quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Valmir Mota em festa: a conquista da terra e dignidade

Emoção marcou o sorteio dos lotes aos assentados
A realização de um sonho, a conquista de uma terra para produzir e criar raízes, a luta pela dignidade. A vitória de 83 famílias que se tornaram oficialmente moradoras do Assentamento Valmir Mota de Oliveira, em Cascavel, no Oeste do Paraná, e que comprovaram que a Reforma Agrária dá certo!

A festa organizada nesta semana pelos militantes do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) não foi o simples ato do sorteio dos lotes por parte do Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária), mas sim a reafirmação que o movimento social mais legítimo do país segue resistindo, vencendo o preconceito e a criminalização de grande parte da sociedade de nossa conservadora "fazenda iluminada", onde os interesses do agronegócio seguem controlando a mídia e os intitulados "ruralistas" seguem acreditando serem donos da região.

Foram 13 anos desde a ocupação do Completo Cajati e dois anos na área que se instalou o Assentamento Valmir Mota, uma das fazendas compradas pelo Incra para fins da Reforma Agrária. Uma luta simbolizada pela tradicional mística e pelas palavras de um dos coordenadores do movimento na região. "Isso aqui só foi possível graças as nossas lutas, nossas marchas, nossos protestos e enfrentamentos. A luta pela terra nos une e já levou alguns de nossos companheiros, como o Keno, que está presente aqui entre nós, que continua presente na nossa luta", disse Celso Barbosa, em menção ao militante sem-terra executado por milicianos na antiga estação da multinacional Syngenta, em Santa Tereza do Oeste, e que dá nome ao assentamento.

Para o superintendente do Incra, Nilton Bezerra, o Assentamento Valmir Mota de Oliveira será exemplo de moralidade, produtividade e do ponto de vista social. "Essa é uma área emblemática, é uma conquista histórica destes trabalhadores que seguem resistindo numa região crítica como essa", disse Bezerra, referindo-se a atos de violência protagonizados por milícias armadas que já marcaram a disputa pela terra no Oeste, além de citar a "campanha" de grande parte dos meios de comunicação. "Infelizmente a mídia regional é ligada ao agronegócio e trata a reforma agrária de maneira distorcida".

O reverendo da Igreja Anglicana, Luiz Carlos Gabas, acompanha a caminhada dos movimentos sociais e a luta dos assentados do Valmir Mota. "Essa conquista pode parecer pequena para alguns, mas representa muito para aqueles que lutam pela dignidade, que lutam contra o poderio do agronegócio. O grande temor dos poderosos, da burguesia, é quando o povo pobre, os mais humildes alcançam vitórias por meio da organização e da luta", disse o religioso, deixando um recado às famílias beneficiadas. "A luta prossegue companheiros, não se esqueçam daqueles que ainda estão acampados embaixo das lonas pretas".

O recado do religioso é significativo, uma vez que a luta continua. Existem ainda outras 400 famílias acampadas na área do complexo à espera da regularização. A conquista das 83 famílias assentadas de forma definitiva é uma resposta a muitos que criminalizam e desqualificam o movimento. Já a emoção de cada assentado fica impossível descrever, quem sabe uma frase no momento que o almoço estava sendo servido possa ajudar: "Não sei se eu almoço, se choro ou se continuo com esse sorriso que vai de orelha em orelha", disparou o camarada Ildemar Frohleich, um dos assentados beneficiados.



segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Para prefeito, Biafra e "confirma"!


"Obrigar a polícia a ser eleita, guarda por guarda, pelas pessoas que ela vai controlar. Também acho que devíamos fazer um leilão em praça pública de todos os cargos oficiais mais lucrativos. Um leilão mesmo, aberto, em vez de fazer às escondidas, nos escritórios enfumaçados do poder".


Fiquem calmos 'sitiantes', este blog não quer disputar espaço com os noticiários diários de política institucional ou partidária, tampouco estou propagandeando propostas de postulantes que tem solução para todos nossos males.

Faltando poucos dias da data que nos fazem crer ser a mais importante da luta política ou o momento onde "todos se igualam (sic)" - não em direito, mas sim em dever - decidi fazer uma postagem em homenagem a uma figura que eu cravaria o 'confirma' sem titubear.

A proposta descrita no primeiro parágrafo fez parte da plataforma política de um dos candidatos a prefeito da cidade de São Francisco, na Califórnia, em 1979. Isso mesmo a frase é de Jello Biafra, um dos mais lendários nomes do punk rock mundial.

Autor de letras recheadas de ironia e discurso político anti-imperalista; de clássicos como California Über Alles, Holiday in Cambodia, Too Drunk to Fuck e Nazi Punks Fuck Off, Biafra é - sem sobra de dúvidas - uma das figuras mais importantes dos movimentos de esquerda mundial das três últimas décadas.

Ícone do cenário underground, seja na arte ou na política, Jello Biafra se aventurou por "processos políticos tradicionais".  Sua eleição a prefeito em 1979 foi o fato mais marcante. Sua candidatura à época teve como principal objetivo mostrar que a eleição em São Francisco não era "real", mas sim uma simples batalha entre dois setores da direita.

"O que eu queria era mostrar que a disputa era entre um candidato dos banqueiros, Feinstein, e Kopp, uma marionete dos interesses imobiliários", disse Jello Biafra em entrevista à revista Bizz, em 1986. "Quem tinha consciência disso, e já estava de saco cheio, votou em mim", fala o músico na mesma entrevista.

Crítico voraz do então governador da Califórnia Jerry Brown, Biafra foi o quarto candidato mais votado entre dez nomes, obtendo 6.591 votos, ou seja, pouco mais de 3% do eleitorado. Números que contribuíram para uma eleição de desempate (segundo turno) entre os dois principais candidatos.

