quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Do Luto para a Luta, com homenagens ao 'carrasco'

Trabalhadores da educação relembram o 30 de agosto de 1988

"Estamos aqui para lembrarmos do grande carrasco dos trabalhadores da educação do Paraná, aquele que ordenou que nossos companheiros fossem recebidos a bombas e cavalos, o cidadão que hoje posa de grande moralista". Palavras disparadas ao microfone como um molotov ou bombas de efeito moral, assim como as lançadas em 30 de agosto de 1988, que foram proferidas pelo professor Jeremias Ariza, que leciona a disciplina de filosofia no CEEP (Centro Estadual de Educação Profissional) Pedro Boaretto Neto, em Cascavel.

Professor Jeremias esteve entre as centenas de funcionários da rede estadual de Cascavel que se concentraram em frente à sede do Núcleo Regional de Educação para "anticomemoração" dos 24 anos do fatídico 30 de agosto de 1988. O 'carrasco' a quem o educador se refere é o atual senador da República, Alvaro Dias (PSDB), considerado por muitos – especialmente a grande mídia de massa – um dos maiores 'arautos da moral' de nossa cambaleante democracia.  
  
Há quem questione as mobilizações do dia 30 de agosto, conhecido como o 'Dia de Luto e Luta da Educação no Paraná', há quem queira apagar da memória dos profissionais da educação a 'calorosa recepção' no Palácio do Iguaçu, há quem diga que o senador (então governador) já teria "se desculpado". "É importante relembrarmos essa data, relembrar dos companheiros que enfrentaram os cavalos e as bombas do governo, trabalhadores que foram pisoteados, mas que continuaram lutando como verdadeiros heróis", lembra o professor Amâncio Luiz dos Anjos, diretor da APP-Cascavel, pedindo uma salva de palmas aos companheiros presentes naquele protesto.

Em Cascavel, o 'Dia de Luto e de Luta' contou com uma particularidade; uma grande presença de estudantes apoiando o movimento. É o que destaca o professor Marcio Henrique Soares. "Essa é a primeira vez que vejo estudantes participando do movimento, se juntando aos professores e funcionários das escolas. A presença deles é mais importante do que de muitos 'companheiros' que aproveitam a paralisação para ficar em casa", diz o educador, conhecido também como 'Gaúcho' e que leciona no Colégio Padre Carmelo Perrone.

Marcio Henrique aproveita a oportunidade para dar uma 'cutucada' em alguns colegas que não se fazem presentes na luta. "Tem professora que prefere ficar em casa assistindo televisão, outras pintando o cabelo, cuidando das crianças, assim como alguns colegas que passam dos 40 anos e começam a dizer que estão muito velhos para estarem aqui. Ficam acompanhando tudo de casa, enquanto nós estamos dando a cara aqui a bater, buscando direitos aos quais eles também serão beneficiados e lembrando de companheiros que lutaram no passado", critica.

Histórico

Os atos ocorridos em todo o Estado neste 30 de agosto fizeram parte do tradicional Dia de Luto e Luta dos Trabalhadores da Educação.  A data é referente ao ano de 1988. Há 24 anos, os professores da rede pública de ensino foram protagonistas de uma greve iniciada no dia 5 de agosto. Eles reivindicavam a volta do piso de três salários mínimos, reduzido para dois salários em 1988. Com o intuito de forçar uma solução mais rápida para a paralisação geral – que então completava 11 dias – professores ocuparam a Assembleia Legislativa, por onde permaneceram até o dia 31.

Um dia antes, no dia 30 de agosto, foi organizado um encontro de núcleos regionais da APP-Sindicato na Praça Tiradentes, em Curitiba, e uma passeata até a sede do governo, onde então os trabalhadores foram "recepcionados" pela cavalaria da PM, com direito - além das ferraduras dos equinos e os cassetetes dos policiais -  a gás de pimenta e bombas de efeito moral.

Na época, aproximadamente 30 mil pessoas participavam da passeata. De um lado a multidão, de outro as tropas policiais. Barracas de professores acampados foram pisoteadas, manifestantes foram impedidos de entrar na Praça Nossa Senhora de Salete com carro de som.

Segundo relatos, o pavor tomou conta de todos, com bombas estourando para todos os lados, correria generalizada, transformando o centro cívico de Curitiba em uma verdadeira praça de guerra. Como saldo, vários professores feridos, alguns inclusive impossibilitados – física e emocionalmente – do retorno as salas de aulas.

Questionado hoje em dia sobre o fato, o atual senador Alvaro Dias defende-se afirmando que o triste episódio sempre "foi explorado politicamente e com má fé e que na ocasião foi administrado dentro das possibilidades".  Segundo a sua versão, "outras categorias" de trabalhadores teriam se infiltrado na manifestação para provocar tumultos e a cavalaria estaria no local para dar "segurança aos manifestantes".

Solidariedade de classe

Representantes de sindicatos de outras categorias estiveram presentes no ato deste 30 de agosto. Isso demonstra que manifestações e mobilizações (mesmo organizadas por determinadas categorias) não precisam ser necessariamente corporativistas. São nos atos públicos que trabalhadores mostram sua solidariedade. Oportunidade em que se deixam de lado as categorias (profissões) para se afirmar como classe (trabalhadora).  

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Greves: O teto de vidro da mídia (parte 2)

João Saldanha discursa (arquivo PCB)
Os "sitiantes" que acompanham esse blog vão perceber que esse texto é uma reedição (adaptada ao momento), mas que é providencial por dois motivos. O primeiro é que nos últimos três meses, o governo de Dilma Rousseff enfrenta - com um silêncio bucólico - mais de 30 trinta greves distintas de funcionários públicos federais, com destaque especial para as universidades federais.

O segundo motivo foi uma foto dos arquivos do 'Partidão', compartilhada nas redes sociais pelo camarada Alceu Sperança, que traz o saudoso João Saldanha discursando em defesa da liberdade sindical. Pois bem, a imagem me fez lembrar que a única resposta até então do governo federal foi um decreto arbitrário que busca substituir os grevistas que "saírem da linha" por funcionários terceirizados.

O atual cenário faz com que 2012 seja taxado como o "ano em que o Brasil parou", o que me remete (novamente) ao ano de 1968, que ficou conhecido como o "orgasmo da história". O ano foi marcado por uma série de manifestações que eclodiram pelo todo mundo, iniciadas pelo movimento de Maio de 68. Esse movimento foi protagonizado por estudantes, mas que reuniu desde profissionais de rádio e televisão até técnicos de escritórios de planejamento.

Neste mesmo ano, nos Estados Unidos, era assassinado o ativista dos direitos humanos Martin Luther King. No mês de abril, dias antes do crime, ele liderou uma marcha em apoio a uma greve que reuniu mais de 1,3 mil funcionários negros da limpeza pública que lutavam por melhores condições de trabalho e salários decentes.

