas no local, com emissão de declaração de participação de três horas/aula.

Estudioso do período, Alexandre Fiúza é doutor em História Contemporânea. O evento será uma bela homenagem aos que lutaram e combateram esse período tão triste de nossa história.

quarta-feira, 21 de março de 2012

Dois meses do massacre do Pinheirinho


Nesta quinta-feira, dia 22 de março de 2012, completam-se dois meses do massacre de Pinheirinho, a reintegração de posse feita pela polícia militar paulista e guarda municipal de São José dos Campos,  ação orquestrada pelo prefeito da cidade Eduardo Cury e o governador Geraldo Alckmin, ambos do PSDB.

Enquanto grande parte da mídia preferiu discorrer sobre a legalidade da desocupação ou se a ordem judicial expedida pela juíza Márcia Loureira estaria certa ou não, pouca atenção foi dada a ação em si, ocorrida num domingo, pegando de surpresas os moradores, lhes impossibilitando de retirar seus pertences e sendo vítimas de truculência desproporcional do braço militarizado do Estado.

Dois meses depois do fatídico 22 de janeiro de 2012, o que se vê hoje em Pinheirinho - segundo moradores que permanecem no local e jornalistas da imprensa alternativa - é um cenário de destruição, de cidadãos vivendo na precariedade de abrigos sem estrutura alguma, que lembram em muito os regimes de campo de concentração. Poucas casas permanecem de pé, outras estão completamente vazias e os moradores sobrevivem do jeito que dá.

Para contextualizar a situação, as famílias ocupavam há quase 10 anos o terreno abandonado pertencente a massa falida da empresa Selecta Comércio e Indústria S/A, do megaespeculador imobiliário Naji Nahas, que tem em seu 'currículo' - entre outras coisas - ser responsável pela quebradeira da Bolsa de Valores do Rio de Janeiro após tomar dinheiro emprestado para negociar ações para si próprio por meio de laranjas, além de ser preso durante Operação Satiagraha, da Polícia Federal.

Campanha

Para que a barbárie de Pinheirinho não seja apagada da memória e como ato de solidariedade as vítimas da ação 'tucano-militar', a CSP-Conlutas (Central Sindical Popular) lançou uma campanha de apoio financeiro aos ex-moradores da ocupação. A entidade centralizará doações por meio da seguinte conta bancária: Banco do Brasil/ Agência: 4223-4/ Conta Corrente: 8908-7.

Além disso, a campanha também está arrecadando alimentos, roupas, remédios e material de higiene. Instituições variadas também realizam campanhas simultâneas de arrecadação de materiais.

Na região Oeste do Paraná, o Comitê de Solidariedade às Vítimas do Pinheirinho promoverá no próximo domingo, dia 25 de março, um Ato-show regional em Cascavel, na Adega Nostravamus, na Rua Jorge Lacerda, 1551, no Bairro Claudete. Nove bandas da região estão confirmadas e, além das apresentações, o espaço do microfone estará aberto para a livre expressão de pensamento dos presentes que poderão se manifestar da forma como acharem melhor (discurso, poema, pintura, cartazes, faixas, etc.).

A expectativa da organização do evento é que cerca de 250 pessoas compareceram. "Muitas pessoas estão se envolvendo, já temos quase 200 pessoas que confirmaram presença pelo facebook. Produzimos 3 mil cartazes e 900 panfletos. A expectativa é grande pois temos trabalhadores e estudantes envolvidos na construção deste evento. Alem das nove bandas, temos uma equipe em Foz, Toledo, Rondon e Cascavel", diz Evandro Castagna, presidente do PSTU de Cascavel e um dos organizadores do ato.

Para Castagna, é preciso que todos se incorporem nessa campanha e ajudem na cobrança de uma solução digna aos moradores de Pinheirinho. "Queremos que o Governo Dilma desaproprie o terreno do Naji Nahas e devolva ao povo expulso de suas casas. Já se passaram dois meses e até agora o Governo Dilma não se posicionou, o que revela uma grande insensibilidade social por parte deste governo", aponta o militante.
 