Jello Biafra ainda tentou concorrer mais uma vez ao cargo de prefeito, mas foi banido por uma lei que só permite candidatos com o nome de batismo (Eric Boucher - no seu caso) e nunca com nome artístico, pseudônimo ou apelido.

Em 2000 chegou a concorrer nas prévias do Green Party (partido verde) em Nova Iorque para as eleições presidenciais dos Estados Unidos. Sua candidatura, caso aprovada, teria como vice o jornalista Mumia Abu-Jamal, condenado à morte sob acusação de ter matado um policial. A escolha foi a maneira de Jello mostrar sua posição em relação à pena de morte, num aspecto amplo, além de chamar atenção para o desenrolar do caso de Mumia.

Apesar de encarar o processo das urnas, Biafra sempre apontou que as ruas e os palcos são os espaços mais propícios para o embate político. "(...) ação nas ruas é uma parte disso, mas a outra é tirar estes imbecis dos escritórios deles, que é uma coisa que ainda podemos fazer".

A poucos dias de sermos 'convocados' a canalizar todas nossas forças na 'festa democrática' da cidadania ocasional, da indignação seletiva e dos 'candidatos cao cao', lhes deixo com versos da canção I Won’t Give Up, do projeto Jello Biafra And The Guantanamo School Of Medicine.


"(...) da minha pequena e própria maneira
  Eu fiz um juramento
  E você pode fazê-lo agora!
  as corporações não poderão me ter

 Não vou desistir
 Isso não é uma opção!"

(Jello Biafra- I Won´t Give Up)

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

A primeira crônica de uma zeladora

Outro 'invisível' [foto: Sidinei Santos]
* Dalva Patrícia de Jesus

Sou zeladora, zeladora de hospital. Mais conhecida como serviço de apoio, pode me chamar também de mulher da limpeza ou faxineira, como preferir.

A perspectiva de escrever me assusta. A dificuldade veio com recordações um tanto quanto amargas, procurando um culpado achei o primeiro, uma vez a doutora generalizou "são todos analfabetos", ela se referia a um cartaz que devia ter figurinhas, senão as zeladoras não entenderiam o recado. Na época não entendia o que ela queria dizer, mas umas figurinhas agora ajudariam a escrever esta crônica.

Outros dois episódios marcaram bem o que pretendo dizer: o primeiro é quando a acadêmica de medicina perdeu a agenda, veio procurar minha colega e não contente com a negativa à procura de sua tão estimada relíquia, perguntou se ela sabia o que era uma agenda. Foi de doer! Impressão minha ou ela nos chamou de burras? No segundo, a enfermeira foi mais objetiva, ao se referir à falta de talento da engenheira disse: - "Ela deveria estar trabalhando no Serviço de Apoio".

Tanta agressão no meu intelecto, deixou-me frustrada. O modo mais prático de provar o contrário parecia ser uma graduação, um diploma universitário. A ideia brilhante na minha cabeça como diamantes. Porém, não surtiu o efeito esperado! A primeira pérola do dia foi: - "Para que estudar para limpar chão?". Caiu como uma bomba na minha autoestima. E em meio a sentimentos devastadores que levariam à depressão da alma e carência de sabedoria, percebo que estou só.

Ao meu lado estavam futuros advogados, educadores, administradores, enfermeiros, mulheres e homens atualizados com página no Twitter e Facebook, que recebem recados por e-mail, gostam de se vestir bem e degustar um bom vinho, de conversar sobre política, cultura e questões ecológicas.

Uma nova geração que a hierarquia de trabalho não foi prepara para perceber; geração com opiniões próprias, valores distintos, os primeiros de uma era.

E como me falta inspiração para terminar esta minha busca do pitoresco e desconhecido, uso palavras de meu instrutor de auto escola: com calma e treino você chega lá, ninguém é perfeito.


* Dalva Patrícia de Jesus trabalha desde 2001 no HUOP (Hospital Universitário do Oeste do Paraná) em Cascavel. Sua crônica recebeu no ano passado menção honrosa na 4ª edição do Servir Com Arte, concurso realizado anualmente pelo Governo do Paraná. O concurso mobilizou cerca de 4 mil servidores públicos, que tiveram oportunidade de expressar seus talentos na área de crônica, conto, poesia e fotografia.

* A imagem que ilustra a crônica é de Sidinei Aparecido dos Santos, também servidor do HUOP, que recebeu menção honrosa no prêmio por sua fotografia.


* Nota do blog: Durante a greve na Unioeste, esse blogueiro teve a oportunidade de conhecer pessoalmente dezenas de servidores que, assim como Dalva, para muitos são "trabalhadores invisíveis". Presenciei muitos acadêmicos desferirem menosprezo ao se dirigirem aos funcionários como "o pessoal que fecha e abre portões e que limpam banheiros". Vi tentativas claras de evidenciarem superioridade de uma categoria perante a outra, amparado em "titulações". Mas o que vi, sobretudo, foi o papel insubstituível que determinados trabalhadores – mesmo "invisíveis" - têm. O que Dalva expressou em sua crônica já presenciei na minha profissão (não diretamente a mim), mas voltado a outros trabalhadores, já presenciei a "superioridade” de muitos detentores de "canudos" ou de pelegos com discursos alinhados aos seus superiores (sic)!.

sábado, 8 de setembro de 2012

Sem cordões e ufanismo, um grito contra a exclusão

Juventude gritou contra sistema que condena milhões à exclusão
Jovens ligados a pastorais e grupo de jovens, sindicalistas, trabalhadores rurais sem-terra, integrantes de movimentos populares e religiosos participaram neste feriado de Sete de Setembro de um ato paralelo às festividades restritas que somente nos permite exercer um patriotismo passivo e assistir desfiles de soldados,  armamentos e alunos da educação formal em marcha dentro dos limites de cordões de isolamento.  