Na ocasião, a paralisação dos trabalhadores já durava cerca de dois meses e a marcha foi reprimida com violência dos órgãos repressores do Estado. King dizia que a "greve é a linguagem dos não-ouvidos". Linguagem é comunicação e, quando falamos em greve, a comunicação social tem um papel fundamental e os meios que propagam informação devem agir com responsabilidade.

Pois bem, voltando aos dias atuais, gostaria novamente de fazer algumas ponderações ao objeto principal do texto: a abordagem das greves e paralisações por parte da comunicação de massa. Como de praxe - ainda que de forma velada - a mídia segue sua ofensiva diante das greves. Nenhum meio de comunicação (seja ele grande, de circulação nacional, seja ele regional ou local, que reproduz as mesmas visões e juízos) ataca de forma direta o direito de greve. Não pela falta de vontade em si, mas por não terem coragem de investir contra um direito que foi conquistado ainda no século 19, com o esforço, sacrifício e sangue de trabalhadores.

Como não podem atacar o direito constitucional de greve fazem ofensivas direcionadas em cada paralisação, especialmente quando as greves acontecem no setor público. É raro (quase surreal) quando a mídia admite que uma greve é justa. Para ela, todas as mobilizações são "abusivas" e foco da cobertura está sempre nas pessoas prejudicadas (o usuário/consumidor) e nunca no trabalhador grevista.

Obviamente que as greves prejudicam a população, ninguém seria "purista" ou negligente ao ponto de negar este fato, porém esse acaba sendo o único dado focado nas manchetes de "jornalões" ou "jornalinhos". Enquanto os verdadeiros responsáveis por essa onda de greve - que não são os trabalhadores, mas os patrões (vide governos) - nunca pagam o pato nesta história.

A forma pejorativa das abordagens sobre greves, por vezes, beira a ingenuidade quando o receptor da informação é alguém que tem uma mínima noção de como funciona a relação empregador/empregado e de como se dá a luta de classes em nossa sociedade. Seja no espaço maior dado ao empregador, seja na ausência do aprofundamento das pautas dos trabalhadores ou ainda na tentativa maldosa de sempre jogar grevistas contra a população.

Direito constitucional

A greve é um direito assegurado na Constituição. É importante (e um dever) que a imprensa se preocupe com a população de uma maneira geral, mas não pode agir de forma irresponsável, incitando a ira do trabalhador/usuário contra trabalhador/servidor, pois este pode e deve fazer o uso das ferramentas que disponibiliza para buscar seus direitos (ferramentas que são poucas diante da força do capital).

Apesar de ser um direito que deixou de ser criminalizado há mais de meio século para entrar na ordem constitucional, a imprensa (com raras exceções) continua a "marginalizar" grevistas. Já o Estado - que serve ao sistema e atua em sintonia com esses meios - sempre tentou indiretamente, por meio de leis ordinárias, reprimir esse direito. Na época da ditadura civil-militar (chamada por alguns de "revolução de 64") eram costumeiras as intervenções aos sindicatos, as demissões em massa e as prisões. Ainda no campo histórico, a greve foi uma das bandeiras dos trabalhadores na Constituinte de 1986, assegurada em definitivo na redação do artigo 9º da Constituição Federal de 1988.

Estando claro que a paralisação é um direito, vamos a outros fatos (nem sempre pautados): a atual legislação obriga a publicação de editais de greve com 72 horas de antecedência das paralisações. Após a publicação, o Ministério Público do Trabalho ingressa com um pedido de liminar sobre a greve. Antes mesmo da greve se iniciar os Tribunais Regionais do Trabalho concedem liminares exigindo que determinada porcentagem dos trabalhadores permaneçam nos postos, assegurando o atendimento dos serviços considerados "inadiáveis". Diante disso também são estabelecidas multas diárias se os sindicatos descumprirem ordens judiciais, em multas e percentuais que variam de acordo com cada região.

Voltando a atual conjuntura da relação empregador/empregado, estamos assistindo uma retomada gradativa da capacidade de luta do movimento sindical - ainda tímida em relação a outras épocas - onde acompanhamos algumas conquistas de aumentos reais e recuperação de perdas acumulada nos últimos anos. Mas - paralelo a essa tímida retomada de luta - vemos uma campanha (nada tímida) de grandes veículos de comunicação que seguem jogando a população contra grevistas, não permitindo que essa mesma população entenda as reivindicações desses trabalhadores. 

Concluindo meu raciocínio, faço aqui o papel de "advogado do diabo", ao tentar decodificar essa relação da mídia e as greves: nesse complexo e turbulento relacionamento teriam os meios de comunicação o complexo do "teto de vidro"? Afinal, que moral algumas empresas de comunicação teriam de propagar que uma greve é justa, destacando questões como precarização de mão de obra, melhores condições de trabalho e direito de empregados (conhecidos também como "colaboradores"), quando esses meios não são os melhores exemplos para o assunto dentro de seus próprios currais?

Enfim, essa é uma mosca no meu quarto a zumbizar... e viva o João Sem Medo!  

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Eleições: o que "atestaria" Malatesta?

Arte em estêncil nas ruas de Palermo
Periodicamente, no intervalo de quatro em quatro anos, depositamos aspirações e canalizamos nossas expectativas sociais no processo eleitoral, intitulado por alguns como 'festa da democracia', uma das ferramentas de participação de nosso falho sistema representativo.

No último domingo, dia 22 de julho de 2012, completou-se 80 anos da morte do italiano Errico Malatesta, uma das maiores referências do anarquismo, e com toda propaganda eleitoral que já circula na internet, em especial em redes sociais, me veio em mente alguns trechos de artigos desse revolucionário, que faleceu em 1932, vítima do fascismo do 'Duce' Mussolini.

Em 'A política parlamentar no movimento socialista', Malatesta escreve: "(...) com efeito, cada eleitor só nomeia um deputado, ou um pequeno número de deputados sobre várias centenas que compõem habitualmente uma Assembléia. É verdade que, mesmo quando os eleitores vêem seu próprio candidato ser eleito, sua vontade, que durante as eleições já não contava praticamente nada, seria representada por um único deputado, que, ele próprio, tem um papel mínimo na Câmara. A Câmara, tomada em seu conjunto, não representa de modo algum a maioria dos eleitores. Cada um dos deputados é eleito por certo número de eleitores, mas o corpo eleitoral, enquanto totalidade, não é representado...".

Já em 'Tempos de eleições', Malatesta atesta: "(...) bonito canto da sereia! Assim como você, falam os que necessitam ser eleitos. Todos bons, todos democráticos, passam a mão sobre seu dorso, cumprimentam nossas companheiras, beijam nossos filhos, nos prometem ferrovias, pontes, água potável, trabalho, comida a bom preço, e a proteção do Estado. Tudo o que você deseja. (...) uma vez eleitos, adeus promessas. Nossas companheiras e nossos filhos podem morrer de fome, nosso país pode ser atormentado por febres e toda a sorte das calamidades, faltará trabalho e comida para a maior parte, a fome e a miséria farão estragos por todas as partes. (...) Passada a festa, enganado o santo...".

