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segunda-feira, 1 de abril de 2013

A verdade e memória dos jornalistas


Recuperar a memória, não com o objetivo de saudar o passado, mas para que ele seja reescrito com páginas diferentes. Essa frase, de autoria do escritor uruguaio Eduardo Galeano foi dita ao jornalista da ESPN Brasil, Lucio de Castro, no documentário Memórias de Chumbo: O futebol nos tempos do Condor.  A série - dividida em quatro parte - mostra como as ditaduras militares na América do Sul que integraram a Operação Condor estiveram presentes no esporte, transformado na época em ferramenta de propaganda pelos regimes autoritários.

A Operação Condor – a multinacional do terror criada para exterminar a oposição de esquerda aos governos ditatoriais – foi o grande elo entre os países que passaram por um período triste da história do Cone Sul. Período esse que é lembrado no fim do mês de março. Nossos 'hermanos' lembraram os 37 anos do golpe na Argentina no último dia 24 de março, enquanto que no Brasil tivemos o nosso 'dia D' iniciado no dia 31 de março e concluído no dia 1º de abril.


Esse tema sempre me chamou a atenção, não somente enquanto 'curioso' e entusiasta da história de nosso continente, mas também na condição de jornalista profissional. Sob as garras do Condor, o direito à informação foi violentado de forma brutal e profissionais da imprensa foram perseguidos, torturados e assassinados nessa longa noite que perdurou 21 anos em nosso país.


Atualmente temos o debate acerca da Comissão da Memória e Verdade e é de fundamental importância a participação de jornalistas nesse processo, uma vez que a categoria tem muito a contribuir. Em novembro do ano passado tive a oportunidade de participar do 35º Congresso Nacional de Jornalistas, em Rio Branco no Acre e, de toda a programação, o que mais me chamou a atenção foi uma palestra de Gilney Viana, atual Assessor Especial da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República e coordenador do Projeto Direito à Memória e à Verdade da SDH.


Na oportunidade, o ex-militante da Ação Libertadora Nacional (ALN) fez uma convocação que acho primordial; um chamado aos jornalistas brasileiros a assumirem uma postura militante em relação aos crimes e violações contra os direitos humanos ocorridos no período da ditadura civil-militar. Precisamos assumir uma postura, uma posição, uma vez que companheiros foram exilados, torturados e mortos no período.


Sindicatos de jornalistas sofreram intervenções e as redações foram as primeiras a serem visitados pelos militares. Os profissionais de esquerda, àqueles que trabalhavam com comunicação de alguma forma e que eram ligados aos meios alternativos foram os primeiros perseguidos pelo regime. Levantamentos preliminares apontam que pelo menos 24 jornalistas teriam sido mortos durante os chamados 'Anos de Chumbo' no Brasil, além das situações de violências, torturas e desaparecimentos.
Alguns casos são emblemáticos, como do jornalista Mario Alves, que dirigiu os jornais Novos Rumos e Voz Operária, morto aos 46 anos sob brutais torturas em 17 de janeiro de 1970 na cidade do Rio de Janeiro e, é claro, a morte de Vladimir Herzog que recentemente ganhou um novo capítulo com sua famílias recebendo um novo atestado de óbito após 38 anos.
Antes de ser assassinado pelos torturadores do Doi-Codi, Vlado – como era conhecido – foi vítima de uma campanha difamatória pela parte da imprensa que apoiou o golpe militar. A exigência era que “no mínimo” ele fosse preso e silenciado em virtude de suas posições. A campanha fascista contra Herzog foi denunciada por alguns colegas, como Alberto Dines (Observatório da Imprensa), porém o que não impediu o desfecho trágico de Vlado.
Episódios de uma ditadura odiosa, que atacou frontalmente a liberdade de imprensa, de expressão e de informação. Um regime que fez prisões sob a forma de sequestro, deu um golpe de estado, destitui um presidente eleito, acabou com partidos políticos, impondo o bipartidarismo no país. Um regime que jogou na ilegalidade dezenas, centenas, milhares de pessoas. É reducionismo falar em ditadura e citar apenas as torturas e assassinatos, pois foi uma época que foi além, que cassou direitos da classe trabalhadora, direitos civis, cassou a esperança de um povo diante do domínio ideológico imposto pelos golpistas.
No momento que recordamos os 49 anos do golpe faz-se necessário voltarmos nossos 'olhares jornalísticos' para as violências sofridas pela nossa categoria na ditadura civil-militar, para os casos de censura e cerceamento. A criação de uma Comissão da Verdade da Federação Nacional de Jornalistas (Fenaj) vem neste sentido. É uma iniciativa importante, uma vez que a categoria tem sua história marcada por agressões sofridas e pela resistência. É importante essa constituição de relatos, documentos, arquivos audiovisuais, pois como bem aponta Gilney Viana "a batalha do passado se refere ao presente e ao futuro".