Ato show em Cascavel #25M

Bandas confirmadas:

• Amnésia-Rock (Cascavel)
• Os Zens (Cascavel)
• Zeca Urubu (Cascavel)
• Alan (Cascavel)
• Judah (Marechal Rondon)
• Manifesto (Assis Chat. e Maringá)
• Horror Machine (Cascavel)
• Alto Esplanada (Toledo)
• Maryzombie “Banda das Meninas” (Cascavel)

Ingressos: R$ 5,00
Local: Adega Nostravamus, Rua Jorge Lacerda, 1551, no Bairro Claudete

sexta-feira, 16 de março de 2012

'Workshop' de Fotojornalismo em Cascavel

Joka Madruga em atividade (Divulgação)

Nos dias 24 e 25 de março (sábado e domingo), o repórter fotográfico Joka Madruga estará em Cascavel para ministrar um workshop sobre fotojornalismo. O curso será realizado na antiga sede da APP-Sindicato, (Rua Francisco Bartinik, 2017, Jardim Cristal) e terá 12 horas de duração. Das 08h às 18h no primeiro dia e das 08h às 12h no segundo dia, com intervalo para almoço e café.

Na ocasião, cada participante poderá aprimorar o conceito de fotojornalismo, dentro do universo maior que é a fotografia e terá a oportunidade de produzir imagens sob a ótica e orientação de um profissional experiente, com registro no Ministério do Trabalho, membro da Arfoc (Associação de Repórteres Fotográficos e Cinematográficos) e freelancer de agências de imagens.

Além das aulas teóricas, com apresentação do trabalho de Joka Madruga e de outras referências do fotojornalismo, o curso também oferecerá saída fotográfica pelas ruas de Cascavel, para a captação das imagens, com dicas de edição e tratamento das imagens. Na sequência será feita uma avaliação do material produzido.

O curso é voltado para fotógrafos profissionais e amadores, estudantes de comunicação, sindicalistas, assessores de imprensa e interessados em fotojornalismo. Para participar, é necessário possuir câmera fotográfica e saber operar seu equipamento.

A realização é da Agência Terra Livre Press e do jornal Brasil de Fato, com apoio do Sindijor-PR (Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Paraná), por meio da Subseção de Cascavel, APP-Sindicato e Senge-PR (Sindicato dos Engenheiros do Paraná).

As inscrições vão até 22 de março, com vagas limitadas, e devem ser feitas pelo e-mail: oficinas@jokamadruga.com. Informações com o próprio Joka Madruga, no fone: (41) 9938-3744. O custo do workshop é R$ 200, com desconto de 20% para filiados ao Sindijor-PR e APP-Sindicato.

Palestrante

Joka Madruga é repórter fotográfico com registro profissional no Ministério do Trabalho e Emprego, associado à Arfoc (Associação de Repórteres Fotográficos e Cinematográficos) e mora em Curitiba. É editor da Agência de Fotojornalismo Terra Livre Press e tem vasta experiência de trabalho na capital, no interior e no litoral paranaense, além de outros estados do país.

Realizou exposições fotográficas, documentários e foi fotógrafo do Governo do do Paraná e da atual ministra da Casa Civil, Gleisi Hoffman, na oportunidade em que foi candidata a prefeitura de Curitiba. Presta serviços para agências de fotografia, empresas, sindicatos e movimentos sociais. Suas imagens já foram publicadas em grandes jornais e portais do Paraná e do Brasil.

Para conhecer melhor o trabalho de Joka Madruga acesse: www.jokamadruga.com

terça-feira, 13 de março de 2012

Sindicatos e FENAJ buscam unidade regional

Schröder (FENAJ), Zé Nunes (RS), Marcio Rodrigues (PR) e Valmor Fritsche (SC)
Jornalistas, sindicalistas e assessores de sindicatos deram um importante passo no sentido de promover uma unificação regional da categoria e elaborar uma pauta unificada de lutas. Com intuito de fazer uma construção de atuação coletiva, profissionais dos três estados do Sul participaram nos dias 3 e 4 de março do 1º Seminário Regional Sul de Campanha Salarial e Negociação Coletiva, em Florianópolis.