São textos que apesar de serem escritos ao final do século 19, seguem contemporâneos dentro de nossa lógica. Não se trata da ótica da 'negação da negação', mas sim do questionamento de um sistema que ainda precisa ser aperfeiçoado para que se aproxime de algo realmente 'participativo'.

São trechos de artigos que valem serem lembrados em uma fase onde aqueles que estão dispostos a nos representar estão prestes a colocar seus blocos nas ruas. Que mirem o exemplo do italiano, sempre fiel a seus princípios, pois nunca se corrompeu, sendo exemplo da integração entre teoria e prática. Caso estivesse vivo, Errico Malatesta 'atestaria' que essa integração parece ser algo tão raro nos dias correntes.

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Acampados cobram criação de assentamento

Ato em defesa da reforma agrária no 1º de Maio
Trabalhadores rurais Sem Terra das regiões Oeste e Sudoeste do Paraná participaram no sábado (30/06) de um ato em defesa da Reforma Agrária no Acampamento 1º de Maio, nas proximidades do distrito de Rio do Salto, interior de Cascavel.

A atividade organizada em conjunto pelas brigadas José Martí e Teixeirinha cobrou maior agilidade na criação de um assentamento na área ocupada em maio de 2009 na Fazenda Castelo. A efetivação da Reforma Agrária da fazenda vem sendo intermediada pela secretaria especial de Assuntos Fundiários do governo do Paraná.

Segundo o secretário Hamilton Seriguelli, a negociação da Fazenda Castelo está sendo o processo mais difícil da região. "Aqui é onde estamos encontrando as maiores dificuldades para uma resolução do impasse junto ao proprietário, seria muito mais fácil se ele aceitasse vender a área ocupada ao Incra, mas ele não está tendo essa sensibilidade", disse.

O proprietário da fazenda, o secretário municipal de Saúde de Cascavel, Ildemar Canto, não aceita negociar a área com o Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária). O MST ocupou o terreno de 400 alqueires, onde passaram a viver 240 famílias, que produzem alimentos sem uso de agrotóxico, que é comercializado em pequenos comércios do distrito de Rio do Salto.

O Sem Terra Nildemar da Silva, um dos coordenadores da Brigada José Martí, lembra da história das famílias do 1º de Maio. "Esse acampamento foi formado em 2009, mas esse grupo está junto há mais de 13 anos. É longa e árdua luta dessas famílias embaixo das lonas pretas. Por aqui foi instalada essa luta contra o latifúndio, uma terra onde o proprietário não pagou um centavo sequer, somente demarcou a área, colocou cercado e passou a ser sua. Essa fazenda tem cerca de 36 mil hectares, isso representa um município de pequeno porte".

O militante destaca que a luta dos movimentos sociais ultrapassa a conquista da terra. "Não se trata apenas de conquistar um lote e enfrentar o latifúndio, mas também de transmitir nosso conceito de educação para os nossos filhos e netos, de resistir na terra, isso é a luta pela nossa existência e cultura".  Para ele, a cultura camponesa vem perdendo espaço no campo brasileira diante da ofensiva do agronegócio.

Golpe no Paraguai


O recente golpe no Paraguai que derrubou o presidente eleito Fernando Lugo também foi lembrando no ato pelo militante Ramon Brizola, da Coordenação Estadual do MST do Paraná. Ele participou do protesto que reuniu cerca de 4 mil pessoas na fronteira entre o Brasil e o Paraguai, que fechou a Ponte da Amizade por cerca de uma hora e meia na última sexta-feira (29/06).

Brizola apresentou aos presentes um panorama da situação no país vizinho e a orquestração do golpe que, segundo Brizola, teve participação direta de latifundiários brasileiros com terras no Paraguai. "Esse golpe vinha sendo planejado há mais de um ano pela elite fundiária paraguaia, descontente com o presidente Lugo, se elegeu com a promessa de promover a reforma agrária no país".

O dirigente do MST destacou a participação dos grandes meios de comunicação na tentativa de legitimar o golpe. "Precisamos cuidar com o que vemos na televisão, a mídia está usando o argumento da Constituição, mas não destaca que o presidente não teve o direito amplo de defesa e que o despejo de terra que culminou na morte dos policiais foi por ordem do Judiciário paraguaio e não da Presidência da República".

Para Ramon Brizola, é preciso prestar solidariedade aos irmãos paraguaios e a qualquer atentado a democracia em nosso continente. "Precisamos ultrapassar a barreira de estados e países, pois o capital que nos oprime aqui é o mesmo que oprime os irmãos dos demais países latino-americanos", concluiu.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Buena Vista: uma aventura a bordo do busão 57



Em Diários de Motocicleta, um bioquímico prestes há completar 30 anos e um estudante de medicina prestes a concluir o curso resolvem se aventurar por uma América até então conhecida apenas nos livros. Para isso, a dupla de naturalidade argentina usa uma motocicleta Norton 500, do ano de 1939, carinhosamente apelidada de 'La Poderosa'. O destino daqueles que deixariam de ser 'simples jovens' na história de nossa 'Pátria Grande' vocês devem conhecer. 

A aventura de Alberto Granado e Ernesto Guevara sempre esteve no imaginário da juventude latino-americana.  Esse espírito aventureiro de nosso mestiço - e por isso - lindo continente é que move um grupo de artistas argentinos que há cinco meses está na estrada. Com idade entre 21 e 24 anos, eles atendem por 'Movimento Buena Vista' e já passaram por outros países da América do Sul, como Chile, Peru e Bolívia. Atualmente se aventuram no Brasil, onde desenvolvem trabalhos ligados a arte; como música, pintura, artesanato e cinema.

Tive a oportunidade de conhecer os rapazes do Buena Vista em Curitiba, onde o movimento oriundo do pequeno município de Las Flores – norte da Argentina – aportou há pouco mais de um mês. Ao chegar na capital do Paraná junto com servidores da Universidade Estadual do Oeste do Paraná - que horas mais tarde fariam um protesto em frente a sede do governo - me deparei com a cena que me chamou atenção.

Próximo ao Museu Oscar Niemeyer, em meio a alguns ônibus típicos de excursões, estava um transporte antigo, pintado de forma primária com cores vivas, tendo na porta uma estrela vermelha e acima do pára-brisa a palavra 'Buena Vista'. Prontamente, o que me veio à cabeça foi orquestra cubana Buena Vista Social Club e o desejo de me aproximar para saber o que estava por trás daquele meio de transporte de mais de meio século.  

Enquanto alguns tiravam foto em frente ao ônibus, me aproximei e, percebendo que não se tratavam de brasileiros, me apresentei como sendo periodista (jornalista). Entrei no ônibus – um Mercedes Bens de 1957 – tendo todo seu interior decorado com pôsteres e recortes relacionadas à música, com ícones como Bob Dylan, Bob Marley, Mercedes Sosa, Manu Chao e Rolling Stones, além de lembranças de nosso continente, como bandeiras de países da América do Sul e, obviamente, a foto mais reproduzida da história: o olhar no horizonte de Che Guevara.

