sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Solidariedade ao povo palestino

Evento definiu metas e visou a criação de um Comitê Nacional
* Por Carolina Wadi

Em comemoração ao Dia Internacional de Solidariedade ao Povo Palestino, foi realizado de 25 a 28 de novembro na Escola Nacional Florestan Fernandes, em Guararema (SP), o I Encontro Nacional de Solidariedade ao Povo Palestino que reuniu dezenas de pessoas, entre elas militantes e refugiados palestinos, representantes de movimentos sociais e partidos políticos e demais organizações da classe trabalhadora brasileira. 

Os debates tiveram como objetivo a construção coletiva de denominadores comuns que pautarão a luta de solidariedade e a criação de um movimento social e político de caráter internacional, que garanta condições dignas de vida, trabalho e liberdade ao povo palestino. A meta agora é a consolidação de um Comitê Nacional e a preparação do Fórum Social Palestina Livre, programado para novembro de 2012 em Porto Alegre (RS).

Várias lideranças estiveram presentes no evento, entre elas Jamal Jumá, membro fundador da Palestinian Agricultural Relief Committees, da Palestinian Association for Cultural Exchange e da Palestinian Environmental NGO Network. Desde 2002 Jumá é um dos coordenadores da campanha contra o muro do apartheid e é também membro do Conselho Internacional do Fórum Social Mundial. Abla Saadat, militante palestina pelos direitos humanos, atua denunciando as condições precárias e maus tratos a que são submetidos os presos políticos por Israel. É esposa de Ahmad Saadat, secretário-geral do partido palestino Frente Popular para a Libertação da Palestina, preso desde 2002. Leila Khaled, considerada uma das maiores líderes da Frente Popular, preside a União Nacional das Mulheres Palestinas e é membro do Conselho Nacional Palestino. 

Também estavam presentes o embaixador da Autoridade Palestina no Brasil, Ibrahim Al Zeben; Atef Saa da Palestinian General Federation of Trade Unions – PGFTU; Ruba Odeh da Union of Palestinian Women Committees; Mahmoud  Zwahre do Popular Struggle Coordination Committe; Abdallah Abu Rahma do Bil'in Popular Committee, entre outros.

Futebol, água e café

Um dos principais assuntos debatidos foi de que forma o Brasil vem contribuindo para que o regime de apartheid cometido por Israel continue. O Brasil tornou-se um objetivo estratégico para a economia de guerra israelense, em constante busca de novos mercados e alianças econômicas que sustentem sua política de colonização e guerras. Entre 2005 e 2010, nosso país era o 4º maior importador de armas israelenses do mundo, iniciou vários empreendimentos conjuntos com produtores de armas e a indústria de armas israelense comprou companhias brasileiras.

Veja alguns exemplos:

- Rifle Tavor: Foi desenvolvido pelas Indústrias Militares Israelenses (IMI) durante a segunda Intifada e a Guerra de Gaza. Foi dada a Taurus no Brasil a licença para produzir esses rifles que são comprados pelo exército brasileiro.

- Elbit Systems: Fornece armas israelenses que matam civis em "execuções extra-judiciais" e equipamentos para o Muro do Apartheid e assentamentos. Comprou três empresas brasileiras (AEL, Ares Aeroespecial e Defesa S.A e Periscópio Equipamentos Optrônicos S.A)

- Segurança Nacional: A indústria militar israelense tem como objetivo bilhões de dólares em contratos em preparação para a Copa do Mundo de 2014 e Olimpíadas de 2016 no Brasil. Das sete companhias de armas israelenses, seis delas tem vínculos comprovados com as violações israelenses na IV Convenção de Genebra.

Mas não é só o belicismo israelense que está em solo brasileiro. Em 2011, a companhia israelense nacional de água, Mekorot, lucrou muito por aqui. Em 6 de maio, o ministro da indústria e comércio de Israel, Shalon Simhon, assinou acordo de cooperação técnica com a Sabesp, a empresa de abastecimento de água de São Paulo. A indústria de água israelense está fundada na colonização da terra palestina e rouba recursos naturais, sendo assim, os consumidores brasileiros contribuem, mesmo sem saber, com a perpetuação dos crimes cometidos por Israel.