Paralelo ao 'civismo oficial', manifestantes gritaram contra um sistema que condena multidões à exclusão social, contra um Estado que se utiliza cada vez mais da repressão e opressão, contra a criminalização dos movimentos sociais e populares, contra o fundamentalismo de qualquer natureza e, em especial, contra a violência que atinge cada vez mais nossa juventude. 

Um grito de poucos, mas que ecoou forte na região norte de Cascavel onde foi realizada a 18ª edição do Grito dos Excluídos, manifestação que propõe durante a Semana da Pátria o exercício ativo do nacionalismo e pleno da cidadania. Em Cascavel, o Grito dos Excluídos não era organizado desde 2010, quando simultaneamente aconteceu a Campanha pelo Plebiscito do Limite da Propriedade da Terra. 

Neste ano, uma marcha marcou a passagem do feriado de Sete de Setembro em Cascavel. Com saída do Colégio Estadual Consolata, os manifestantes caminharam por toda a extensão da Avenida Papagaios até a chegada na Igreja do Bairro Floresta, onde integrantes do MLST (Movimento de Libertação dos Sem Terra) realizaram uma mística baseada no lema da edição deste ano: 'Queremos um Estado a serviço da Nação, que garanta direitos a toda população!'.

O reverendo da Igreja Anglicana, Luiz Carlos Gabas, um dos organizadores da manifestação, explica que objetivo do Grito dos Excluídos é denunciar um modelo que concentra riqueza e renda e condena milhões de pessoas à exclusão social. "Neste ano temos que fazer um alerta especial contra qualquer tipo de fundamentalismo, seja ele de cunho religioso, ideológico ou político", disse Gabas.

O professor Amâncio Luiz dos Anjos, diretor da APP-Sindicato, falou diretamente aos jovens sobre a importância da participação popular e da luta contra um sistema onde as desigualdades sociais estão cada vez mais latentes. Gutto Wendler, integrante da Pastoral da Juventude, fez um alerta para criminalização dos movimentos sociais e ao atual momento político às vésperas do pleito eleitoral.  “Em ano eleitoral são muitos discursos sobre democracia, sobre exercício da cidadania e muitas propostas daqueles que dizem ter soluções para tudo”, ressaltou. 

Desde 1995 foi escolhido o dia 7 de setembro para as manifestações do Grito dos Excluídos. É uma forma daqueles que são calados pelas várias formas de opressão serem ouvidos no Dia da Independência, já que no espetáculo da marcha dos soldados e do disciplinado 'exército' das crianças da educação formal não há muito espaço para manifestações. 

Manifestações populares restritas que não surpreendem se levarmos em conta que a Semana da Pátria foi inspirada no Governo Costa Silva e na herança Moral e Cívica da gestão de Médici. Na pátria onde ainda precisamos engolir o genocida Duque de Caxias – 'patrono verde-oliva' - como um herói nacional, gritar por independência é berrar junto aos Excluídos, como alguns movimentos sociais e populares fazem ininterruptamente há 18 anos. De resto, tudo não passa de espetáculo ufanista.

Em breve, mais fotos sobre o Grito dos Excluídos em Cascavel

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Do Luto para a Luta, com homenagens ao 'carrasco'

Trabalhadores da educação relembram o 30 de agosto de 1988

"Estamos aqui para lembrarmos do grande carrasco dos trabalhadores da educação do Paraná, aquele que ordenou que nossos companheiros fossem recebidos a bombas e cavalos, o cidadão que hoje posa de grande moralista". Palavras disparadas ao microfone como um molotov ou bombas de efeito moral, assim como as lançadas em 30 de agosto de 1988, que foram proferidas pelo professor Jeremias Ariza, que leciona a disciplina de filosofia no CEEP (Centro Estadual de Educação Profissional) Pedro Boaretto Neto, em Cascavel.

Professor Jeremias esteve entre as centenas de funcionários da rede estadual de Cascavel que se concentraram em frente à sede do Núcleo Regional de Educação para "anticomemoração" dos 24 anos do fatídico 30 de agosto de 1988. O 'carrasco' a quem o educador se refere é o atual senador da República, Alvaro Dias (PSDB), considerado por muitos – especialmente a grande mídia de massa – um dos maiores 'arautos da moral' de nossa cambaleante democracia.  
  
Há quem questione as mobilizações do dia 30 de agosto, conhecido como o 'Dia de Luto e Luta da Educação no Paraná', há quem queira apagar da memória dos profissionais da educação a 'calorosa recepção' no Palácio do Iguaçu, há quem diga que o senador (então governador) já teria "se desculpado". "É importante relembrarmos essa data, relembrar dos companheiros que enfrentaram os cavalos e as bombas do governo, trabalhadores que foram pisoteados, mas que continuaram lutando como verdadeiros heróis", lembra o professor Amâncio Luiz dos Anjos, diretor da APP-Cascavel, pedindo uma salva de palmas aos companheiros presentes naquele protesto.

Em Cascavel, o 'Dia de Luto e de Luta' contou com uma particularidade; uma grande presença de estudantes apoiando o movimento. É o que destaca o professor Marcio Henrique Soares. "Essa é a primeira vez que vejo estudantes participando do movimento, se juntando aos professores e funcionários das escolas. A presença deles é mais importante do que de muitos 'companheiros' que aproveitam a paralisação para ficar em casa", diz o educador, conhecido também como 'Gaúcho' e que leciona no Colégio Padre Carmelo Perrone.

Marcio Henrique aproveita a oportunidade para dar uma 'cutucada' em alguns colegas que não se fazem presentes na luta. "Tem professora que prefere ficar em casa assistindo televisão, outras pintando o cabelo, cuidando das crianças, assim como alguns colegas que passam dos 40 anos e começam a dizer que estão muito velhos para estarem aqui. Ficam acompanhando tudo de casa, enquanto nós estamos dando a cara aqui a bater, buscando direitos aos quais eles também serão beneficiados e lembrando de companheiros que lutaram no passado", critica.