quarta-feira, 28 de março de 2012

Mobilizações pela memória, verdade e justiça

Tirinha do cartunista Carlos Latuff
Às vésperas de completarmos 48 anos do golpe civil-militar de 1964, o debate sobre o direito de apurar crimes praticados pela ditadura retoma força na sociedade por meio da criação da Comissão Nacional da Verdade. Nesta quinta-feira (29/03), a partir das 17 horas, a Boca Maldita, tradicional ponto de Curitiba, será palco de nova manifestação pela instalação imediata da Comissão da Verdade. Os manifestantes também vão convidar a população para o lançamento do Fórum Paranaense de Resgate da Verdade, Memória e Justiça, que acontecerá no dia 12 de abril, no Teatro da Reitoria da UFPR (Universidade Federal do Paraná).
 
Na última segunda (26/03), diversas organizações sindicais e populares ocuparam a Boca em ato semelhante.  Em Fortaleza, São Paulo, Belo Horizonte, Porto Alegre e Belém ocorreram ações diante de residências e locais de trabalho de ex-policiais e ex-militares acusados de tortura, estupro e assassinato de presos políticos durante a ditadura civil-militar (1964-1985). Tais ações, organizadas pelo Levante Popular da Juventude, contaram com o apoio de sindicatos e agremiações de esquerda. Em Curitiba, foram expostos banners com o nome dos mais violentos torturadores que atuaram no Paraná. Alguns jovens declamaram poemas em homenagem a militantes torturados e assassinados pela ditadura.
 
Criada no fim de 2011, a Comissão da Verdade ainda não foi instituída oficialmente pelo governo federal. Sua tarefa institucional é estabelecer quais circunstâncias em que as mortes, a tortura e a violência de Estado foram realizadas no Brasil. Apurar a responsabilidade dos militares e servidores públicos da época, que teriam participado de atos da ditadura, mas também dos próprios civis que participaram de estruturas não governamentais, empresariais, aliadas à repressão. A demora em instituir oficialmente a Comissão - na visão dos movimentos sociais - permite que clubes militares e outros grupamentos que sustentaram o golpe e participaram da repressão se manifestem de forma cada vez mais agressiva contra a sua instalação.

Também nesta quinta-feira (29/03), o Clube Militar do Rio de Janeiro promove mais um evento para comemorar o golpe, ao qual chamam de "revolução de 64", e reafirmar sua posição contra as investigações. O Coronel Brilhante Ustra, notório torturador, é um dos organizadores da "comemoração". O mesmo clube já havia lançado um manifesto atacando a iniciativa da criação da Comissão.
 
Para as organizações de esquerda, mesmo passados quase 30 anos da queda da ditadura, é preciso que o Brasil inicie o processo de apuração e punição dos crimes, como vem sendo feito na Argentina, no Chile, no Uruguai entre outros países latino-americanos. Vale lembrar que recentemente a Anistia Internacional denunciou que "o Brasil continua atrasado em comparação com demais países da região em sua resposta às graves violações de direitos humanos cometidas no período militar".

Cascavel

Em Cascavel, o período conhecido como "Anos de Chumbo" será lembrado pela palestra e espetáculo musical: "O Golpe de 64 e os golpes contra a memória". O evento acontecerá nesta sexta-feira (30/03) no anfiteatro da Unioeste (Universidade Estadual do Oeste do Paraná), a partir das 19h30. A palestra será ministrada pelo professor Alexandre Felipe Fiúza e o espetáculo será conduzido pelos músicos Cristini Colleoni, Sil Vaillões, Giovani Pinheiro e Alan Villaverde.
 
A promoção do evento é do Mestrado em Educação/ Colegiado de Pedagogia/ CECA/ Grupo de Pesquisa História e Historiografia na Educação da Unioeste. As inscrições serão gratuitas no local, com emissão de declaração de participação de três horas/aula.