Os dirigentes sindicais tiveram oportunidade de conhecer a realidade local dos jornalistas de cada estado, expondo as dificuldades e conquistas obtidas por cada entidade sindical. Além da presença dos Sindicatos de Jornalistas do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, o seminário contou com a participação de diretores da FENAJ (Federação Nacional dos Jornalistas), entre eles o presidente Celso Schröder, e os membros da executiva: Sergio Murilo de Andrade (ex-presidente), José Carlos Torves e Valci Zucholoto.

A unidade regional foi o ponto central da reunião, porém outros temas do cotidiano da profissão foram colocados nas mesas de discussões, como a questão da obrigatoriedade do diploma de Jornalismo, um piso nacional unificado, democratização da comunicação, estágios e assessoria de imprensa.

"A defesa do diploma e do terceiro grau é uma luta que vem nos consumindo durante a última década, mas que exigirá um último esforço nessa reta final. A aprovação da PEC [em trâmite no Congresso Nacional] que reestabelece a obrigatoriedade da formação exigirá uma mobilização junto aos senadores e principalmente articulação junto aos deputados", reiterou Celso Schröder.

O presidente da FENAJ lembra que a formação superior é a maneira mais democrática de acesso à uma profissão. "O terceiro grau é universalização do acesso a uma profissão (...) ao contrário do que disse Gilmar Mendes e outros setores conservadores, a atitude jornalística não é originária da relação de emprego, mas sim de uma condição de profissão".

Em relação a um piso nacional para os jornalistas, proposta apresentada por meio de um projeto de lei pelo deputado André Moura (PSC-SE), Schröder lembra que a intenção foi aprovada durante Congresso Nacional dos Jornalistas em 1985. Na época, a proposta foi vetada pelo então presidente da República, José Sarney, político que sempre teve relações estreitas com empresários da comunicação. "Mesmo com o avanço da economia, a categoria não conseguiu recuperar perdas dos anos 80, tanto do ponto de vista de representação sindical quanto salarial", destaca Schröder.

Para o dirigente, essa realidade se reflete dentro das redações. "As relações trabalhistas nas redações são 'medievais', são praticamente pré-capitalistas no seu modo de produção (...) essa concentração de monopólios liquida qualquer capacidade de se impor um Plano de Carreira para o jornalista, por exemplo".

Lucratividade

Dados importantes para o quadro de negociações dos jornalistas foram expostos pelo jornalista José Carlos Torves, especialmente com a exposição de números de lucratividade e a expansão que grandes empresas de comunicações da região Sul, como o grupo RBS, GRPCom e RIC/Record tiveram ao longo de 2011.

Os números são reveladores e contrapõe o discurso das mesas de negociações por parte dos patrões, que tentam 'sensibilizar' a categoria com o chororô que os meios de comunicação estariam passando por uma 'crise'. Para se ter uma ideia, a RIC, com suas quatro afiliadas e mais três emissoras de rádio ligadas a Jovem Pan, estimam uma expansão no Paraná de 35% em 2012, com investimento de cerca de R$ 1 milhão em estrutura física.

Já o GRPCom (Grupo Rede Paranaense de Comunicações) prevê para 2012 um crescimento de 6 a 8% no faturamento em comparação com o ano passado e um expansão de 15% em relação aos spots. O grupo conta com oito emissoras afiliadas da Rede Globo no Estado, duas revistas, um portal de notícias, o jornal Gazeta do Povo e duas emissoras de rádio (89 FM e Mundo Livre), caracterizando um verdadeiro monopólio das comunicações.

Segundo Torves, o crescimento médio dos meios de comunicação no Brasil em 2011 foi de 8,5%. Outro número interessante vem do segmento impresso (jornais), que obteve um faturamento bruto de R$ 3,36 bilhões, alta de quase 4% em relação a 2010.