Histórico

Os atos ocorridos em todo o Estado neste 30 de agosto fizeram parte do tradicional Dia de Luto e Luta dos Trabalhadores da Educação.  A data é referente ao ano de 1988. Há 24 anos, os professores da rede pública de ensino foram protagonistas de uma greve iniciada no dia 5 de agosto. Eles reivindicavam a volta do piso de três salários mínimos, reduzido para dois salários em 1988. Com o intuito de forçar uma solução mais rápida para a paralisação geral – que então completava 11 dias – professores ocuparam a Assembleia Legislativa, por onde permaneceram até o dia 31.

Um dia antes, no dia 30 de agosto, foi organizado um encontro de núcleos regionais da APP-Sindicato na Praça Tiradentes, em Curitiba, e uma passeata até a sede do governo, onde então os trabalhadores foram "recepcionados" pela cavalaria da PM, com direito - além das ferraduras dos equinos e os cassetetes dos policiais -  a gás de pimenta e bombas de efeito moral.

Na época, aproximadamente 30 mil pessoas participavam da passeata. De um lado a multidão, de outro as tropas policiais. Barracas de professores acampados foram pisoteadas, manifestantes foram impedidos de entrar na Praça Nossa Senhora de Salete com carro de som.

Segundo relatos, o pavor tomou conta de todos, com bombas estourando para todos os lados, correria generalizada, transformando o centro cívico de Curitiba em uma verdadeira praça de guerra. Como saldo, vários professores feridos, alguns inclusive impossibilitados – física e emocionalmente – do retorno as salas de aulas.

Questionado hoje em dia sobre o fato, o atual senador Alvaro Dias defende-se afirmando que o triste episódio sempre "foi explorado politicamente e com má fé e que na ocasião foi administrado dentro das possibilidades".  Segundo a sua versão, "outras categorias" de trabalhadores teriam se infiltrado na manifestação para provocar tumultos e a cavalaria estaria no local para dar "segurança aos manifestantes".

Solidariedade de classe

Representantes de sindicatos de outras categorias estiveram presentes no ato deste 30 de agosto. Isso demonstra que manifestações e mobilizações (mesmo organizadas por determinadas categorias) não precisam ser necessariamente corporativistas. São nos atos públicos que trabalhadores mostram sua solidariedade. Oportunidade em que se deixam de lado as categorias (profissões) para se afirmar como classe (trabalhadora).  

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Greves: O teto de vidro da mídia (parte 2)

João Saldanha discursa (arquivo PCB)
Os "sitiantes" que acompanham esse blog vão perceber que esse texto é uma reedição (adaptada ao momento), mas que é providencial por dois motivos. O primeiro é que nos últimos três meses, o governo de Dilma Rousseff enfrenta - com um silêncio bucólico - mais de 30 trinta greves distintas de funcionários públicos federais, com destaque especial para as universidades federais.

O segundo motivo foi uma foto dos arquivos do 'Partidão', compartilhada nas redes sociais pelo camarada Alceu Sperança, que traz o saudoso João Saldanha discursando em defesa da liberdade sindical. Pois bem, a imagem me fez lembrar que a única resposta até então do governo federal foi um decreto arbitrário que busca substituir os grevistas que "saírem da linha" por funcionários terceirizados.

O atual cenário faz com que 2012 seja taxado como o "ano em que o Brasil parou", o que me remete (novamente) ao ano de 1968, que ficou conhecido como o "orgasmo da história". O ano foi marcado por uma série de manifestações que eclodiram pelo todo mundo, iniciadas pelo movimento de Maio de 68. Esse movimento foi protagonizado por estudantes, mas que reuniu desde profissionais de rádio e televisão até técnicos de escritórios de planejamento.

Neste mesmo ano, nos Estados Unidos, era assassinado o ativista dos direitos humanos Martin Luther King. No mês de abril, dias antes do crime, ele liderou uma marcha em apoio a uma greve que reuniu mais de 1,3 mil funcionários negros da limpeza pública que lutavam por melhores condições de trabalho e salários decentes.

Na ocasião, a paralisação dos trabalhadores já durava cerca de dois meses e a marcha foi reprimida com violência dos órgãos repressores do Estado. King dizia que a "greve é a linguagem dos não-ouvidos". Linguagem é comunicação e, quando falamos em greve, a comunicação social tem um papel fundamental e os meios que propagam informação devem agir com responsabilidade.

Pois bem, voltando aos dias atuais, gostaria novamente de fazer algumas ponderações ao objeto principal do texto: a abordagem das greves e paralisações por parte da comunicação de massa. Como de praxe - ainda que de forma velada - a mídia segue sua ofensiva diante das greves. Nenhum meio de comunicação (seja ele grande, de circulação nacional, seja ele regional ou local, que reproduz as mesmas visões e juízos) ataca de forma direta o direito de greve. Não pela falta de vontade em si, mas por não terem coragem de investir contra um direito que foi conquistado ainda no século 19, com o esforço, sacrifício e sangue de trabalhadores.

Como não podem atacar o direito constitucional de greve fazem ofensivas direcionadas em cada paralisação, especialmente quando as greves acontecem no setor público. É raro (quase surreal) quando a mídia admite que uma greve é justa. Para ela, todas as mobilizações são "abusivas" e foco da cobertura está sempre nas pessoas prejudicadas (o usuário/consumidor) e nunca no trabalhador grevista.

Obviamente que as greves prejudicam a população, ninguém seria "purista" ou negligente ao ponto de negar este fato, porém esse acaba sendo o único dado focado nas manchetes de "jornalões" ou "jornalinhos". Enquanto os verdadeiros responsáveis por essa onda de greve - que não são os trabalhadores, mas os patrões (vide governos) - nunca pagam o pato nesta história.