Estudioso do período, Alexandre Fiúza é doutor em História Contemporânea. O evento será uma bela homenagem aos que lutaram e combateram esse período tão triste de nossa história.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Uma ostra reencarnada, direito do mundo dos mortos

Um fenômeno sobrenatural teria acontecido em Santa Catarina. Eleitores zumbis estariam se filiando a um determinado partido político que debuta no emaranhado de siglas de nosso sistema partidário-fisiológico. Cinco eleitores mortos teriam assinado ficha de apoio a criação do Partido Social Democrata barriga verde. Essa "adesão" em massa – de gente saindo pelas tumbas – pode ser explicada pelo fato que o PSD é uma reencarnação.

Reencarnação de um dos maiores símbolos da fisiologia histórica da política partidária brasileira, o PDS – Partido Democrático Social. Hibrido da extinta Arena, que protagonizou junto com o MDB um mundinho bipolar, a legenda representou durante um tempo - enquanto esteve no poder - o vigor da direita nacional, porém ao passar para oposição começou a declinar até cair no esquecimento.

Dividido, surgiram dissidências que criaram o PFL e PP, sempre representando anseios elitistas. O fim da frente dos "liberais" todos conhecemos, enquanto os progressistas seguiram seu caminho sempre pela ordem e com um progresso direcionado.

Voltando ao reencarnado, algo desperta atenção desde o parto do agora PSD. Uma frase de seu criador: o prefeito de Sampa, Gilberto Kassab que, em entrevista a Rádio Estadão, soltou a pérola: "O PSD não será de direita, não será de esquerda, nem de centro". "Cuma"?...

Essa verborréia é facilmente digerida ao avaliarmos o fenômeno de homogeneização que vem tomando conta do quadro político brasileiro. O fisiologismo de legendas e o oportunismo de seus personagens transformaram a política em campo minado para àqueles com posição: seja ela de esquerda ou de direita.

O discurso que "não existe mais esquerda e direita" vem daí, seduz uma grande parcela da população, especialmente setores da elite que sentem vergonha de assumirem posições mais conservadoras, além dos que pousam de esquerda, mas que não passam de "reformistas" que se assustam com qualquer programa que vise transformações mais radicais.

A hegemonia do centro está impregnada. A criação do PSD confirma essa convergência, que também contamina a população de uma maneira geral. Ninguém assume posição, seja de esquerda ou de direita, todos preferem se velar.

Na opinião desse blogueiro, a frase do Kassab significa um anúncio de mercado do tipo: "topamos qualquer negócio". Foi um aviso as demais siglas fisiológicas, seja do campo conversador, seja do campo "progressista": tendo mandato, ele pode ser negociável, uma maneira de mercantilizar cargos, benesses e posições dentro do jogo político.

Não há dúvida que o PSD foi parido numa placenta de direita, mas não foi gerado com discurso de oposição ferrenha ao centrista governo petista.  Em recente entrevista ao jornal Brasil de Fato, o professor Francisco Fonseca, da USP, explica bem o cenário: "na prática, o partido do Kassab vai ser base do governo, só atuando como força de veto, ali dentro, quando questões mais fundamentais de seus interesses estiverem realmente sob ameaça", avalia.

Kassab quer se dissociar de simbólicos "liberais", como Agripino Maia, César Maia e Antônio Carlos Magalhães e sair por cima na derrocada do moribundo DEM, que já elegeu 105 deputados federais e 14 senadores e que hoje se resume a 44 deputados e dois senadores.

O paulistano está trazendo algumas figuras caricatas como Índio da Costa, Kátia Abreu e políticos que dentro de seus estados representam oligarquias, mas a grande verdade é que a legenda "Frankstein" não acrescentará nada de novo ao quadro político brasileiro.

Será mais uma sigla de aluguel, um partido conservador de programa retrógrado, baseado na cartilha liberal. Será um Partido Sem Direção, disposto a se tornar legenda palaciana e chapa-branca se assim for conveniente, remetendo-se ao seu DNA antigo, que era conhecido como a ostra incrustada na nau do Estado. É a ostra reencarnando com direito à apoiadores do mundo dos mortos-vivos. 


* A ilustração acima com o engravatado com jeitão de político liberal é do clássico A Noite dos Mortos Vivos, de George Romero. Vai a dica para quem ainda não viu...