Democratização

A pauta da democratização da comunicação também fez parte do seminário e alvo de críticas ao governo federal. Para os diretores da FENAJ, algumas derrotas foram registradas. "A nossa expectativa com o Governo Lula era de que essa pauta, até então ignorada totalmente pelos governos do PSDB, passasse a ser prioritária, porém tivemos algumas derrotas. Conseguimos impor uma conferência [Confecom], mas o governo não deu sequência. O governo esvaziou a conferência, onde tivemos mais de 200 conferências municipais, mais de 2 mil pessoas participando, porém o centro do governo desconstruiu e acabou protelando o processo de regulação dos meios de comunicação", analisa Schröder.

Ao final do Seminário Regional Sul, os dirigentes encaminharam a proposta da formação de uma comissão para traçar estratégias de atuação coletiva entre os três estados, grupo liderado pelos presidentes dos sindicatos do Paraná, Márcio Rodrigues; José Nunes (RS), Valmor Fritsche (SC), além Ayoub Hanna Ayoub, do Sindicato do Norte do Paraná, que não pôde comparecer ao seminário.

sexta-feira, 2 de março de 2012

Luta pela reforma agrária na região Oeste


A convite das direções de Brigadas do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra) da região Oeste do Paraná, representantes do Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária), do Governo do Paraná, movimentos sociais urbanos e autoridades políticas, como o deputado Professor Lemos (PT), participaram nesta quinta-feira (01/03) de uma assembleia do movimento social no Acampamento 7 de Setembro, na Fazenda Rimafra, distrito de São João em Cascavel.

A reunião teve o objetivo de sensibilizar as autoridades para a luta pela terra na região e a aceleração no processo de regularização de áreas que estão em negociação por parte do Incra para fins da reforma agrária, entre elas, o próprio Acampamento 7 de Setembro, ocupação que completa sete anos em 2012. A área próxima à BR-277, onde vivem mais de 100 famílias, está em fase de negociação. Os proprietários da terra tem uma dívida de cerca de R$ 12 milhões pendente com o Estado, que vem intermediando a negociação junto ao Incra.

Como tradicionalmente ocorre nos encontros organizados pelo MST, o ato foi aberto com uma mística, ritual com raízes no milenarismo camponês. A apresentação dos militantes é feita em especial pelas crianças – conhecidos como 'sem-terrinhas', e constitui-se numa prática pedagógica e educativa do MST.  

Ireno Prochnow, membro da direção estadual do MST, deu boas vindas aos presentes e lembrou os primeiros passos do movimento. "Foi aqui em Cascavel, entre os dias 19 e 21 de janeiro de 1984, que iniciamos nossa caminhada. Chegamos até aqui com muito a comemorar, ao longo desses anos de luta, tiramos mais de 500 mil pessoas da miséria no País, sendo 25 mil delas somente no Paraná. Já assentamos mais de 500 famílias no Estado, mas ainda temos mais de 600 famílias acampadas", lembrou o militante.

Grilagem

O superintendente regional do Incra, Nilton Bezerra, apresentou um panorama da questão agrária no Paraná e as estratégias que vendo utilizadas pelo órgão. Para ele, o Estado vive um bom momento. "Não tivemos registro de um único despejo no ano passado e estamos em processo avançado de negociação de áreas em situação de reintegração".

Uma das estratégias utilizadas está sendo a da compra das áreas. Segundo Bezerra, existem 72 áreas com reintegração de posse no Paraná, sendo 51 delas em processo de negociação por parte do Incra. "Além disso, todos os assentamentos do Estado contam com assistência técnica", afirma.

Terras que são fruto da grilagem no Paraná também estão sendo alvo de uma 'garimpagem' por parte do órgão. "As pessoas não fazem ideia do tanto de áreas griladas que existem no Paraná, áreas 'esquentadas' em cartório. Estamos garimpando e encontrando formas de trazermos essas áreas para fins de reforma agrária", afirmou Bezerra. 

Nas terras griladas está a raiz de grande parte da concentração fundiária. Bezerra cita o desfecho positivo em relação à Fazenda Solidor, em Espigão Alto do Iguaçu. A área foi recentemente transferida para a posse do Incra. "Depois de vários anos, de uma ocupação de 10 anos, conseguimos provar que aquela era uma área pública. Nessa semana ela foi registrada pelo Incra", lembrou o superintendente.