A forma pejorativa das abordagens sobre greves, por vezes, beira a ingenuidade quando o receptor da informação é alguém que tem uma mínima noção de como funciona a relação empregador/empregado e de como se dá a luta de classes em nossa sociedade. Seja no espaço maior dado ao empregador, seja na ausência do aprofundamento das pautas dos trabalhadores ou ainda na tentativa maldosa de sempre jogar grevistas contra a população.

Direito constitucional

A greve é um direito assegurado na Constituição. É importante (e um dever) que a imprensa se preocupe com a população de uma maneira geral, mas não pode agir de forma irresponsável, incitando a ira do trabalhador/usuário contra trabalhador/servidor, pois este pode e deve fazer o uso das ferramentas que disponibiliza para buscar seus direitos (ferramentas que são poucas diante da força do capital).

Apesar de ser um direito que deixou de ser criminalizado há mais de meio século para entrar na ordem constitucional, a imprensa (com raras exceções) continua a "marginalizar" grevistas. Já o Estado - que serve ao sistema e atua em sintonia com esses meios - sempre tentou indiretamente, por meio de leis ordinárias, reprimir esse direito. Na época da ditadura civil-militar (chamada por alguns de "revolução de 64") eram costumeiras as intervenções aos sindicatos, as demissões em massa e as prisões. Ainda no campo histórico, a greve foi uma das bandeiras dos trabalhadores na Constituinte de 1986, assegurada em definitivo na redação do artigo 9º da Constituição Federal de 1988.

Estando claro que a paralisação é um direito, vamos a outros fatos (nem sempre pautados): a atual legislação obriga a publicação de editais de greve com 72 horas de antecedência das paralisações. Após a publicação, o Ministério Público do Trabalho ingressa com um pedido de liminar sobre a greve. Antes mesmo da greve se iniciar os Tribunais Regionais do Trabalho concedem liminares exigindo que determinada porcentagem dos trabalhadores permaneçam nos postos, assegurando o atendimento dos serviços considerados "inadiáveis". Diante disso também são estabelecidas multas diárias se os sindicatos descumprirem ordens judiciais, em multas e percentuais que variam de acordo com cada região.

Voltando a atual conjuntura da relação empregador/empregado, estamos assistindo uma retomada gradativa da capacidade de luta do movimento sindical - ainda tímida em relação a outras épocas - onde acompanhamos algumas conquistas de aumentos reais e recuperação de perdas acumulada nos últimos anos. Mas - paralelo a essa tímida retomada de luta - vemos uma campanha (nada tímida) de grandes veículos de comunicação que seguem jogando a população contra grevistas, não permitindo que essa mesma população entenda as reivindicações desses trabalhadores. 

Concluindo meu raciocínio, faço aqui o papel de "advogado do diabo", ao tentar decodificar essa relação da mídia e as greves: nesse complexo e turbulento relacionamento teriam os meios de comunicação o complexo do "teto de vidro"? Afinal, que moral algumas empresas de comunicação teriam de propagar que uma greve é justa, destacando questões como precarização de mão de obra, melhores condições de trabalho e direito de empregados (conhecidos também como "colaboradores"), quando esses meios não são os melhores exemplos para o assunto dentro de seus próprios currais?

Enfim, essa é uma mosca no meu quarto a zumbizar... e viva o João Sem Medo!  

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Eleições: o que "atestaria" Malatesta?

Arte em estêncil nas ruas de Palermo
Periodicamente, no intervalo de quatro em quatro anos, depositamos aspirações e canalizamos nossas expectativas sociais no processo eleitoral, intitulado por alguns como 'festa da democracia', uma das ferramentas de participação de nosso falho sistema representativo.

No último domingo, dia 22 de julho de 2012, completou-se 80 anos da morte do italiano Errico Malatesta, uma das maiores referências do anarquismo, e com toda propaganda eleitoral que já circula na internet, em especial em redes sociais, me veio em mente alguns trechos de artigos desse revolucionário, que faleceu em 1932, vítima do fascismo do 'Duce' Mussolini.

Em 'A política parlamentar no movimento socialista', Malatesta escreve: "(...) com efeito, cada eleitor só nomeia um deputado, ou um pequeno número de deputados sobre várias centenas que compõem habitualmente uma Assembléia. É verdade que, mesmo quando os eleitores vêem seu próprio candidato ser eleito, sua vontade, que durante as eleições já não contava praticamente nada, seria representada por um único deputado, que, ele próprio, tem um papel mínimo na Câmara. A Câmara, tomada em seu conjunto, não representa de modo algum a maioria dos eleitores. Cada um dos deputados é eleito por certo número de eleitores, mas o corpo eleitoral, enquanto totalidade, não é representado...".

Já em 'Tempos de eleições', Malatesta atesta: "(...) bonito canto da sereia! Assim como você, falam os que necessitam ser eleitos. Todos bons, todos democráticos, passam a mão sobre seu dorso, cumprimentam nossas companheiras, beijam nossos filhos, nos prometem ferrovias, pontes, água potável, trabalho, comida a bom preço, e a proteção do Estado. Tudo o que você deseja. (...) uma vez eleitos, adeus promessas. Nossas companheiras e nossos filhos podem morrer de fome, nosso país pode ser atormentado por febres e toda a sorte das calamidades, faltará trabalho e comida para a maior parte, a fome e a miséria farão estragos por todas as partes. (...) Passada a festa, enganado o santo...".

São textos que apesar de serem escritos ao final do século 19, seguem contemporâneos dentro de nossa lógica. Não se trata da ótica da 'negação da negação', mas sim do questionamento de um sistema que ainda precisa ser aperfeiçoado para que se aproxime de algo realmente 'participativo'.

São trechos de artigos que valem serem lembrados em uma fase onde aqueles que estão dispostos a nos representar estão prestes a colocar seus blocos nas ruas. Que mirem o exemplo do italiano, sempre fiel a seus princípios, pois nunca se corrompeu, sendo exemplo da integração entre teoria e prática. Caso estivesse vivo, Errico Malatesta 'atestaria' que essa integração parece ser algo tão raro nos dias correntes.