Até o nosso cafezinho está manchado de sangue pelo terrorismo israelense. O grupo Strauss identificou, uma década atrás, o Brasil como alvo estratégico de sua expansão e hoje controlam o Café Três Corações, Santa Clara e Fino Grão. Em 2006 o grupo Strauus anunciou um crescimento impressionante de 26% no Brasil que ajudou a compensar um declínio global dos lucros do grupo. Parte desses lucros está apoiando as forças de ocupação israelenses, terminando em assentamentos ilegais no território palestino ocupado na Cisjordânia. O grupo Strauss se orgulha de seu apoio às forças de ocupação israelenses, mais precisamente as brigadas Golani, uma unidade de combate agressivo que viola regularmente os direitos humanos e lei internacional. Soldados da Golani têm sido condenados por espancamentos de detidos palestinos e por força-los a cantar canções de perversão sexual e humilhação, sempre com os olhos vendados.  Consumidores brasileiros de café estão, nesse momento, sem se dar conta, tornando lucrativo esse negócio. 

Boicotes, Desinvestimentos e Sanções 

Após a apresentação dos dados sobre a participação do Brasil na estratégica militar e colonialista de Israel, as discussões se voltaram para as medidas de boicote encabeçadas principalmente pela BDS. Há seis anos foi lançada por diversas organizações da sociedade civil palestina a campanha BDS (Boycott, Divestment and Sanctions) a empresas, produtos e serviços que financiam o apartheid israelense. Neste ano a iniciativa prioriza o embargo militar integral a Israel, até que se cumpram as reinvindicações fundamentais dos palestinos: 

- O fim imediato da ocupação militar e colonização de terras árabes, e a derrubada do muro do apartheid, que vem sendo construído na Cisjordânia desde 2002.

- O reconhecimento dos direitos dos cidadãos palestinos à autodeterminação, à soberania e à igualdade.

- O direito de retorno dos refugiados palestinos às suas terras, das quais vem sendo expulsos desde 1948. 

- Libertação dos milhares de presos políticos.

O BDS já resultou em conquistas significativas, como o rompimento de contratos milionários de empresas que atuam na construção do muro, dos assentamentos e outros aparatos de segregação na Palestina. Outra prova do seu sucesso foi a decisão do Governo da Noruega de desinvestir em companhias israelenses que detinham no currículo essas práticas colonialistas. Ainda como parte dessa iniciativa, em 2010, sindicatos de portuários da Califórnia, Suécia, Índia e África do Sul promoveram protestos e se recusaram a descarregar navios comerciais israelenses ou com cargas provenientes daquele destino. 

No campo acadêmico, a Universidade de Johanesburgo suspendeu acordo de cooperação e intercâmbio com a Universidade de Bem Gurion, por sua cumplicidade com a violação dos direitos humanos.

Apesar desse movimento vir se expandindo em todo o mundo, no Brasil ainda é preciso avançar bastante. Estudo promovido pela organização Stop The Wall denuncia que o TLC (Tratado de Livre Comércio) Mercosul-Israel, inclui a venda, em território brasileiro, de produtos feitos em assentamentos ilegais na Cisjordânia. Além disso, a USP (Universidade de São Paulo) e a CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) têm firmado acordos de cooperação e intercâmbio com instituições israelenses, sobretudo nos últimos anos. 

A organização Stop The Wall alertou que essas iniciativas garantem que as guerras, ocupação e colonização israelenses continuem a gerar lucros. E enfatizou que esses laços põem em questão o compromisso do governo brasileiro em apoiar os direitos humanos, a paz e a criação de um Estado Palestino. O Brasil não pode conciliar a cumplicidade com as graves violações da lei internacional por parte de Israel e as aspirações a potência mundial emergente, defensora dos respeito à lei internacional e aos direitos humanos. 

Carta de Princípios 

Ao final do evento foi redigida uma carta com 14 princípios que irão nortear as ações do Comitê Nacional de Solidariedade ao Povo Palestino, tendo a finalidade de potencializar e articular a construção de campanhas de solidariedade em curso no Brasil e futuras ações que foram apontadas no decorrer do encontro.

Entre os princípios estão: Defender o direito legítimo do povo palestino de lutar contra a ocupação israelense; Reconhecimento do Estado Palestino como membro pleno da ONU; Fortalecer a luta pela libertação dos presos palestinos, entre eles os 22 parlamentares que se encontram hoje em cárcere; Intensificar a luta contra o Tratado de Livre Comércio Mercosul-Israel; Intensificar a campanha brasileira pelo boicote e desinvestimento contra Israel; Lutar contra o bloqueio econômico, político e militar imposto por Israel ao povo de Gaza; Defender o direito de todos os palestinos de retornarem para sua terra e apoiar as mobilizações populares contra a ocupação israelense.

*Carolina Wadi é jornalista e tem sangue palestino correndo nas veias 

Debates foram realizados na Escola Florestan Fernandes

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