"O Incra reconhece a importância do Movimento Sem-Terra, foi-se a época em que o Incra tratava o MST como inimigo, por isso reconhecemos a importância da luta do movimento pela reforma agrária, pois os governos passam, mas o povo fica e o que deve permanecer acima de tudo, é a organização desse povo", conclui Bezerra.

Direito à vida

Representando o governo estadual, o secretário especial de Assuntos Fundiários, Hamilton Seriguelli, afirmou que o Executivo está buscando diálogo e negociação com o movimento social. "Reforma agrária não é caso de polícia, mas de negociação. Prova disso é que não houveram despejos durante nosso governo, estamos buscando resoluções pacíficas".

Para Seriguelli, o Oeste do Estado é uma das regiões mais difíceis de atuação da pasta. "Não é fácil trabalhar aqui não, a PGE [Procuradoria Geral do Estado] tem feito seu papel. O Estado já ajuizou R$ 700 milhões em dívidas de gente grande aqui na região e isso tem deixado muitos descontentes".

O secretário também reconheceu a importância histórica do MST. "Muita gente não consegue perceber que se não fosse a pressão do movimento nas décadas de 80 e 90 muita coisa seria diferente hoje. O preço dos produtos nos mercados, por exemplo, estaria bem mais caro para o consumidor dos centros urbanos", e completa: "O que está em jogo aqui não é direito à propriedade, mas sim o direito à vida".

Lembrança

O ex-militante Valmir Mota de Oliveira, o Keno, assassinado em 2007 por uma milícia durante um conflito na antiga estação da multinacional Syngenta, em Santa Tereza do Oeste, foi lembrado nas falas dos companheiros do movimento. "Tivemos momentos tristes que precisam ser lembrados, como a morte do companheiro Keno, momentos que esperamos nunca mais passar", lembrou Ireno Prochnow. Na época em que foi morto, Keno morava com a mulher e os filhos no Acampamento 7 de Setembro.  






segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Abaixo o fascismo. Viva o pebolim!

Você pode não ter ouvido falar do espanhol Alejandro Finisterre, mas provavelmente já passou algumas horas de sua vida se divertindo com sua invenção. Esse poeta, escritor e editor é o pai do jogo que na língua espanhola é conhecido como "futbolín".

Que carioca não gosta de um desafio de "totó" ou que gaúcho já não peleou numa partida de "pacau", mas a maioria dos estados brasileiros pratica mesmo o "pebolim". Esse brinquedo que tem seus regionalismos no Brasil é ainda conhecido como "mete-gol" na Argentina, "baby-foot" na França ou "matraquilhos" em Portugal.

Na semana passada, no dia 9 de fevereiro, completou-se cinco anos da morte de seu inventor, que tem uma história que merece ser compartilhada. Ironia do destino que a origem de um jogo que hoje diverte milhões seja um dos momentos mais tristes da Europa, na ascensão do nazismo e do fascismo nas décadas de 30 e 40.

Tudo teve início com uma ida de Alejandro Finisterre ao hospital, após ser ferido por uma bomba lançada por nazistas em Madri, em 1936, durante o auge da Guerra Civil Espanhola. Retirado de escombros, ele é levado a um hospital de Valencia e depois a outro hospital em Monserrat, região da Catalunhã. Por lá, Finisterre se depara com mutilados de guerra e muitas crianças.

Apaixonado por futebol, Finisterre se sensibiliza ao ver tantas crianças impossibilitadas de ter uma infância comum por causa da guerra, de não poderem estar se divertindo numa partida de futebol, por exemplo. Isso lhe inspira a criar o "futbolín" perto do Natal de 1936.

Com a ajuda do carpinteiro basco Francisco Javier Altuna, contrói a mesa e torneia os jogadores. Um dos líderes da CNT (organização sindical) e da FAI (anarquista), Joan Busquets, que tinha uma fábrica de refrigerantes, se anima a patentear a novidade. Em 1937, o pebolim é patenteado, mas Finisterre perde os documentos durante um voo à França em meio à uma tempestade, durante uma fuga do fascismo franquista.