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Acampados cobram criação de assentamento

Ato em defesa da reforma agrária no 1º de Maio
Trabalhadores rurais Sem Terra das regiões Oeste e Sudoeste do Paraná participaram no sábado (30/06) de um ato em defesa da Reforma Agrária no Acampamento 1º de Maio, nas proximidades do distrito de Rio do Salto, interior de Cascavel.

A atividade organizada em conjunto pelas brigadas José Martí e Teixeirinha cobrou maior agilidade na criação de um assentamento na área ocupada em maio de 2009 na Fazenda Castelo. A efetivação da Reforma Agrária da fazenda vem sendo intermediada pela secretaria especial de Assuntos Fundiários do governo do Paraná.

Segundo o secretário Hamilton Seriguelli, a negociação da Fazenda Castelo está sendo o processo mais difícil da região. "Aqui é onde estamos encontrando as maiores dificuldades para uma resolução do impasse junto ao proprietário, seria muito mais fácil se ele aceitasse vender a área ocupada ao Incra, mas ele não está tendo essa sensibilidade", disse.

O proprietário da fazenda, o secretário municipal de Saúde de Cascavel, Ildemar Canto, não aceita negociar a área com o Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária). O MST ocupou o terreno de 400 alqueires, onde passaram a viver 240 famílias, que produzem alimentos sem uso de agrotóxico, que é comercializado em pequenos comércios do distrito de Rio do Salto.

O Sem Terra Nildemar da Silva, um dos coordenadores da Brigada José Martí, lembra da história das famílias do 1º de Maio. "Esse acampamento foi formado em 2009, mas esse grupo está junto há mais de 13 anos. É longa e árdua luta dessas famílias embaixo das lonas pretas. Por aqui foi instalada essa luta contra o latifúndio, uma terra onde o proprietário não pagou um centavo sequer, somente demarcou a área, colocou cercado e passou a ser sua. Essa fazenda tem cerca de 36 mil hectares, isso representa um município de pequeno porte".

O militante destaca que a luta dos movimentos sociais ultrapassa a conquista da terra. "Não se trata apenas de conquistar um lote e enfrentar o latifúndio, mas também de transmitir nosso conceito de educação para os nossos filhos e netos, de resistir na terra, isso é a luta pela nossa existência e cultura".  Para ele, a cultura camponesa vem perdendo espaço no campo brasileira diante da ofensiva do agronegócio.

Golpe no Paraguai


O recente golpe no Paraguai que derrubou o presidente eleito Fernando Lugo também foi lembrando no ato pelo militante Ramon Brizola, da Coordenação Estadual do MST do Paraná. Ele participou do protesto que reuniu cerca de 4 mil pessoas na fronteira entre o Brasil e o Paraguai, que fechou a Ponte da Amizade por cerca de uma hora e meia na última sexta-feira (29/06).

Brizola apresentou aos presentes um panorama da situação no país vizinho e a orquestração do golpe que, segundo Brizola, teve participação direta de latifundiários brasileiros com terras no Paraguai. "Esse golpe vinha sendo planejado há mais de um ano pela elite fundiária paraguaia, descontente com o presidente Lugo, se elegeu com a promessa de promover a reforma agrária no país".

O dirigente do MST destacou a participação dos grandes meios de comunicação na tentativa de legitimar o golpe. "Precisamos cuidar com o que vemos na televisão, a mídia está usando o argumento da Constituição, mas não destaca que o presidente não teve o direito amplo de defesa e que o despejo de terra que culminou na morte dos policiais foi por ordem do Judiciário paraguaio e não da Presidência da República".

Para Ramon Brizola, é preciso prestar solidariedade aos irmãos paraguaios e a qualquer atentado a democracia em nosso continente. "Precisamos ultrapassar a barreira de estados e países, pois o capital que nos oprime aqui é o mesmo que oprime os irmãos dos demais países latino-americanos", concluiu.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Buena Vista: uma aventura a bordo do busão 57



Em Diários de Motocicleta, um bioquímico prestes há completar 30 anos e um estudante de medicina prestes a concluir o curso resolvem se aventurar por uma América até então conhecida apenas nos livros. Para isso, a dupla de naturalidade argentina usa uma motocicleta Norton 500, do ano de 1939, carinhosamente apelidada de 'La Poderosa'. O destino daqueles que deixariam de ser 'simples jovens' na história de nossa 'Pátria Grande' vocês devem conhecer. 

A aventura de Alberto Granado e Ernesto Guevara sempre esteve no imaginário da juventude latino-americana.  Esse espírito aventureiro de nosso mestiço - e por isso - lindo continente é que move um grupo de artistas argentinos que há cinco meses está na estrada. Com idade entre 21 e 24 anos, eles atendem por 'Movimento Buena Vista' e já passaram por outros países da América do Sul, como Chile, Peru e Bolívia. Atualmente se aventuram no Brasil, onde desenvolvem trabalhos ligados a arte; como música, pintura, artesanato e cinema.

Tive a oportunidade de conhecer os rapazes do Buena Vista em Curitiba, onde o movimento oriundo do pequeno município de Las Flores – norte da Argentina – aportou há pouco mais de um mês. Ao chegar na capital do Paraná junto com servidores da Universidade Estadual do Oeste do Paraná - que horas mais tarde fariam um protesto em frente a sede do governo - me deparei com a cena que me chamou atenção.

Próximo ao Museu Oscar Niemeyer, em meio a alguns ônibus típicos de excursões, estava um transporte antigo, pintado de forma primária com cores vivas, tendo na porta uma estrela vermelha e acima do pára-brisa a palavra 'Buena Vista'. Prontamente, o que me veio à cabeça foi orquestra cubana Buena Vista Social Club e o desejo de me aproximar para saber o que estava por trás daquele meio de transporte de mais de meio século.  