Para 'quebrar o gelo' - afinal se apresentar como jornalista poderia não ser um bom começo - dei início a prosa com Tero, Hipo, Enzo, Emilio, Feder e Juan, falando sobre a vitória do Boca Juniors na Libertadores da América que havia acontecido na véspera, sabendo eu que o futebol era algo que 'unia' brasileiros e argentinos. A confissão de ser um 'maradonista confesso' foi a senha perfeita e acabei sendo apontado pelos hermanos como um 'caso raro' entre os brasileiros.

Acabei surpreendendo e ao mesmo tempo divertindo os camaradas ao anunciar que os 'maradonistas' no Brasil não são tão raros assim - talvez aqueles confessos - mas fiz questão de me certificar que não contariam meu 'segredo' no lado de fora do ônibus, obviamente preocupado com minha integridade física.

Entre os recortes que decoravam o ônibus, um deles me chamou a atenção: Um adesivo escrito 'Bush, lo peor de todos' e abaixo dele uma foto clássica de Muhammad Ali esmurrando um adversário; um João qualquer como diria o Mané. Apontei e disparei: "Que contradição, acima o pior e abaixo o melhor de todos!". Estava ali a senha para a passagem de nossa prosa do esporte para a política.

Falamos da necessidade da integração dos povos latino-americanos e os avanços promovidos por alguns governos de caráter progressista em nosso continente - em especial o da Argentina - além da participação dos jovens na política. Expliquei que estava na cidade para fazer a cobertura de um protesto dos trabalhadores da universidade; eles interviram de pronto e passaram a apontar as diferenças que sentiram nos meses que estão no Brasil em relação ao ensino superior da Argentina.

Discorreram sobre a universidade argentina e o acesso a ela. "Por lá todos tem acesso a universidade pública. Por aqui, nos parece que se não há grana, não há estudo", falou Hipo, enquanto Juan – deixando de lado o livro que lia – disparou: "A universidade por lá é mais política". (entendendo-se 'mais política' como algo positivo e não com a velha opinião formada sobre o senso comum). Citaram que, diferente de grande parte dos estudantes por aqui, os universitários argentinos apóiam os movimentos grevistas nas instituições, pois acabam se sentindo parte também da luta reivindicatória.

Alguns do Movimento Buena Vista são formados e outros trancaram seus cursos nas áreas de História, Turismo, Cinema e Relações Internacionais. Todos eles estudaram na Universidade de La Plata, na Grande Buenos Aires. "Las Flores é muito pequena, não há universidade, então estudamos em La Plata, que fica há 200 quilômetros de nossa cidade", explicou Tero.

O grupo me contou que a atmosfera política dentro da Universidade de La Plata é enorme, com os estudantes participando de discussões diárias sobre política e os rumos da universidade. "Isso é histórico por lá, foi em La Plata que houve o maior extermínio de militantes e estudantes durante a ditadura", disse Hipo, me indicando o filme La Noche de Los Lapices, que traz a história de sequestros de estudantes secundaristas durante o período militar na Argentina.

Ao terminar minha prosa que passou de futebol a política, questionei sobre o destino do Buena Vista dali pra frente. Falaram que precisavam terminar alguns 'bicos' em Curitiba e que por ali ficariam por mais alguns dias. De lá partiriam para o Mato Grosso do Sul. Depois disso é esperar para ver até onde o Mercedes Bens 57 conseguirá levar esses aventureiros em suas viagens embaladas por muito rock, reggae e musica latina, lembrando muito a aventura da dupla que tinha a 'Poderosa de 1939'.

Tero, Fede, Emilio, Juan, Enzo e Hipo

Qual o próximo destino do Mercedão 57?

quinta-feira, 14 de junho de 2012

FOZ DO IGUAÇU É?

* Danilo Georges

Foz do Iguaçu não é uma cidade é uma paisagem, ou melhor, um modelo de paisagem para se forjar uma cidade. A Cidade paisagem tem muitas faces, ela é falsa, mentirosa e lubridiosa. Ora é inferno urbano no programa sensacionalista ora é paraíso natural na propaganda oficial turística.

Foz do Iguaçu não é uma cidade é estatística, sendo estatística não há pessoas nem vidas, só há contabilidade de mortos ou turistas.

Foz do Iguaçu é o Templo do Consumo, Números, notas e conta das compras, morador é consumido e consumado made in Taiwan no produto globalizado.

Foz do Iguaçu é uma Fronteira imposta, com armas cada vez mais novas, com calibres cada vez mais pesados, com braços cada vez mais fortes e mais violentos, sobreviver aqui é sofrimento, a cidade está fardada ao fracasso da insegurança pública.

Foz do Iguaçu não é bairro, é condomínio fechado com muros a prova de gente, com carros importados com vidros escuros da indiferença, cidade do medo, medo do pobre e do preto.

Foz do Iguaçu é cidade de elite, gente chique, não gostam de manos ou hippies esses são sufocados pelo estereótipo local, esculachados pela guarda municipal dentro do padrão marginal, nessa cidade não se esqueça só morador pobre morre cedo.

Foz do Iguaçu, a cidade da maior usina hidrelétrica, mas a Itaipu não clareia o tormento dos familiares dos operários que morreram no cimento, tanta produção energética e falta iluminação nas ruas e vielas das favelas, se produz mais contradição do que luz. Depois de desapropriar os indígenas das suas terras tenta se cultivar uma água boa. Água boa é pura, límpida e cristalina, e não essa água que escorre dos rios das opressões das terras privatizadas e dos rios contaminados. Em suma quanta energia desperdiçada!

Foz do Iguaçu não é escola, já que turmas de escolas públicas estão sendo fechadas, corte de gastos, para gerar mais lucro para o estado. Precarização do trabalho. Foz do Iguaçu é prisão, pois essas estão sendo ampliadas, reforçadas, monitoradas e fortificadas cada vez mais. Usado o mesmo dinheiro do estado. Equação da barbárie: + presídio – escola = mais de 200 jovens assassinados ao ano.

Foz do Iguaçu não tem espaços públicos, tudo por aqui é privatizado, se prevalece a lógica privada, em síntese Foz não é uma cidade, é uma grande privada que a burguesia caga, é sempre o trabalhador informal quem limpa, em 98 anos esse é o ciclo. A burguesia caga na cidade e o povo é quem se suja.


* Danilo Georges é historiador e um dos idealizadores do fanzine Adelante
* a ilustração acima é do filme O Discreto Charme da Burguesia (1975), de Luiz Buñuel

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Licenciatura do Campo rompe "cerca do conhecimento"

Aula inaugural no Campus da Unioeste em Cascavel
"Para além das cercas do latifúndio, o rompimento das cercas do conhecimento". É dentro dessa lógica - de aproximação dos movimentos sociais com o ensino superior – que a Unioeste (Universidade Estadual do Oeste do Paraná) desenvolve experiências de Educação no Campo, proporcionando aos camponeses, acesso ao nível superior de qualidade e gratuito.