Finisterre precisa atravessar o Pirineus a pé, levando na mochila a patente, uma lata de sardinha e duas obras de teatro que escreveu. Como disse o próprio Alejandro Finisterre em uma entrevista, a forte chuva fez os papéis da patente se converterem em "argamassa". Já instalado em Paris, Finisterre decide buscar as patentes nos arquivos de Salamanca, pois toma conhecimento que um companheiro de hospital, Magí Muntaner (do Partido Operário Unificado Marxista) tinha patenteado o futbolín em Perpinyà.

Muntaner teria escrito para contar sobre a patente, mas as cartas teriam se perdido. Finisterre então vai à empresa que estava fabricando o brinquedo na Espanha, que acaba lhe dando dinheiro para seu exílio na América Latina.

No Equador, funda uma revista dedicada aos poetas latino-americanos e na apresentação da publicação conhece o embaixador da Guatemala, que lhe anima a fabricar o pebolim em terras guatemaltecas. Segundo Finisterre, as primeiras amostras do brinquedo no continente são feitas por mãos indígenas e tendo como material o mogno de Santa Maria.

Na Guatemala, Finisterre é apresentado a Hilda Gadea, então companheira do guerrilheiro Ernesto Che Guevara. Já conhecendo a fama do argentino consegue ser apresentado à Che no Centro Republicano Espanhol da Guatemala e lhe mostra a sua invenção. "Marcamos gols juntos, tínhamos estilos parecidos", contou Finisterre em uma de suas últimas entrevistas.

Com o golpe de estado do ditador Carlos Castillo Armas, Finisterre deixa à Guatemala em direção ao Panamá. Mais tarde vai para o México onde encontra amigos poetas e escritores exilados e dedica-se às artes gráficas e a editar revistas. 

Com a morte do ditador Francisco Franco, o galego volta à Espanha. Se estabelece em Zamorra, onde administra a herança do poeta republicano Leon Felipe. Morre em 9 de fevereiro de 2007, então com 87 anos. Outros registros dão conta de um alemão chamado Brotto Wachter e um suíço conhecido como Mr. Kicher reivindicarem a "paternidade" do pebolim, personagem secundários diante da história de Finisterre.


Abaixo o clipe da música "Ode ao Futbolín", homenagem do grupo "Os Diplomáticos de Monte Alto" à Alejandro Finisterre.


quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

O show, o general e a soberania alheia

Estava quase convencido a não postar nada sobre o show rural, confesso que o assunto não me atrai e a cobertura da mídia corporativa já é mais do que suficiente, mas algumas lembranças me fizeram acabar dando um "pitaco", não sobre a feira em si que acontece desde 1989 em Cascavel – quando ainda era Dia do Campo – e que hoje tem uma "aura" espetaculosa, de vitrine de grandes transações, ao qual o antigo nome já não teria o menor sentido.

Também não vou discutir modelo agrícola, da escolha pela agricultura familiar voltada a produção orgânica ou a das monoculturas dos agrotóxicos e das commodities - pois tecnicamente um camponês tem bem mais propriedade (não posse) para tanto. Melhor deixar o assunto para outra ocasião, pois certa vez em minhas andanças pela imprensa comercial fui colocar o debate em pauta em uma entrevista com o presidente "vitalício" da cooperativa e a resposta não foi das mais "educadas".

A lembrança de quando ainda me aventurava na mídia tradicional (...) e minha recordação da feira me fez buscar um exercício de contextualização sobre outro tema: a luta pela terra. Confesso que não lembro em quantas oportunidades precisei fazer a "cobertura política" do show. O simples fato da feira ter uma cobertura política já é um caso à parte, afinal, alguns "figurões" sempre fazem do evento seu próprio "showzinho" particular, principalmente quando a feira coincide com anos eleitorais.

Nesse clima, "autoridades estabelecidas" desembarcam no velho oeste e desfilam pelas ruas internas do parque como se fosse uma passarela eleitoral, escoltados por um rol de "aspones", outras "otoridades" não tão estabelecidas ainda e uma comissão de frente capitaneada por um fiel "relações públicas". Os figurões criam um clima de cordialidade mútua, apertos de mãos, tapinhas nas costas e sorrisos amarelos. Puxa-sacos de plantão, figurões locais e parte da imprensa ajuda no cenário com a massagem no ego desses "craques", dessas figurinhas carimbadas.