Enquanto alguns tiravam foto em frente ao ônibus, me aproximei e, percebendo que não se tratavam de brasileiros, me apresentei como sendo periodista (jornalista). Entrei no ônibus – um Mercedes Bens de 1957 – tendo todo seu interior decorado com pôsteres e recortes relacionadas à música, com ícones como Bob Dylan, Bob Marley, Mercedes Sosa, Manu Chao e Rolling Stones, além de lembranças de nosso continente, como bandeiras de países da América do Sul e, obviamente, a foto mais reproduzida da história: o olhar no horizonte de Che Guevara.

Para 'quebrar o gelo' - afinal se apresentar como jornalista poderia não ser um bom começo - dei início a prosa com Tero, Hipo, Enzo, Emilio, Feder e Juan, falando sobre a vitória do Boca Juniors na Libertadores da América que havia acontecido na véspera, sabendo eu que o futebol era algo que 'unia' brasileiros e argentinos. A confissão de ser um 'maradonista confesso' foi a senha perfeita e acabei sendo apontado pelos hermanos como um 'caso raro' entre os brasileiros.

Acabei surpreendendo e ao mesmo tempo divertindo os camaradas ao anunciar que os 'maradonistas' no Brasil não são tão raros assim - talvez aqueles confessos - mas fiz questão de me certificar que não contariam meu 'segredo' no lado de fora do ônibus, obviamente preocupado com minha integridade física.

Entre os recortes que decoravam o ônibus, um deles me chamou a atenção: Um adesivo escrito 'Bush, lo peor de todos' e abaixo dele uma foto clássica de Muhammad Ali esmurrando um adversário; um João qualquer como diria o Mané. Apontei e disparei: "Que contradição, acima o pior e abaixo o melhor de todos!". Estava ali a senha para a passagem de nossa prosa do esporte para a política.

Falamos da necessidade da integração dos povos latino-americanos e os avanços promovidos por alguns governos de caráter progressista em nosso continente - em especial o da Argentina - além da participação dos jovens na política. Expliquei que estava na cidade para fazer a cobertura de um protesto dos trabalhadores da universidade; eles interviram de pronto e passaram a apontar as diferenças que sentiram nos meses que estão no Brasil em relação ao ensino superior da Argentina.

Discorreram sobre a universidade argentina e o acesso a ela. "Por lá todos tem acesso a universidade pública. Por aqui, nos parece que se não há grana, não há estudo", falou Hipo, enquanto Juan – deixando de lado o livro que lia – disparou: "A universidade por lá é mais política". (entendendo-se 'mais política' como algo positivo e não com a velha opinião formada sobre o senso comum). Citaram que, diferente de grande parte dos estudantes por aqui, os universitários argentinos apóiam os movimentos grevistas nas instituições, pois acabam se sentindo parte também da luta reivindicatória.

Alguns do Movimento Buena Vista são formados e outros trancaram seus cursos nas áreas de História, Turismo, Cinema e Relações Internacionais. Todos eles estudaram na Universidade de La Plata, na Grande Buenos Aires. "Las Flores é muito pequena, não há universidade, então estudamos em La Plata, que fica há 200 quilômetros de nossa cidade", explicou Tero.

O grupo me contou que a atmosfera política dentro da Universidade de La Plata é enorme, com os estudantes participando de discussões diárias sobre política e os rumos da universidade. "Isso é histórico por lá, foi em La Plata que houve o maior extermínio de militantes e estudantes durante a ditadura", disse Hipo, me indicando o filme La Noche de Los Lapices, que traz a história de sequestros de estudantes secundaristas durante o período militar na Argentina.

Ao terminar minha prosa que passou de futebol a política, questionei sobre o destino do Buena Vista dali pra frente. Falaram que precisavam terminar alguns 'bicos' em Curitiba e que por ali ficariam por mais alguns dias. De lá partiriam para o Mato Grosso do Sul. Depois disso é esperar para ver até onde o Mercedes Bens 57 conseguirá levar esses aventureiros em suas viagens embaladas por muito rock, reggae e musica latina, lembrando muito a aventura da dupla que tinha a 'Poderosa de 1939'.

Tero, Fede, Emilio, Juan, Enzo e Hipo

Qual o próximo destino do Mercedão 57?

quinta-feira, 14 de junho de 2012

FOZ DO IGUAÇU É?

* Danilo Georges

Foz do Iguaçu não é uma cidade é uma paisagem, ou melhor, um modelo de paisagem para se forjar uma cidade. A Cidade paisagem tem muitas faces, ela é falsa, mentirosa e lubridiosa. Ora é inferno urbano no programa sensacionalista ora é paraíso natural na propaganda oficial turística.

Foz do Iguaçu não é uma cidade é estatística, sendo estatística não há pessoas nem vidas, só há contabilidade de mortos ou turistas.

Foz do Iguaçu é o Templo do Consumo, Números, notas e conta das compras, morador é consumido e consumado made in Taiwan no produto globalizado.

Foz do Iguaçu é uma Fronteira imposta, com armas cada vez mais novas, com calibres cada vez mais pesados, com braços cada vez mais fortes e mais violentos, sobreviver aqui é sofrimento, a cidade está fardada ao fracasso da insegurança pública.

Foz do Iguaçu não é bairro, é condomínio fechado com muros a prova de gente, com carros importados com vidros escuros da indiferença, cidade do medo, medo do pobre e do preto.

Foz do Iguaçu é cidade de elite, gente chique, não gostam de manos ou hippies esses são sufocados pelo estereótipo local, esculachados pela guarda municipal dentro do padrão marginal, nessa cidade não se esqueça só morador pobre morre cedo.