Sob o lema 'Educação do Campo, Direito Nosso, Dever do Estado e Compromisso com a comunidade', foi realizada a aula inaugural de 2012 do curso de Licenciatura em Educação do Campo, desenvolvido dentro de instituições públicas de ensino superior por meio do 'regime de alternância' – que consiste em organizar o tempo dentro da lógica que possibilite a presença dos camponeses na universidade sem o abandono do campo.

No Paraná, duas instituições oferecem o curso, a Unioeste e a Unicentro (Universidade Estadual do Centro-Oeste). "A intenção é que os camponeses permaneçam no campo, vários deles já dão aulas ou são lideranças de suas comunidades", explica o professor Paulo Porto Borges, coordenador da Educação do Campo na Unioeste. Para ele, a universidade pública tem o papel de garantir acesso ao ensino superior à classe trabalhadora, abrigando e fortalecendo a luta das classes populares.

A turma de Licenciatura do Campo conta com 53 alunos de seis estados: Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Mato Grosso do Sul, Espírito Santo e Tocantins. A maior parte deles é oriunda do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra), mas também há alunos do MLST (Movimento de Libertação dos Sem Terra), MNLM (Movimento Nacional de Luta Pela Moradia), MMC (Movimento Nacional de Mulheres Camponesas), MAB (Movimento dos Atingidos por Barragens) e PJR (Pastoral da Juventude Rural).

Os alunos foram indicados para fazer o vestibular por suas próprias comunidades, como forma de atender uma demanda coletiva. A turma atual está no segundo ano de curso e, a partir do terceiro ano, os alunos serão divididos em duas áreas de conhecimento: Ciências Agrárias e Ciências da Natureza e Matemática. Após formados, eles estarão habilitados para darem aulas na séries finais do Ensino Fundamental e Ensino Médio.

Alguns educandos já são educadores nas comunidades que vivem. É o caso de Clara Orzekoski, que atua há 10 anos como educadora do campo nas escolas itinerantes do MST. Ela é moradora de um assentamento na região do Vale do Ivaí. "Estamos buscando nossa formação, tendo a coragem de resistir, entrando na universidade para abrir esse elo com a sociedade e mostrarmos quem somos, mostrar a luta do homem camponês", destaca Clara.  

A aluna explica que a partir dessa experiência vão se superando alguns preconceitos de parte da sociedade que desconhece a luta dos movimentos sociais de luta pela terra. "Nós trazemos para a universidade a lógica dos assentamentos e acampamentos, vamos vencendo preconceitos, rompendo barreiras e nossos próprios limites", aponta.

Essa lógica da realidade do acampamento é reforçada na novidade para esse segundo ano da licenciatura. Diferente do primeiro ano – onde os alunos ficavam hospedados em um hotel – dessa vez a turma ficará alojada na própria universidade durante o período do curso. Eles permanecerão em um alojamento até o início de agosto. Como o curso é um programa federal, a alimentação e hospedagem ficam a cargo do MEC (Ministério da Educação), enquanto o Estado cede estrutura e professores.

Celso Ribeiro, um dos coordenadores do MST na região Oeste do Paraná, foi um dos convidados da aula inaugural de 2012. "Nossa luta não é só pela terra, mas pela conquista de espaços. O movimento tem uma história bonita dentro da Unioeste, onde conseguimos trazer o debate da questão agrária para dentro da universidade, mesmo diante de todas as dificuldades para cursar um ensino superior. Essa formação é fundamental para que os alunos possam contribuir com o movimento", aponta.

Alexandre Webber, diretor do Campus de Cascavel da Unioeste, afirma que a universidade não pode ficar isolada da comunidade. "Temos o papel de ampliarmos a educação do nível superior, dando condições para que esses alunos permaneçam no campo com condições dignas", destaca. 

Para Paulo Porto, coordenador da licenciatura, o grande desafio é transformar o curso em regular dentro da instituição. "Esse é um momento inédito na Unioeste, um momento de resistência popular, onde os movimentos sociais fincam sua bandeira na Unioeste", conclui.






domingo, 27 de maio de 2012

Reforma agrária: Nove anos do Olga Benário

A partilha simbólica do pão
O Assentamento Olga Benário, em Santa Tereza do Oeste, vem somando conquistas e demonstrando que a reforma agrária dá certo, beneficiando não somente as famílias que conquistaram a terra, mas gerando emprego e distribuição de renda que auxilia a economia da região.

O assentamento do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra), distante 15 quilômetros de Cascavel, completou nove anos neste sábado (26/05). A festa reuniu trabalhadores, amigos e colaboradores da reforma agrária na região Oeste do Paraná. O Sítio Coletivo foi um dos convidados da bela festa organizada pelos trabalhadores rurais sem-terra.

A comemoração foi iniciada com uma celebração ecumênica e a leitura de um texto das tradicionais místicas realizadas pelo MST, rituais que se constituem em práticas pedagógicas e educativas do movimento. Em menção a inauguração da padaria comunitária da comunidade, foi realizada a partilha simbólica do pão por dois jovens sem-terra.

A padaria comunitária produzirá alimentos que são frutos da reforma agrária. O espaço, de 48 metros quadrados, foi construído pelos assentados e contou com doações de aliados da reforma agrária, como sindicatos de Cascavel, caritas diocesanas, paróquias, prefeitura de Santa Tereza do Oeste e comerciantes do município.  

O espaço ainda necessita de acabamentos, mas já está produzindo semanalmente cerca 900 quilos de pães, cucas e bolachas. Esses produtos são entregues a 33 colégios estaduais nos municípios de Cascavel e Santa Tereza do Oeste.

Além da merenda escolar, o Assentamento Olga Benário tem a experiência do PAA (Programa de Aquisição de Alimentos), onde as famílias têm conseguido garantir a produção diversificada de alimentos para a doação a entidades assistenciais e educacionais de Santa Tereza do Oeste.

"A ideia da construção da padaria surgiu em dezembro do ano passado e hoje estamos felizes com essa conquista para a comunidade, teremos um local adequado para produzir os alimentos da reforma agrária. Pretendemos ampliar nossa produção, participar da feira municipal do pequeno agricultor e fornecer nossos produtos ao comércio local de Cascavel e Santa Tereza", destaca a assentada Marilene Hammel, uma das 13 pessoas que trabalham na padaria comunitária.

Além da padaria, o assentamento deverá implantar ainda esse ano um viveiro comunitário para a produção de mudas de hortaliças. Com isso, também será garantido o fornecimento de água para que as famílias possam organizar suas hortas e melhora sua produção e alimentação. O viveiro será viabilizado por meio de um patrocínio da Eletrosul. A comunidade também projeta a construção de um barracão comunitário, um espaço para confraternização das famílias com a sociedade, que deverá ser viabilizado por meio de uma emenda parlamentar do deputado federal Dr. Rosinha (PT).