Em uma dessas oportunidades - em 2009 - estava entre os figurões o ex-general paraguaio Lino Oviedo, muito bem quisto no evento devido à amizade com grandes produtores rurais da região. Lembro que enquanto alguns falavam da "magnitude da feira", resolvi questioná-lo sobre a luta agrária no Paraguai e a questão dos brasiguaios - que não é de hoje e nem da última década, mas que teve início no final dos anos 70.

O papo com Oviedo - não só pela feira em si, mas pela forma como grande parte da mídia corporativa  trata a situação - me veio à lembrança nos últimos dias. Lembro do militar culpar Fernando Lugo pela situação na fronteira, lembro dele exaltar a produção dos "sojeiros", mas de maneira alguma tocar na contextualização histórica ao ser incitado. O foco de Oviedo - hoje candidato declarado à Presidência do Paraguai - se assemelha em muito ao enfatizado pela imprensa tupiniquim.

Todos sabemos que a luta pela terra no Paraguai tem se acentuado com as ocupações feitas pelos "carperos", cerca de 18 mil camponeses que não possuem terras em seu próprio país, mas que não tem o mesmo espaço editorial na nação ocupada em grande parte por latifúndios de brasileiros, que tiveram uma "mãozinha" na aquisição dessas propriedades. 

A lógica agrária no Paraguai sempre esteve diretamente ligada aos partidos tradicionais do país, que instauraram durante décadas um poder ditatorial no campo. Os poderes militares e autoritários que dominaram o país até a eleição de Lugo promoveram por décadas, na base da repressão e dos benefícios concedidos a setores e funcionários do Estado, uma política agrária nacional conhecida como de "bem-estar rural", onde os beneficiados foram latifundiários e a burocracia político-militar.

Enquanto a propaganda da imprensa brasileira e paraguaia (em partes) vende o "desenvolvimento" e a "modernização do campo", o que se tem visto é que os latifundiários sojeiros não estão preocupados em enriquecer a economia paraguaia, pelo contrário, tem provocado empobrecimento do solo, redução da quantidade de terra para o plantio de alimentos, encarecendo os preços dos produtos agrícolas. Essa é a lógica da agricultura de monocultura extensiva das commodities.

Entender a situação agrária no Paraguai passa por lembrar que na década de 70, o governo militar de Alfredo Stroessner passou a entregar praticamente de graça as terras de seu país aos latifundiários brasileiros. Até 1967, existia por lá uma lei que proibia a compra de terras por estrangeiros na faixa de 150 km de suas fronteiras. Com a abolição da lei, houve uma migração em massa de brasileiros para o Paraguai, inclusive da região Oeste e Sudoeste do Paraná. A partir daí, o Paraguai passou a ter a soja como principal base de sustentação e sua principal pauta de exportação, tornando-se refém de grandes multinacionais.

Tratar o tema do campo no viés do clima do medo e do "estado de exceção" cheira a orquestração, é colocar trabalhador contra trabalhador, pois apesar de poucos noticiarem muitos desses brasiguaios são trabalhadores que foram trabalhar em grandes fazendas de grileiros brasileiros, ou seja, também são sem-terras que precisam ser assentados em seu país de origem, mas que são constantemente jogados contra sem-terras paraguaios. E não será conclamando o braço militarizado de Estado que a situação se resolverá.

Luta pela terra é questão de soberania nacional, um debate que retornou e tem se acentuado no Paraguai nos últimos anos. Ele ficou engasgado durante anos de ditadura e tentativas de golpes de Estado, entre elas uma que - diga-se de passagem - o próprio Oviedo é acusado de tramar. Com o retorno do debate, retornaram as lutas sociais na nação vizinha, mas ao avaliarmos a cobertura de grande parte da imprensa corporativa - tão em sintonia com o modelo dos feirões do agrobussiness - podemos tirar a conclusão que muitos no Brasil ainda têm problema com a democracia, especialmente a democracia alheia.