Foz do Iguaçu, a cidade da maior usina hidrelétrica, mas a Itaipu não clareia o tormento dos familiares dos operários que morreram no cimento, tanta produção energética e falta iluminação nas ruas e vielas das favelas, se produz mais contradição do que luz. Depois de desapropriar os indígenas das suas terras tenta se cultivar uma água boa. Água boa é pura, límpida e cristalina, e não essa água que escorre dos rios das opressões das terras privatizadas e dos rios contaminados. Em suma quanta energia desperdiçada!

Foz do Iguaçu não é escola, já que turmas de escolas públicas estão sendo fechadas, corte de gastos, para gerar mais lucro para o estado. Precarização do trabalho. Foz do Iguaçu é prisão, pois essas estão sendo ampliadas, reforçadas, monitoradas e fortificadas cada vez mais. Usado o mesmo dinheiro do estado. Equação da barbárie: + presídio – escola = mais de 200 jovens assassinados ao ano.

Foz do Iguaçu não tem espaços públicos, tudo por aqui é privatizado, se prevalece a lógica privada, em síntese Foz não é uma cidade, é uma grande privada que a burguesia caga, é sempre o trabalhador informal quem limpa, em 98 anos esse é o ciclo. A burguesia caga na cidade e o povo é quem se suja.


* Danilo Georges é historiador e um dos idealizadores do fanzine Adelante
* a ilustração acima é do filme O Discreto Charme da Burguesia (1975), de Luiz Buñuel

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Licenciatura do Campo rompe "cerca do conhecimento"

Aula inaugural no Campus da Unioeste em Cascavel
"Para além das cercas do latifúndio, o rompimento das cercas do conhecimento". É dentro dessa lógica - de aproximação dos movimentos sociais com o ensino superior – que a Unioeste (Universidade Estadual do Oeste do Paraná) desenvolve experiências de Educação no Campo, proporcionando aos camponeses, acesso ao nível superior de qualidade e gratuito.

Sob o lema 'Educação do Campo, Direito Nosso, Dever do Estado e Compromisso com a comunidade', foi realizada a aula inaugural de 2012 do curso de Licenciatura em Educação do Campo, desenvolvido dentro de instituições públicas de ensino superior por meio do 'regime de alternância' – que consiste em organizar o tempo dentro da lógica que possibilite a presença dos camponeses na universidade sem o abandono do campo.

No Paraná, duas instituições oferecem o curso, a Unioeste e a Unicentro (Universidade Estadual do Centro-Oeste). "A intenção é que os camponeses permaneçam no campo, vários deles já dão aulas ou são lideranças de suas comunidades", explica o professor Paulo Porto Borges, coordenador da Educação do Campo na Unioeste. Para ele, a universidade pública tem o papel de garantir acesso ao ensino superior à classe trabalhadora, abrigando e fortalecendo a luta das classes populares.

A turma de Licenciatura do Campo conta com 53 alunos de seis estados: Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Mato Grosso do Sul, Espírito Santo e Tocantins. A maior parte deles é oriunda do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra), mas também há alunos do MLST (Movimento de Libertação dos Sem Terra), MNLM (Movimento Nacional de Luta Pela Moradia), MMC (Movimento Nacional de Mulheres Camponesas), MAB (Movimento dos Atingidos por Barragens) e PJR (Pastoral da Juventude Rural).

Os alunos foram indicados para fazer o vestibular por suas próprias comunidades, como forma de atender uma demanda coletiva. A turma atual está no segundo ano de curso e, a partir do terceiro ano, os alunos serão divididos em duas áreas de conhecimento: Ciências Agrárias e Ciências da Natureza e Matemática. Após formados, eles estarão habilitados para darem aulas na séries finais do Ensino Fundamental e Ensino Médio.

Alguns educandos já são educadores nas comunidades que vivem. É o caso de Clara Orzekoski, que atua há 10 anos como educadora do campo nas escolas itinerantes do MST. Ela é moradora de um assentamento na região do Vale do Ivaí. "Estamos buscando nossa formação, tendo a coragem de resistir, entrando na universidade para abrir esse elo com a sociedade e mostrarmos quem somos, mostrar a luta do homem camponês", destaca Clara.  

A aluna explica que a partir dessa experiência vão se superando alguns preconceitos de parte da sociedade que desconhece a luta dos movimentos sociais de luta pela terra. "Nós trazemos para a universidade a lógica dos assentamentos e acampamentos, vamos vencendo preconceitos, rompendo barreiras e nossos próprios limites", aponta.

Essa lógica da realidade do acampamento é reforçada na novidade para esse segundo ano da licenciatura. Diferente do primeiro ano – onde os alunos ficavam hospedados em um hotel – dessa vez a turma ficará alojada na própria universidade durante o período do curso. Eles permanecerão em um alojamento até o início de agosto. Como o curso é um programa federal, a alimentação e hospedagem ficam a cargo do MEC (Ministério da Educação), enquanto o Estado cede estrutura e professores.

Celso Ribeiro, um dos coordenadores do MST na região Oeste do Paraná, foi um dos convidados da aula inaugural de 2012. "Nossa luta não é só pela terra, mas pela conquista de espaços. O movimento tem uma história bonita dentro da Unioeste, onde conseguimos trazer o debate da questão agrária para dentro da universidade, mesmo diante de todas as dificuldades para cursar um ensino superior. Essa formação é fundamental para que os alunos possam contribuir com o movimento", aponta.

Alexandre Webber, diretor do Campus de Cascavel da Unioeste, afirma que a universidade não pode ficar isolada da comunidade. "Temos o papel de ampliarmos a educação do nível superior, dando condições para que esses alunos permaneçam no campo com condições dignas", destaca. 

Para Paulo Porto, coordenador da licenciatura, o grande desafio é transformar o curso em regular dentro da instituição. "Esse é um momento inédito na Unioeste, um momento de resistência popular, onde os movimentos sociais fincam sua bandeira na Unioeste", conclui.