O militante Eduardo Rodrigues, um dos coordenadores do Olga Benário, destaca as conquistas obtidas pelo assentamento, mesmo diante de uma série de dificuldades. "Ao longo desses anos tivemos que enfrentar a tiraria do latifúndio, o ódio de grande parte dos meios de comunicação e muitas vezes a incompreensão da sociedade, mas dia a dia, fomos conquistando nosso pedaço de terra e cada melhoria de vida com grande esforço e luta", diz o sem-terra.

Ele destaca que as conquistas só foram possíveis graças à união das famílias que lutam até hoje, empunhando a bandeira do MST, movimento que os une e que dá condições para que as conquistas sejam alcançadas. "Também gostaria de agradecer aos amigos e parceiros da reforma agrária na região, que nos acompanham nesses nove anos de luta", conclui Eduardo.

O compromisso de estar na contramão do agronegócio, fazendo a opção pela agroecologia como ferramenta de produção em uma terra sem veneno e agrotóxicos, faz com que os assentados do Olga Benário sigam na luta pela reforma agrária, levando o legado da ex-militante comunista que pregava a luta pelo que é "bom, belo e justo". 

Padaria comunitário do Olga Benário
Produtos da reforma agrária
Produtos da reforma agrária
Eduardo Rodrigues
Eduardo e Marilene em leitura do texto da mística
Celebração ecumênica
Araídes Duarte e a filha Yara

domingo, 20 de maio de 2012

Jornalistas elegem nova diretoria do Sindijor-PR

Visita à Assessoria de Comunicação da Prefeitura de Cascavel
O Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Paraná (Sindijor-PR) realizará de segunda a quarta-feira (21 a 23 de maio), eleição para escolha da nova diretoria que assumirá a entidade nos próximos três anos.  Serão eleitas a direção estadual e as subseções regionais de Cascavel, Foz do Iguaçu e Ponta Grossa.

A atual gestão, sob a presidência do jornalista Marcio Rodrigues deixará a direção no fim de maio. Durante sua administração, a gestão "Sindicato é uma questão de classe" passou pelo cenário do fim da exigência do diploma em 2009, tentativas de rebaixamento do piso da categoria no interior do Estado, entre outras dificuldades, porém os jornalistas paranaenses conseguiram dois aumentos reais nas últimas Convenções Coletivas, fato que não acontecia há 14 anos.

"Há três anos, um grupo de jornalistas se dispôs a dar continuidade a uma ação surgida ainda no fim dos anos 1980 e desde então o Sindijor tem sido uma entidade que atua de forma inequívoca na defesa dos interesses da categoria, incentivando-a a ser uma classe de trabalhadores mais consciente de seus direitos", destaca Marcio.

Apenas uma chapa se inscreveu para eleição. Intitulada "Juntos Somos Mais Fortes", ela é encabeçada pelo jornalista Guilherme Carvalho, de 32 anos. Curitibano, Guilherme trabalha no Sindicato dos Servidores Públicos Municipais de Curitiba (Sismuc). É mestre pela UFPR e doutor em Sociologia pela Unesp, tendo se formado em jornalismo pela UEPG. Cursa pós em Comunicação, Cultura e Arte na PUCPR.

"Os jornalistas do Paraná podem ter certeza de que a entidade será comandada por um grupo que vai defender os interesses dessa coletividade de forma presente e independente, sempre respeitando aquilo que é melhor para a categoria", diz Marcio Rodrigues, em declaração de apoio a chapa inscrita para a eleição.

Dentre os principais desafios elencados pelos candidatos à nova gestão está a inclusão de uma grande parcela de jornalistas distantes das condições previstas na Convenção Coletiva da categoria; como é o caso das assessorias públicas, políticas e privadas, freelancers, funcionários de pequenos veículos, entre outros. Dentre as lutas, destaque para a regulamentação da profissão e a obrigatoriedade do diploma.

Um diferencial da chapa inscrita é a presença de jornalistas do interior fazendo parte da direção estadual, além da pluralidade na composição, reunindo editores, repórteres, fotojornalistas e assessores de imprensa.

Na última semana, Guilherme Carvalho esteve fazendo um roteiro de visitas pelos municípios que elegerão suas regionais; ele passou por redações e assessorias em Foz do Iguaçu, Cascavel e Ponta Grossa. Na oportunidade, o jornalista falou com os colegas da profissão sobre a eleição, divulgando o material de campanha com as prioridades para gestão e a importância do jornalista estar sindicalizado para fortalecer sua entidade representativa.

Guilherme, que participou da gestão do Sindijor entre 2003 e 2006, destaca os avanços conquistados pela categoria nos últimos anos. "Esses avanços são resultado da organização dos jornalistas enquanto classe. Pretendemos dar continuidade ao que vem dando certo", diz.

Por outro lado, o candidato aponta que há muito ainda a avançar. "Para solucionarmos os sérios problemas que ainda existem, é preciso que os jornalistas se percebam como o próprio sindicato. Precisamos trazer para o sindicato aqueles jornalistas que estão dispersos, como os de assessorias, das redações menores, os recém-formados e também os estudantes. Nossas conquistas dependerão da nossa capacidade de participação", afirma.

A eleição do Sindicato dos Jornalistas do Paraná acontecerá durante os três dias, das 9 às 18 horas. Em Foz do Iguaçu haverá duas urnas: uma fixa e outra itinerante pelas redações. Em Cascavel, os votos serão coletados na segunda e terça-feira em redações e assessorias. A urna itinerante da regional ainda passará pelos municípios de Toledo e Marechal Cândido Rondon. Na quarta-feira, última dia da eleição, a urna estará fixa na Agência F 5 Fotografias, na Rua Paraná, 3498.

Estarão aptos a votar os jornalistas em dia com a contribuição sindical. Os profissionais que estiverem com suas contribuições em atraso poderão regularizar a situação para votar, conforme as orientações que serão repassadas pelo coordenador e mesário nos dias de votação.

Abaixo os componentes da chapa "Juntos Somos Mais Fortes"

Diretor-Presidente:
Guilherme Carvalho
Diretor-Executivo: Gustavo Henrique Vidal
Diretora-Financeira: Maigue Gueths
Diretor de Defesa Corporativa: Célio Martins
Diretor de Fiscalização do Exercício Profissional: Ivonaldo Alexandre
Diretor de Formação: Pedro Carrano
Diretor de Saúde e Previdência: Wilson Soler
Diretor de Imagem: Pedro Alexandre Serápio
Diretor de Ação e Cidadania: Ismael de Freitas
Diretora de Cultura: Mauren Lucrécia
Diretora-Administrativa de Assessoria de Comunicação: Ana Cecília Pontes de Souza
Diretor-Administrativo de Interior: Júlio César Carignano
Diretora-Administrativa de Professores e Estudantes: Cristiane Lebelem
Diretor-Administrativo de Esporte, Lazer e Eventos: Filipi Manoel Rodrigues de Oliveira
Diretor-Administrativo Institucional: Fernando César Borba de Oliveira 

Redação da RPC TV
Portal da CATVE

Redação da Gazeta do Paraná
Jornais Hoje/O Paraná
Entrevista à Rádio Globo
TV Tarobá

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Duas obras, um tema e o "manto de sombras"

Luiz Manfredini ministra palestra na Unioeste
A combinação música mais história é sinônimo de ótimos debates no meio acadêmico. Esse formato, idealizado na Unioeste (Universidade Estadual do Oeste do Paraná) pelo professor Alexandre Fiuza, trouxe um tema que está em evidência com a possibilidade da instalação da Comissão da Verdade, que apurará crimes cometidos pelo Estado brasileiro durante a ditadura civil-militar.

Esse debate foi enriquecido com a presença do jornalista e escritor Luiz Manfredini, que esteve nos últimos dias na região Oeste. Nascido em 1950, o curitibano foi personagem dessa história, sendo inclusive preso no período dos 'Anos de Chumbo'.

Em Foz, ele foi um dos convidados do Salão Internacional do Livro, enquanto em Cascavel ministrou a palestra 'Memória da neblina e as moças de Minas: história e ficção sobre a ditadura'. "É a primeira vez que faço uma palestra assim, é muito gostoso ouvir música de qualidade e não ficar aqui só discutindo", diz o jornalista sobre as apresentações dos músicos Ana Carolina Noffke, Sil Vaillões e Giovani Pinheiro, que abriram o debate.

Antes do evento, o 'camarada Manfra' - apelido oriundo dos tempos de militância política no grupo Ação Popular - teve uma prosa com o Sítio Coletivo, onde falou de seus livros mais conhecidos que dão nome à palestra. Falou ainda sobre sua expectativa para a instalação da Comissão da Verdade e a atuação da imprensa na sustentação do golpe de 64 e nos dias atuais. Abaixo trechos deste bate-papo.


[Sítio] 'Memória da neblina' e 'Moças de Minas'
[Manfredini]
Na literatura podemos ter dois olhares sobre o regime, aquele jornalístico, histórico e jurídico, e o olhar da ficção. Diferente da ciência, na ficção não se precisa provar nada, mas está baseado em fatos que podem ter ocorrido. Ela te faz avançar e toca na alma das pessoas, fazendo que elas pensem. O Moças de Minas, publicado em 1989 e reeditado em 2008, é um livro jornalístico, um caso conhecido envolvendo cinco moças que pertenciam a Ação Popular, grupo que militei nos anos 60, onde estudantes se integraram a operários e camponeses. Éramos um grupo diferente dos grupos de Mariguela e Lamarca, que eram organizações armadas. Entendíamos que mais a frente esse seria o caminho, mas naquele momento era impossível, a história mostrou isso, pois do outro lado tinha um exército enorme e fortalecido. Não dava para chegar sozinho, era preciso a participação do campo, das fabricas, enfim, o livro traz depoimentos dessas cinco jovens, pesquisas junto o Supremo Tribunal Militar e uma bibliografia da época vivida, entre os anos de 1968 a 1971, que coincidem com o AI-5 (Ato Inconstitucional número 5). A outra obra, Memória de Neblina, publicada no ano passado, é uma ficção atrelada à realidade vivida nos anos 60. São três cinquentões que se reúnem para falar daquele passado. Fala da dramaticidade de viver naquela época, mas como eles eram adolescentes nessa fase, também há espaço para as brincadeiras, algumas atitudes próprias da idade, como quando vão fazer pichações nos colégios com as palavras de ordem do tipo "Abaixo a ditadura" e poesias de Ferreira Gullar. Esse era um diálogo da época de se unir a poesia e política. Os dois livros dialogam entre si, que se relacionam na problemática, apesar de não serem continuações.

Ditadura e Comissão da Verdade
A ditadura está em evidência novamente no país, devido às circunstâncias políticas, pelo momento democrático que passamos, pela instituição da Comissão da Verdade, ainda que falte a indicação dos membros do governo. Apesar de não ter caráter de punição, acho que a comissão irá prosperar. Há um interesse grande da juventude nisso, prova disso foram ações em frente às residências dos torturadores. É algo que eu não esperava e isso está acontecendo porque a sociedade entende que o país não pode avançar diante de tantas sombras em seu passado, há essa ansiedade em desvendar esse 'manto de sombras'. Ainda que a comissão não puna, é preciso tirar a limpo essa situação.

Recuos na instalação
Os recuos são próprios da luta política, são resultado de uma correlação de forças, assim como foi a própria Lei da Anistia. A comissão não depende exclusivamente da Dilma, talvez essa demora do governo em indicar seus membros tenha causado esse desgaste todo. Precisamos lutar é por uma estrutura que seja ágil, uma comissão que separe o joio do trigo, que comprove o que foi verdade, o que foi mentira e que vale a pena investigar. A própria Lei da Anistia deverá ser questionada, pois sabemos que ela foi imparcial, pois o Estado foi auto-anistiado. O que se cometeu foram crimes de Estado, veja o caso da Argentina, eles agiram positivamente ao radicalizar e o hoje o Videla está na cadeia [Jorge Rafael Videla, ex-general argentino que admitiu os crimes da ditadura]. Basicamente, se a sociedade não se envolver, se não houver pressão social, a comissão não avançará.

A imprensa e o golpe
A mídia brasileira tem três grandes momentos que merecem ser citados. Um primeiro, em 1964, quando a imprensa participa da conspiração que instaura o golpe, assim como já havia participado da oposição a Getulio Vargas. A família Mesquita [proprietária do Grupo O Estado de São Paulo] cedeu veículos aos militares e inclusive comprou armas para se preparar para uma eventual revolta. Nessa mesma fase, os meios de comunicação participam da organização da 'Marcha da Familia, com Deus e pela Liberdade'. Somente um jornal na época, o Última Hora do Samuel Wainer fazia oposição a isso. Um segundo momento é entre 1971 a 1974, quando a mídia começa a se deslocar do golpe, é quando em 1976 começa a censura do regime ao Estadão, através das receitas de bolo e dos poemas de Camões. Eu inclusive trabalhei nessa época para o Estadão, trabalhei pro PIG [Partido da Imprensa Golpista] na época (risos). Nessa mesma fase fui preso quando estava no JB [Jornal do Brasil], que precisou contratar advogados para me soltar. Já o terceiro momento é a fase pós-Lula, onde temos uma oposição direta ao governo, com uma tentativa de golpe em 2006, onde a imprensa começa a agir com o papel político, de partido de oposição. O que a revista Veja faz, por exemplo, não é jornalismo, é criação de fatos políticos que hoje, com esse caso do escândalo do [Carlinhos] Cachoeira, estamos vivendo o auge.

Os jornalistas e o patronato

A mídia privada integra o poder econômico nacional, ela vende um produto que é a informação, mas qualquer informação precisa de um mínimo de credibilidade. Quando a mídia age como partido político, como 'partido do capital', perde essa credibilidade e vai se afastando cada vez mais dos princípios jornalísticos para defender interesse de seus donos. O mais dramático é quando os jornalistas entram nessa onda de achar que a imprensa deve ser intocável e jamais questionada. Todo mundo está sob regulação de seus conselhos, mas só a imprensa não pode ter um órgão regulador. É um absurdo quando os jornalistas assumem a posição do patronato. O Mino Carta [diretor da revista Carta Capital] costuma dizer que esse é aquele profissional que trata os Marinho como se fossem 'colegas' (sic).

Blogs e novas mídias
Isso é um grande dado, veja o caso do livro Privataria Tucana, do Amaury Ribeiro Junior, que sofreu um boicote dos grandes veículos de comunicação, ele estava vendendo igual pão quente em padaria, mas a Veja não o colocava naquele espaço dos mais vendidos, só foi fazer após a pressão de blogs e as redes sociais que começaram a pipocar isso. Esse dado novo vem pra furar esse bloqueio, hoje existem sites, portais, blogs que produzem jornalismo cidadão. Óbvio que é preciso selecionar, pois tem para tudo que é gosto na internet, desde pedofilia até cidadania. Acho que a internet tem alterado a forma de fazer política, está alterando as relações. O grande problema é que acabamos sofrendo da 'síndrome do excesso de informação'.

Caminho da esquerda
As experiências que começaram com a União Soviética acabaram se esgotando, elas tiveram consequências fantásticas para sociedade, mas tiveram erros e precisamos fazer essa leitura. Ela teve a dificuldade de não poder se basear em experiências anteriores, mas serviram para promover os ideais de uma sociedade menos individualista. No início dos anos 90, tivemos uma guinada para o neoliberalismo, que se opunha a isso. Talvez o grande equívoco do projeto socialista foi achar que só existia um modelo único. Existem princípios básicos, é simplismo pensar que tomado o poder, rapidamente o socialismo será implantado, isso traz problemas inclusive para o processo democrático, pois aqueles que não se enquadram são excluídos, promovendo desigualdades sociais. Apesar disso, vimos que o capitalismo não é a solução e que não há perspectiva para esse sistema que tem como objetivo o lucro máximo, o cada um por si.


*   Luiz Manfredini é jornalista e escritor em Curitiba. Trabalhou em O Estado do Paraná, TV Iguaçu, O Estado de S. Paulo, Jornal do Brasil e revista IstoÉ, entre outros órgãos de imprensa. É colunista do portal Vermelho, membro do Conselho Editorial da revista Princípios, editada em São Paulo, e coordenador da Fundação Mauricio Grabois.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Sítio Coletivo: um ano de luta!

Há exatamente um ano, a porteira deste sítio foi aberta. Ele foi criado de forma despretensiosa, especialmente por manter minha ânsia pela escrita mesmo distante das geladas e lineares redações tradicionais. Despretensões a parte, a intenção do Sítio Coletivo sempre foi se pautar pelos preceitos da liberdade de expressão, da função social do jornalismo e do contraponto de discursos homogêneos que acabam se tornando hegemônicos.

Esse espaço foi concebido na mesma data em que se comemora o 'Dia Mundial da Liberdade de Imprensa', um debate que sempre esteve presente por aqui. Nunca questionei a se há liberdade da imprensa, pois acredito que ela é plena, inclusive a liberdade de mentir, omitir, manipular, criminalizar e agredir. Porém, a pulga que fica é: "pode haver liberdade de imprensa sem liberdade de expressão?"

Não se discute liberdade de imprensa sem tocar em questões como 'libertinagem de empresa', sem discutir monopólio midiático, propriedade cruzada dos meios de comunicação e a ausência de um marco regulatório da mídia. Sem tocar em pontos como: quem pode ter um meio de comunicação? Quem pode escrever nele? Quem consegue concessões de rádio e TV? Quais segmentos sociais são representados nos espaços midiáticos? 

Há 12 meses decidi aderir a 'blogosfera', esse fenômeno que tem possibilitado a expansão de uma nova forma de fazer jornalismo - que apesar de não ser profissional - tem aberto um caminho importante para a construção de cidadania e de democratização dos meios de comunicação e da liberdade de expressão.

A internet avança, mesmo sem o Plano Nacional de Banda Larga em prática, e os blogs começam a se firmar como fontes de informação. Se a informação é um bem coletivo, todo cidadão tem direito a informar e ser informado. É assim que a comunicação deixa de ser vertical para ser horizontal e, diante disso, esse sítio sempre teve a pretensão de ser um espaço 'coletivizante' e 'colaborativo'.

Desde a primeira postagem, sempre fiz questão de deixar claro que esse espaço tem um lado e o assume sem vergonha alguma. Talvez esteja aí a grande diferença entre a blogosfera e os veículos tradicionais. Não acredito em neutralidade em qualquer setor da vida, assim como não acredito em 'centrismo' e afins, motivo que neste espaço nunca foram 'vendidas' fantasias como da imparcialidade; mentira propagada pelos meios de comunicação desde o primeiro jornal publicado no país, sob a direção editorial de Dom Pedro.

Neste primeiro ano de luta, algumas postagens merecem uma menção especial: a cobertura do 1º Encontro Mundial de Blogueiros, em Foz do Iguaçu, oportunidade que pude conhecer e bater um papo com o cartunista e ativista Carlos Latuff; a entrevista com professor Nildo Ouriques, que dirige o IELA (Instituto de Estudos Latino-Americanos); a história do artista de rua Fillipe Monteiro, que tem o sonho de conhecer Eduardo Galeano; a visita da jornalista estadunidense Lynette Wilson ao MST em Cascavel; além das postagens relacionadas ao midialivrismo, a comunicação popular, cultura, povos indígenas e movimentos sociais.

Ao completar um ano, o Sítio Coletivo reafirma seu compromisso com uma informação horizontal e plural, pois somente assim chegaremos a uma comunicação verdadeiramente democrática. Esse espaço acredita na função social do jornalismo e da informação, função que é constantemente relegada em favorecimento aos interesses de patrocinadores, financiadores, interesses comerciais e dos donos dos meios de comunicação.

Esse é um sítio sem cercanias, uma terra comunal e de pouca extensão, de produção saudável, livre dos 'agrotóxicos' e dos 'agentes laranjas' da velha mídia, mas como pitadas de veneno subversivo e transgressor. Durante a semana, um camarada me lembrou de uma frase de George Orwell que dizia que "jornalismo é publicar algo que alguém não quer que seja publicado (...)".  Tecnicamente, o Sítio Coletivo não tem a pretensão de produzir o 'jornalismo', mas entende que ele não pode ser uma mera peça da engrenagem de realimentação do sistema e seus discursos, deve ser uma atividade, acima de tudo, 'áspera e verdadeira'.